cidades estranhas

É uma estrada;
possui um vazio
quase mais leve que a neve,
quase mais leve que o nada:
um vazio de criança despreocupada.
A pele sente um sentimento amplo
e o que se vê é um campo,
uma bola, uma boneca,
um beijo na testa
no fim da festa.
Diante dos meus pés,
a estrada se desenrola,
cansado e sem coração,
passo pesado
e caco de vidro na sola,
o corpo é recriado pela canção:
Carrega-se a pedra no meio do caminho.
Mas, de repente,
sinto o farol e me assusto.
Se tento olhar um pouquinho,
meus olhos ardem na luz incerta,
abrem como uma mente aberta.

Paralisado,
eu não tenho certeza se é um sonho.

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ave

uma ave de rapina carrega m
eu coração: ninguém
me ensinou a esquecer. chut
ando pedras pela cidade vaz
ia como se fosse um milagre fic
ar sem causar problemas. faz
endo planos, o presente é pas
sado num piscar de olhos, o te
mpo inteiro. mas uma hora é se
mpre uma hora. daqui a 10 anos,
apenas 10 anos terão passado. o
carrossel gira e sempre está lá n
o mesmo lugar. entre suas garras,
uma ave de rapina ainda car
rega meu coração
e,
desse jeito,
eu viajo o mundo.

O sonho do carrasco

Todo dia
um olhar de perdição no rosto do filho de alguém.
Desolado, os passos lentos em direção ao fim
do corredor são tangíveis. Tão tangíveis
quanto a voz do martim-pescador cantando
na terra do fogo impiedoso. O sismógrafo
por trás dos seus olhos tenta desabituar-se
ao indigesto sol da tarde de
todo dia.

No cochilo durante a volta para casa,
ele vê todos os rostos que não pertencem mais
aos corpos de seus donos. Desgosto,
os dias passam em devagar sucessão mas ele sabe
que há muito mais cores
que se possa encontrar no preto
que apenas
o preto.

O carrasco sonha com paixão.
De qualquer espécie.
E faz amor –
amor de verdade –
com sua esposa,
alexitímico.






O tempo e os seus olhos/あの魚

O peixe nada
e eu sigo com um fio de esperança mas nada,
peças nítidas emergem nas bolhas,
peças da minha cabeça quebrada.
Lembra aquela cerveja, aquela chuva, o beijo?
Há um oceano para as peças se afastarem
lentamente e sem motivo.
O que será que nós estávamos pensando naquele dia?

O ponteiro é uma máquina, às vezes para.
Num lago tranquilo, o calendário não faz sentido:
a água como os braços de mãe, apenas envelhecendo, presente.
O relógio marca a hora, nem que seja a hora errada.
A cachoeira mergulha com força,
o peixe foge, esguio e assustado.
Meus olhos seguem o peixe
e, de todos os peixes, este faz curvas,
vira de um lado para o outro.

Vejo as peças no rio correndo depressa,
de curva em curva, suas curvas,
que me deixaram perdido sem saber o caminho de volta.
O peixe não foge dos meus olhos
– e não é um sonho, é um aquário:
minha cabeça vai se remontando devagar,
as peças rearrumadas de uma forma
que eu nem imaginava que poderia existir.

Não é nem um sonho, nem um aquário:
o peixe passeia por um lugar mais apertado.
Lá dentro há uma gota d’água,
uma gota maior que toda a hidrosfera,
que tece, com a precisão de uma agulha,
o tempo.

Diante dos seus olhos grandes de curiosidade e Mar
tem tudo e todas suas pequenas ramificações.
Diante dos seus olhos tem tudo e o peixe
nada.

Como eu me lembro

Ele dançava rodeado de pessoas. Ainda que fosse dança, não parecia dança, muito mais um ritual. Era desse jeito: os sapatos bem engraxados movendo-se em alta velocidade, aos meus olhos saltava apenas o brilho do lustre em meias-luas contra o chão. As meias pretas perdiam-se nas calças da mesma cor ou na escuridão. O terno parecia largo nos ombros e na boca da calça, mas o movimento dos braços cruzando a gravata negra e a camisa branca como cordas agitadas e as mãos gesticulando ao cruzar rapidamente um lado ao outro do corpo em ações bem alternadas e destemidas faziam você esquecer do que mesmo estava pensando antes de notar isso tudo. Um quadro que em palavras não deve fazer sentido. Os giros calculados culminando em um encontro medido de calcanhares, os joelhos proeminentes e no segundo seguinte invisíveis no negro-calça. A boca tensa em profunda concentração. E o olhar. Um rosto bonito – carregava em seus passos aparentemente simples um reconhecimento de vocação. Uma aptidão para a arte. A respiração de corrida em meio a própria corrida em que não se sai do lugar e apenas dança-se com a sola do sapato metálico açoitando o chão, fazendo o Charleston. O entendimento das angústias cotidianas no momento em que sai a bateria agitada e o piano fica agudo, lento e climático. O dançarino para de sapatear para abraçar a si mesmo em posições diversas, variando com a cadência da música. Variando os braços em abraços como laços. Os braços negros percorrem o corpo como se fizesse pose para diversas fotos com apenas os dedos deslizando sobre o tecido no interlúdio dos flashes do piano, desabando como um seixo atirado contra o rio que percorre sua superfície saltando como um deus. O terno está empapado de suor e a música recupera o ritmo, o dançarino me olha neste ponto e diz sem dizer que sabe tudo aquilo que eu estou sofrendo e que eu vou sofrer o resto da minha vida, em pulos curtos para trás e com as mãos estalando os dedos ele bate com força as solas no chão, gira nos calcanhares e pula alto. Vejo o reflexo da luz nos sapatos engraxados se afastando um do outro. Abre as pernas no ar e as fecha antes de chegar ao piso. Seu último passo não diminui a animação junto com a nova desistência da bateria, é sincronizado com as últimas notas do piano que insistem em não deixar a música acabar. Ele abraça o mundo com as pernas sem arrastar-se. O rosto termina virado para baixo, num olhar triste porém satisfeito. Eu danço, eu posso dançar, eu sou um dançarino. Em palavras isso não deve fazer sentido, quando no calor daquele dia, eu não encontrei nenhuma forma de reagir àquilo. Só fechei os olhos e tentei guardar cada pulo, cada sapato, cada som, cada gota de suor numa reconstrução cerebral em câmera lenta de tudo que aconteceu.