parcialmente sob as cobertas,
debaixo da carne e noite adentro,
onde os poemas fazem cócegas,
há um poste solitário, apenas um —
a luz só precisa iluminar a si mesma.
você não sabe —
o seu sangue não corre em vão;
corre com a pressa de quem sabe
a importância da matemática
mas nunca aprendeu a contar.
fecho a porta
e você diz que não há porta.
no mundo real, as pernas erram os passos;
mesmo com os cadarços bem amarrados,
é fácil tropeçar no próprio tropeço.

você não quer
seu sangue derramado inutilmente;
como se apenas o baque do seu corpo
ao cair inerte e sem vida no solo
já não fosse suficiente para fazer a terra hesitar —
e aí, o dia duraria um pouco mais
e o planeta ficaria pra trás.

em vão, as pernas erram pelo mundo real —
seus passos derramados na pressa
correm com o sangue de quem
sabe a matemática das cócegas
onde os poemas fazem-se importantes.
e aí, te espero no fim de uma carta
em que as palavras sonham ser carne.

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Carta 14 – a temperança

Não me peça conselhos,
só tenho histórias

Do passado,
lembrança é invenção

Da saudade,
memórias são mentiras

Do presente,
humor é regra

Das dores,
feridas (que) estão secas

Do futuro,
nem luz, nem frio

Ao tempo,
o respeito é dado

um brinde!

Aos homens covardes que entraram no meu caminho,
meu perdão silencioso

Aos sensíveis,
meu afeto

Aos melancólicos,
minha solidariedade

Aos egoístas,
meu lamento

Aos covardes que tirei do meu caminho,
minha saudação.

 

Rumo

Não tema
e não teima!

O medo é constante,
é aviso
e também apego

meu medo
não tem tamanho,
só não tem cor

mas não o temo
pois
sem o medo
o que seria da coragem
em mim?

Ponta Cabeça

E amanheceu
Eram corpos molhados
Do suor do prazer
Das mãos pelas pernas
Do toque dos braços
Apertos de afeto
Consonante harmonia
Sobrava carinho
Olhares profundos
Sorrisos fáceis
Ouvidos ágeis
Concentrados no instante
Da brevidade do encontro

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Recado dentro do livro

Ah marinheiro!
Como eu queria poder ter seguido viagem contigo.
Não fossem as tarefas que a hierarquia me trouxe,
Teria abandonado timão, âncoras, o barco todo
para viver contigo essa aventura de amanheceres tão distintos
E sempre desconhecidos

Seria de certo, novidade todo dia!
Como voltar a ser maruja,
quando a ansiedade do novo superava o medo do desconhecido,
quando tudo isso não era óbvio.
E ao cair da tarde, a noite chegaria
como um abraço silencioso.

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