ave

uma ave de rapina carrega m
eu coração: ninguém
me ensinou a esquecer. chut
ando pedras pela cidade vaz
ia como se fosse um milagre fic
ar sem causar problemas. faz
endo planos, o presente é pas
sado num piscar de olhos, o te
mpo inteiro. mas uma hora é se
mpre uma hora. daqui a 10 anos,
apenas 10 anos terão passado. o
carrossel gira e sempre está lá n
o mesmo lugar. entre suas garras,
uma ave de rapina ainda car
rega meu coração
e,
desse jeito,
eu viajo o mundo.

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inconstante

as fotografias são leves
o vento as sopra para fora da janela
no frio do inverno que parou no tempo.
o tempo, embora cada dia mais velho,
mantém seu ritmo calmo e violento.
as ondas na praia são certeza
da lua irresoluta.

    tornei-me aquela memória
    indigna de confiança
    que sempre me supus.
    a luz azul está desaparecendo
    aos poucos, ao longe.
    o barulho continua me perseguindo –
    eu tentei ser tudo e não fui nada
    além de um vestígio,
    uma pedra no caminho.

entendendo devagar que
não existe daqui a um ano
nem daqui a dez anos –
meu pra sempre durante
um átomo de tempo.
e já todos perderam a confiança em mim
além de mim mesmo.
não quero cantar o dia nublado
ainda que prefira isto
a reclamar do sol e da chuva.

    você já é muito diferente
    do que eu possa lembrar.
    meu coração aberto rachou-se
    agora estou afogado no fundo do oceano.
    em algum lugar da superfície
    ainda permanece a luz azul
    como um farol de esperança,
    há um lugar para abarcar
    e respirar em segurança,
    vivo.

O tempo e os seus olhos/あの魚

O peixe nada
e eu sigo com um fio de esperança mas nada,
peças nítidas emergem nas bolhas,
peças da minha cabeça quebrada.
Lembra aquela cerveja, aquela chuva, o beijo?
Há um oceano para as peças se afastarem
lentamente e sem motivo.
O que será que nós estávamos pensando naquele dia?

O ponteiro é uma máquina, às vezes para.
Num lago tranquilo, o calendário não faz sentido:
a água como os braços de mãe, apenas envelhecendo, presente.
O relógio marca a hora, nem que seja a hora errada.
A cachoeira mergulha com força,
o peixe foge, esguio e assustado.
Meus olhos seguem o peixe
e, de todos os peixes, este faz curvas,
vira de um lado para o outro.

Vejo as peças no rio correndo depressa,
de curva em curva, suas curvas,
que me deixaram perdido sem saber o caminho de volta.
O peixe não foge dos meus olhos
– e não é um sonho, é um aquário:
minha cabeça vai se remontando devagar,
as peças rearrumadas de uma forma
que eu nem imaginava que poderia existir.

Não é nem um sonho, nem um aquário:
o peixe passeia por um lugar mais apertado.
Lá dentro há uma gota d’água,
uma gota maior que toda a hidrosfera,
que tece, com a precisão de uma agulha,
o tempo.

Diante dos seus olhos grandes de curiosidade e Mar
tem tudo e todas suas pequenas ramificações.
Diante dos seus olhos tem tudo e o peixe
nada.