os velhos tempos

lembra
quando martelavam nos nossos ouvidos
-seja alguma coisa-?
é como se fosse outra vida,
como se fossemos coisa nenhuma
e,
hoje,
que já fomos tanta coisa,
o mesmo -seja alguma coisa- ainda ecoa
nas paredes de nossas caixas cranianas.

no momento em que nos tornamos
alguma coisa
deixamos de ser outras mil,
nós precisamos,
abrir mão é necessário de vez em quando
mas vocês conseguem contar quantas vezes
perdemos aquilo que segurávamos
com o punho cerrado?

sou os buracos no caminho
o zigue-zague até aqui
as cervejas e os vinis
as palavras ditas e ouvidas,
escritas e lidas,
riscadas e
cuspidas:
sou sendo
sou alguma coisa
sempre fui

estes são os velhos tempos
para que,
quando a nostalgia apertar,
a ilusão seja a ilusão da ilusão:
realidade de que além de velhos,
os tempos de hoje também foram verdade —

tudo aquilo que tentaremos relembrar e sentir
tudo aquilo que podemos confiar
no meio de tantas certezas
das quais desconfiamos
tudo aquilo que escorrerá por entre os dedos
do nosso punho cerrado em desespero
e orgulho.

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parcialmente sob as cobertas,
debaixo da carne e noite adentro,
onde os poemas fazem cócegas,
há um poste solitário, apenas um —
a luz só precisa iluminar a si mesma.
você não sabe —
o seu sangue não corre em vão;
corre com a pressa de quem sabe
a importância da matemática
mas nunca aprendeu a contar.
fecho a porta
e você diz que não há porta.
no mundo real, as pernas erram os passos;
mesmo com os cadarços bem amarrados,
é fácil tropeçar no próprio tropeço.

você não quer
seu sangue derramado inutilmente;
como se apenas o baque do seu corpo
ao cair inerte e sem vida no solo
já não fosse suficiente para fazer a terra hesitar —
e aí, o dia duraria um pouco mais
e o planeta ficaria pra trás.

em vão, as pernas erram pelo mundo real —
seus passos derramados na pressa
correm com o sangue de quem
sabe a matemática das cócegas
onde os poemas fazem-se importantes.
e aí, te espero no fim de uma carta
em que as palavras sonham ser carne.

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Carta 14 – a temperança

Não me peça conselhos,
só tenho histórias

Do passado,
lembrança é invenção

Da saudade,
memórias são mentiras

Do presente,
humor é regra

Das dores,
feridas (que) estão secas

Do futuro,
nem luz, nem frio

Ao tempo,
o respeito é dado

um brinde!

Aos homens covardes que entraram no meu caminho,
meu perdão silencioso

Aos sensíveis,
meu afeto

Aos melancólicos,
minha solidariedade

Aos egoístas,
meu lamento

Aos covardes que tirei do meu caminho,
minha saudação.

 

Rumo

Não tema
e não teima!

O medo é constante,
é aviso
e também apego

meu medo
não tem tamanho,
só não tem cor

mas não o temo
pois
sem o medo
o que seria da coragem
em mim?

Ponta Cabeça

E amanheceu
Eram corpos molhados
Do suor do prazer
Das mãos pelas pernas
Do toque dos braços
Apertos de afeto
Consonante harmonia
Sobrava carinho
Olhares profundos
Sorrisos fáceis
Ouvidos ágeis
Concentrados no instante
Da brevidade do encontro

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