ave

uma ave de rapina carrega m
eu coração: ninguém
me ensinou a esquecer. chut
ando pedras pela cidade vaz
ia como se fosse um milagre fic
ar sem causar problemas. faz
endo planos, o presente é pas
sado num piscar de olhos, o te
mpo inteiro. mas uma hora é se
mpre uma hora. daqui a 10 anos,
apenas 10 anos terão passado. o
carrossel gira e sempre está lá n
o mesmo lugar. entre suas garras,
uma ave de rapina ainda car
rega meu coração
e,
desse jeito,
eu viajo o mundo.

na fotografia II

na fotografia II

o vento sopra as fotografias
pela janela
e o tempo, embora mais velho,
mantém seu ritmo calmo e violento.

as ondas na praia são certeza
da lua irresoluta;
tornei-me aquela memória
indigna de confiança
que sempre me supus.

a luz azul está desaparecendo
aos poucos, ao longe.
o barulho continua me perseguindo
–eu tentei ser tudo
e não fui nada.

entendendo devagar que
não existe daqui a um ano
nem daqui a dez anos
–meu pra sempre durante
um átomo de tempo.

o vento sopra as fotografias
pela janela
e as águas salgadas e geladas do mar
ignoram nossos sorrisos anacrônicos.

nada (apenas tudo)

estávamos andando sobre as ondas,
ondas de vidro, colinas realmente.
e aquilo era só a gente; eu e você.
andamos até notar o horizonte:
a terra quadrada como um tabuleiro.
só faltavam os antípodas lá embaixo.
na ponta do mundo, miramos o espaço —
o infinito cósmico: o grande vazio,
nada na nossa frente, apenas
tudo. e, na inocência da ignorância,
caí: acabou o equilíbrio do nosso mundo,
éramos um tabuleiro de ondas sólidas
sobre uma pequena bolinha de gude.
no caminho até o chão, tudo ficou claro —
e eu sabia então que a queda iria
estilhaçar o vidro com o impacto
e tornar água todo aquele mar.
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a.v.

sobre cair

nessa cidade,
a chuva sempre cai igual —
as gotas nunca caem com convicção;
são pingos que hesitam e vem
sem lembrar que o chão
é o seu destino;
sem saber que há um ciclo
e que novamente estarão no alto,
na beira do pulo
e quando caírem
será na dúvida
para a morte
e para a sobrevida —
às vezes, lentamente
outras, bem rápido;
sem parar.
não é possível parar.
esperar é movimento
e olhar para o céu também;
quando pisamos numa poça
a nossa água é a água da chuva
e saímos pisando incertos
seguindo adiante
sem lembrar que o chão
é o nosso destino;
sem saber que há um ciclo
e que novamente estaremos no alto,
na beira do pulo
e quando cairmos
será na dúvida
para a morte
e para a sobrevida —
às vezes, lentamente
outras, bem rápido;
sem parar.
não é possível parar.
esperar é movimento
e olhar para o céu também;
nessa cidade,
a chuva sempre cai igual;
como os corpos dos que se matam.
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a guerra

a porta
nos ombros.
//a memória engana;
//o corpo se renova;
//a mente trapaceia;
o vizinho
me emprestava açúcar;
//reclama dos passos;
//critica minhas cores;
//grita na janela;
alguns
morrem.
//nós os parabenizamos;
//mandamos cartões;
//eles tomam o tiro;
um seio,
alguns dedos.
/não existe a pausa;
//a consciência corre
///como sangue derramado
////e precisamos de mais
e
mais
e mais
e mais e mais:
o pulso, os pulsos,
o vizinho, a amante,
a frentista, o carteiro,
mais, e mais, o inimigo,
mas mais movimento, bem mais:
nós precisamos de algo que acompanhe
nosso corpo nossa alma nossa luta
que seja dentro e fora e
ultrapasse a pele
(…)
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a alma
pesa e sangra:
quando abrir a porta
pra onde ela vai dar?
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4 am

não consigo dormir:
a esta hora,
já as verdades
são trêmulas.
o desejo é necessário;
há de, no mínimo, desejar-se
um copo d’água.
o meu norte é o caos —
a chama me chama:
a chama que ilumina
fracamente
a escuridão
me chama;
eu, seduzido,
me queimo.

não consigo dormir;
já a dor que me mata
é prazer
e o prazer que me mata
é dor
inescapável
que teima em não se decidir;
que queima e treme
e ilumina fracamente
o corredor;
a noite é bela, violenta,
aterrorizante —
o que não se vê está lá
mas o que não está
também não se vê.
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Apenas

por Danilo Crespo e Pedro Lopes

Quando acordei
Não te vi do outro lado
E pensei
Se o colchão tinha
Me engolido,
Sozinho.

O quarto era glacial
Nosso inverno no ar
condicionado
A boca seca por água
O corpo seco e
Sozinho.

Me perguntei se
Levantar era preciso
E sempre é.
Vi penas no lençol
E chão

Impulso; colisão
Meu corpo esvaiu-se
da física
e levantando,
eu já estava caído.

Quando caí em
Mim, foi você que vi.
E não havia vidro
Espelho?
Nenhum caco de nós
Ou ontem

E te toquei
Como quem toca
banjo;
lentamente ressoamos
parede afora

O vizinho sequer
Reclamou.
Surdo,
Foi absurdo o
Nosso som

E sem regra
sem refrão
a gente cantou junto
uma só
canção.

Mas, sabe quando
O microfone falha
E a segunda voz
Assume. Apenas
Repito: há penas

No chão, na cama,
Em todo o lugar,
Se procuro,
há mais
e se encontro
amor

a televisão
ligada, me diz
que o sono me venceu.

E
insiste em mostrar
que você
acordou
sem dormir

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