Teoria do inconspícuo diário

Tateio no escuro; toco o branco com o nariz.
Nos encontramos numa derrota contra a gravidade.
Meus dedos não diferem um vestido, um sonho, um oceano.
Passa um riacho no peito; vejo sombras de olhos fechados,
a dança começa—

Pique esconde; sorriso na inquietude inadmitida.
Gira gira; gira só o coração desacompanhado.
Pressiona o meu peso contra o seu peso,
os meus cortes contra os seus hematomas;
sem careta sem pisão no pé, gira gira!

Pique pega: pique pega sem toque: pique pega psíquico;
o caos faz pipoca, o vento sopra e varre tudo.
Um buraco negro nos dá o mesmo destino.
Estamos aprendendo, o quê, estamos aprendendo, sim.
Somos o meu queixo na sua testa.

Falo sério mas soa como piada, uma risada.
Compassos desencontrados em leveza desavisada.
A coda e a falta de jeito constroem um desespero leve
até parar de girar, para, gira, para aos poucos.
Aplausos imaginários como um sol que nasce.

Embora estejamos prontos para um repertório inteiro,
passou da meia-noite e eu já me sinto uma abóbora.