Carta 14 – a temperança

Não me peça conselhos,
só tenho histórias

Do passado,
lembrança é invenção

Da saudade,
memórias são mentiras

Do presente,
humor é regra

Das dores,
feridas (que) estão secas

Do futuro,
nem luz, nem frio

Ao tempo,
o respeito é dado

um brinde!

Aos homens covardes que entraram no meu caminho,
meu perdão silencioso

Aos sensíveis,
meu afeto

Aos melancólicos,
minha solidariedade

Aos egoístas,
meu lamento

Aos covardes que tirei do meu caminho,
minha saudação.

 

Rumo

Não tema
e não teima!

O medo é constante,
é aviso
e também apego

meu medo
não tem tamanho,
só não tem cor

mas não o temo
pois
sem o medo
o que seria da coragem
em mim?

Ponta Cabeça

E amanheceu
Eram corpos molhados
Do suor do prazer
Das mãos pelas pernas
Do toque dos braços
Apertos de afeto
Consonante harmonia
Sobrava carinho
Olhares profundos
Sorrisos fáceis
Ouvidos ágeis
Concentrados no instante
Da brevidade do encontro

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Recado dentro do livro

Ah marinheiro!
Como eu queria poder ter seguido viagem contigo.
Não fossem as tarefas que a hierarquia me trouxe,
Teria abandonado timão, âncoras, o barco todo
para viver contigo essa aventura de amanheceres tão distintos
E sempre desconhecidos

Seria de certo, novidade todo dia!
Como voltar a ser maruja,
quando a ansiedade do novo superava o medo do desconhecido,
quando tudo isso não era óbvio.
E ao cair da tarde, a noite chegaria
como um abraço silencioso.

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o sino e o som

eu sou o sino e o som
e a fúria
o sermão
a soberba
o sabão
a sujeira
o sermão e a cegueira

eu sou o sino
se o se se sabe
si em si não
e aí, sou sério
ou sou sarro e saio
o super-homem no jornal
me soa super superficial

eu sou o som
sou o sinto
e sinto, sei
sinto o sou
e não sei
sou o sei e o não
sei o sou e o senão

o sino e o som
sou são somos sou
sexo sagrado
sol e sombra
sal do suor
descanso enfim
sou o sono e o sim

eu sou o sino
a sinfonia
a surdez,
sempre e
sábado
o segredo e a surdina
eu sou a sina

eu sou o sino e o som
algo sacode dentro de mim
que tento ir além e não vou
não vou e dói mas dói e vou
a dor me torna maior
enquanto aviso a todos
que já é hora

eu sou o sino
o som
o sangue
e
não importa o que for,
eu sei que você sabe —
já é hora

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