Perto do fim

Quando cheguei, estava pensando numa garota que me chamava de andarilho nos nossos dezesseis anos. Um sujeito abobado deu-me boas vindas. O dono da pousada ouvia um bolero no volume máximo. Eu pedi um maço de cigarros e um isqueiro, depois um quarto. O dono era um sujeito grande e que me chamava de tricolor, apesar de saber meu nome e não meu time. Deixei tudo lá em cima e fui passear na enseada ali aperto.
  Enquanto caminhava com os pés sobre a areia úmida e o mar calmo, tentei pensar na estrada. Só consegui me veio à mente os eucaliptos e as músicas do Son House. Batia uma brisa agradável e os meus passos não pareciam me levar a lugar nenhum, mas quando olhei para trás, não havia nada atrás de mim. Nem à frente. Eu estava de fato me movendo.
  Eu não tinha mais dezesseis anos.

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É como a folhagem de um sonho perto do fim explodindo em fogos de artifício.
(É assim?)
É. Cheio de momentos quietos em que a beleza parece um acidente.
(São momentos densos?)
Não, são leves, mas momentos.
(Como assim?)
Oscila, nos outros momentos há algo muito semelhante que é o barulho das coisas, um barulho denso, mas…
(Mas?)
É barulho e é denso, mas tem uma boa textura, não é ruim, é até…
(O quê?)
Até bom, sabe, às vezes. Equilíbrio, sabe?
(Equilíbrio é difícil, manter-se equilibrado cansa.)
Manter-se em pé cansa.
(É, mas se você for pensar mesmo, manter-se sentado também cansa.)

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Você ainda tem algum cigarro?
Só um.
Posso?
Não, eu tenho essa mania de nunca fumar o último cigarro do maço. É a minha forma de combater o vício. Muitas vezes eu só fumo o último cigarro a caminho do lugar em que eu comprarei o próximo máximo.
Não faz o menor sentido.
Faz pra mim e é só isso que importa.
Não, você está sendo egocêntrico – deveria fazer sentido pra mim também, porque é a mim que você está negando um cigarro.

Não peguei o último cigarro. Rolei na cama. O braço em volta da cintura, puxei-a pra perto. Um beijo. Parei. Limpei o lábio dela, estava um pouco sujo de sangue, completamente rachado. Sentia na boca ainda o cigarro e agora o ferro — sangue.

Quer que eu pegue água?

Ela não respondeu. Mordeu um pouco da pele do próprio lábio. Havia uma fina película de sangue. Ela virou o rosto contra o travesseiro, fugindo do meu braço. Esfregou o pulso contra um dos olhos espreguiçando-se. Levantou metade do corpo. Olhou a cortina, fixou o olhar lá. A estampa xadrez, amarelo claro e preto.
  A chama azul contra o bule no fogão. O sentimento de preguiça e o chão frio como um choque no meu corpo. Fui no banheiro e joguei uma água no rosto. Me olhei no espelho, o rosto molhado, a barba desleixada, o cabelo bagunçado. Não, embaixo disso. Joguei mais água no rosto e o que eu estava vendo não era realmente o que refletia. Vapor. Voltei, botei a água fervendo na cafeteira. Ela ainda estava parada olhando para a cortina. A essa altura nem a via provavelmente.
  Pensei em dizer a ela que ela estava parecendo uma daquelas crianças que vêem fantasma. A idade das crianças verem fantasma é mais ou menos nove anos. E era assim, perdida no fantasma da cortina ela ignorava o café e o cheiro de café. Não disse nada no final, havia algo que eu não sabia explicar nesses minutos sem palavras. Algo bom.
  Servi o café. Ela pegou a xícara.

Ela abaixou a cabeça lentamente como quem diz obrigada.
(Silêncio.)
Com alguns movimentos de cabeça a mais elogiou o sabor.
(Silêncio.)

Estava sentada mais na pontinha da cama agora. Sentei do lado dela. Nós bebemos o café. O café mergulhou qualquer vestígio de nicotina ou ferro. Despertou qualquer coisa no corpo.

Acho que você seria uma boa japonesa.
(Risos.) Por quê, hein?
Bem, lá eles tem uma coisa chamada ishin denshin que é assim… É quase uma telepatia. Um japonês entende o outro sem muitas palavras, sabe? Inclusive isso é muito ruim para os estrangeiros porque às vezes eles só falam metade da frase e o resto é ishin denshin, telepatia.
Você esteve no Japão?
Eu morei lá alguns anos. Quando eu tinha vinte e poucos.

Peguei as xícaras, levei até a cozinha. Puxei a cortina e o sol fez cair a ficha: era um novo dia.

//

Nós estávamos andando há mais de uma hora na praia deserta. Ela me contou de uma tia. Tia Julia. Que ela era uma daquelas pessoas que tem a idade corporal e a mental em descompasso eterno. E certo dia, essa Tia Julia saiu com ela, foram a uma festa e então ela a ensinou a ver se valeria a pena ficar com o homem só pelos gestos corporais feitos a distância.

Acho que daí que vem esse meu… “silêncio japonês”.
(Ishin denshin.)
Isso.

A praia terminava numa grande pedra. Por ali havia um quiosque e meia-dúzia de pessoas nas mesas.

Acho que não é bem isso, vai além disso. Seu lábio cortado, você não deu a mínima. Como se andasse numa daquelas pontes antigas de corda caindo aos pedaços com toda a convicção do mundo, sem o menor medo daquilo despencar.
(Risos.) É mesmo? Mas o que fazer além de cruzar a ponte se só tem a ponte.
Quem disse que só havia essa ponte?

Ela riu de novo mas foi uma risada nervosa, irritada. Tirou do bolso um cigarro, o meu último cigarro. Pediu o isqueiro pra mim, eu cedi o isqueiro.

Roubou o meu último cigarro… E eu nem estava pensando em fumar, agora, vou ter que comprar outro maço.
Compre. Deixe de ser egocêntrico, eu queria fumar. Você devia pensar mais nos outros.
(Silêncio.)
Eu queria poder fazer algo por você.

Fiquei quieto, ela estava falando de algo longe de cigarros, pisando nas partes frágeis da ponte. Nos sentamos numa mesa de plástico amarela. Pedi o cardápio apenas.

Como anda sua tia Julia?
Eu não sei te dizer, você não a conhece para saber se ela está bem ou mal, você não acompanhou a vida dela.
Mas ela está bem? Ela escolheu um bom homem pelos gestos?
Eu sei lá, não encontro com ela deve fazer quase seis meses.

Era o barulho, o momento de agitação. Fazia sentido pra mim.

Desculpa.
(Silêncio.)
O Japão… como é o Japão?
Talvez uma ponte, talvez uma volta muito maior para chegar no lugar onde estou hoje.
Aqui?
É, aqui.

Os olhos dela cresceram virados pra mim ultrapassando uma fina cortina de fumaça que saía da boca dela.

Eu te odeio.
É?
Você fala metáfora demais.
É, eu acho que eu falo.

O garçom veio. Eu pedi uma água de coco e um maço de Carlton vermelho, ela pediu uma coca-cola. Depois concordamos em perdir uma porção de lula. Ela estava olhando para mim mas não estava olhando para mim, porque o meu rosto não era o meu rosto.

Amanhã… Amanhã, você faz quantos anos?
Vamos não falar sobre amanhã. Não quero que amanhã chegue.
(Silêncio.)
Mas você faz quantos anos?
Não sei, desde que cheguei aqui andei bastante a pé…
E?
Parece que eu vou fazer dezesseis anos.

É ainda mais difícil manter-se de pé em cima de uma ponte frágil. É mais difícil ainda tentar. Os dias passam e embora não pareça eu continuo me movendo. Amanhã… amanhã, longe da praia, eu não enxergarei nada atrás de mim. Nem à frente.

  

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Águas de março

Hoje você me abraçou como abraçou ontem e no domingo. Nada mal sentir seus braços em meu corpo. Nada mal porque é sempre bom, já não é mais raro… A gente se permitiu mais um instante que se prolonga por mais um ano. A resistência é baixa e a conta é alta. Mas a gente parcela e descobre que não está só no mundo das (auto)cobranças.
  Nesse mesmo dia de hoje, eu encontrei uma amiga, que me fez rir e sentir desejo, como não sinto quando você me abraça. Talvez porque ela não me abrace quase todos os dias, talvez porque o mundo das cobranças é o mundo onde todos vivem.
  Na tarde desse mesmo dia eu desejei outras pessoas, fiz mosaico e ri no final. Tropecei na calçada e voltei pro mundo. Traí em silêncio com o auxílio das boas memórias de um passado cretino, mas nada arrependido.
  Na noite de hoje, você sai como quem não faz questão nenhuma de abraçar ninguém na vida.
  Amanhã você me abraça, eu sinto calor, olho para os lados, mas estou te ouvindo.

 
 

Destination

There is no need for a big dream to dream big,
put on an apron and it already begun
[Rabbits. Zebras running. Go— equilibrium.
Cold rain. Skin. Lions. Mood. Rain, sleep.]

As I stare to the wrong tip of the iceberg,
the people in the living room keep dancing for rain in an electrical storm.
[Wait on something to fill. With— I wouldn’t know what. Hope in mouth, just like a prize.
Sun now. Cold tiles. Bones. The palm of your hand. A tattered dream of time.]

It’s a time to be so small — so small we cannot bear it.
So small that to lift our tiny fists seems pointless and targetless.
[You. Sleeping like an angel. Fade. A walking memory following me.
Unhappy. Daymare. Unrest. Mess. Dinner is ready. My time to go.]

Trying to find an extremity that you can’t never know if exists.
To blindly grope for an edge, not sure what to find, maybe fire.
[Lions again. Newborns. Need to feed. Deers. Gazelles. Over and over. Go.
One more time what really was before— a matter of surviving.]

The pursue of adjusting into something. Not to be what is needed for me to be,
but to be able to adjust— to adapt.
[Curtains. Cloudy. A tiny cut. Blood. Wind. Power went out.
Tangible hours. Mouth. Glass. Liquid. The taste of iron.]

Wait. Somewhere. I want to cry. I want to scream. Without needing to want it.
The hardest part is not the journey nor the decision to travel. It is destination.
[Awareness. Sunlight. A match. Some cigs. Bottles. No more.
I have the strange feel of water. Time.]

Under lights I must feel death on myself to quit being an actor
— have you ever questioned why is so unwordly hard to be yourself?
[A broken feel. Over and over. Go. Bones. Cold tiles.
Nothing. Elsewhere. Run. Walk. See you.]

A memory fills me with eletricity, my structures fall to pieces.
But I am in an apron.
And the hardest part is expectation and understanding.
I have someone to write to: there is no need for a big dream to dream big.