Viktor/Chance

jeito de lutador de boxe
cara de poucos amigos
leitor ávido de Hemingway
cigarro sempre na boca
tique nervoso na perna
atenção ao redor
barba por fazer
brincadeira com o isqueiro
postura de lobisomem
um passo na frente
tomando mais um pouco
mas sem resultado
sem resultado
sem resultado

movimentos rápidos
visão noturna
coceira na ponta do nariz
troca um pouco de si
por um pouco de paz
velocidade e energia
passa moeda pelos dedos
olheira de sempre
o, meu amigo, se você
tivesse conseguido aquilo
aquilo que você queria
ah, meu amigo, teria sido diferente
teria sido diferente
teria sido diferente?

o, meu amigo,
estala os dedos e o pescoço
abre a boca na chuva
espera efeito
do que não dá o efeito esperado
a família
quem é a família
o, meu amigo,
grandalhão e estilhaçado
cheiro de mar
milkshake de baunilha
ah, meu amigo, se você soubesse
se apenas você soubesse
onde você pode chegar

a chave abre a porta-
e ah, nós fomos ao inferno
nós visitamos o diabo em pessoa
conhecemos sua senhora
nós vivemos o inferno
o inferno o inferno o inferno
o fogo de lá é uma faísca
que não se entende
mas que queima eternamente
assim é o inferno-
você pode entrar,
você é a única pessoa
a única coisa
por quem nós dois nos apaixonaríamos

o, Viktor, o leite da sua mãe azedou
o imaginário do amor cria as coisas mais lindas
mas a beleza perde o brilho, o suor pede cansaço,
a navalha perde o fio, a memória se esquece.
a culpa não é sua, é nossa, por isso você deve ir
respirar o ar que nos faltou, descobrir-se, existir
ver de que cor é o seu sangue
gostar ou odiar aquilo que nunca chegamos a concordar
– azeitonas, suco de acerola, jiló, lençóis –
pular na piscina, ver se sabe mesmo nadar sozinho,
quem sabe virar mais que um fantasma de nós dois,
o, cara, se você pudesse, o que você faria
o que você faria
o que você faria, então?

real dry socks

clockworks running gradually faster at dawn,
a day’s always full and the rituals are on.
the wake of one man or all men.

cloudness, no astonishment, a steady face,
the eyes filled with unrest, hands contorted,
feet horrendously dry in the middle of the flood.

keeps walking with its contours disappearing,
dirty with blood and milk all over,
going farther adrift by an implicit code.

taking over what despises,
becoming what hates
and afraid of what really is.

O grito

Substitua-me por um gato e você verá o quanto é bom a solitude. O sol é recebido com alegria e faz parte do deleite matutino. Eu fui viajar e deixei um gato para você. Quando eu te busquei, o gato ficou no jardim da sua mãe e você optou pelo amor livre. Sofreu calada e eu me senti culpado. Tabu. Hoje me sinto mais culpado por não ter aproveitado todo o amor que você guardou para mim, uma vez que aquele bicho já não precisava dele tanto quanto eu. Eu sorri, fiquei uns dias, mas não consegui. Busquei outro gato para que você pudesse se ocupar mais com isso que comigo. Premeditado fui, estava de saída muito antes de lhe comunicar. Eu queria receber o seu amor, mas algo me impedia. Seus sentimentos extremos não me permitiam a lucidez. Insônia, falta de apetite. Medo. A fragilidade exposta e eu impotente. Sem gato. Sem telhado. E muito amor. E dor. Silencio e pratos quebrados. O gato lambeu o sangue misturado com leite na área de serviço. E encontrar-te morta, sorrindo, acalmou a alma.