Soneto Preto

Fumaça e espelhos, o mágico faz a pomba aparecer e voar.
Diante dos meus olhos, sei apenas que não é real.
Meu coração tropeça sozinho na mesma canção, no mesmo bar,
porque eu cansei: do que já foi oceano, resta só o sal.

O aroma da grama recém-cortada é o cheiro da aflição da grama.
O agradável é um sofrimento que passa despercebido,
e o problema é gostar de sofrer como quem ama,
sem nem duvidar do que se ouve além do que foi ouvido.

Depois da ventania não-prevista, tudo já arruinado.
O músculo perde-se num labirinto de espelhos,
o passo hesita depois do que ainda não é passado.

Desolado, distante de todo tipo de conselhos,
a mente nos faz crer que não conseguiremos nada mais.
Diante do mágico, sei apenas que nós somos reais.

castanhos

  ela costumava perguntar o que eu estava pensando. pela primeira vez na minha vida eu fui sincero o suficiente para não responder.
  os ponteiros dos meus pensamentos resvalam no meu cérebro apertado; pensar confunde e confusão transmite-se. ao invés disso, ela fez uma pergunta mais violenta
  “pra quê serve a gente?”;
  compro tempo digerindo em voz alta a pergunta “a gente as in eu e você?”
  “é”, ela responde. não sei. tento saber.
  acabo dizendo que não sei mesmo.
  a postura dela chama atenção. um prédio, não. havia gosto. e a sensação da tempestade de areia. a língua corre delicada e cuidadosa pelos sulcos e arrepios das costas, percorre todo o sabor,
termina numa respiração no pescoço.
  coluna ereta; olhar imprevisível. um animal selvagem apreensivo:
  um leopardo ou uma onça. os olhos calmos e espertos. nos livros da estante.
  pupilas como florestas inteiras.
  eu não conseguia decidir se esses olhos estavam decifrando o enigma da vida ou só planejando a próxima vítima.
  uma gazela ou uma zebra. eu.
  ela poderia vestir uma blusa lilás; seria leve, o terror negro do seu cabelo preto preso comprido sobre a sua tez branca tão branca;
  ela poderia vestir uma saia também branca e nós poderíamos dançar. se ela me olha como um rio que desaba sobre mim, não me perco. não abaixo a cabeça diante do olhar dela. apenas ando em direção a cadeira elétrica.
  o olhar dela é a minha cadeira elétrica. a minha falta de sono.
  não, ela vestia uma blusa azul de manga comprida e um short jeans.
  ponho a minha mão no fogo pela ilusão. o silêncio não se sustenta e nós caminhamos na areia de um corredor estreito.
  de tão estreito estamos tão perto um do outro. sem nos confundir num só.
  ficamos mais perto que parece possível ficar.
  o grão de areia, vidro. vamos de uma ponta a outra sem pisar em nada sólido; vamos de uma bebedeira até o chocookie desejado. em meio a risadas irônicas, a luz estoura.
  a violência brota dos dedos compridos dela, a violência paira na sua atmosfera felina para terminar num caminho de fogo, num choro e numa aprendizagem.
  —hunts me down: the white leopard runs faster than I can begin to think.
  bites me in english. bites real hard.
  seus dentes fincam na carne e puxam
  até um pouco mais de dor;
  o corpo esvaziando-se. até o seu olhar de leopardo fingir-se satisfeito;
  violence: um carinho e um tapa, um beijo e um dano —
  as horas fugiram numa revoada alçando vôo,
  uma
  a
  uma
  com asas agressivas, sem se importar
  e nós não nos atrasamos para os próximos compromissos.
  observamos uma árvore frondosa submersa. os galhos tem dedos cheios de esperança. imóveis todavia. no brilho da superfície nota-se que tanto os magros quanto os gordos ficam famintos.
  a árvore prende-se e faz todos se perderem: torna a discussão inútil: o que é verde/ o que é azul/ o que é mar/ quanto é amor.
  depois de um salto, um olhar selvagem
  ela me domina. me diz do alto “você é um idiota” e eu concordo. me controla e perde o controle sobre si mesma.
  (um presente mas só percebo tarde demais.)
  os ponteiros do meu cérebro já erraram faz tempo, os da parede não falham;
  eu brinco com ela. são onze horas. hora de ir embora como todos os dias. é um piso no conflito: ela tem caninos brancos e tem instinto por sangue.
  ela brinca comigo. sua brincadeira leva garra e perigo; “eu amo você
  me desprezando terrivelmente assim.”
  um elástico a menos e o cabelo corre, a cabeça hipnotiza num momento em que todas as coisas baixam a guarda:
  os livros de português baixam a guarda, os aparelhos da polishop baixam a guarda, as almofadas baixam a guarda
  e eu não sou exceção. baixa-se a guarda quando os dentes mordem o elástico e a nuca se desvencilha da gola e desnuda-se num arrepio que desce o corpo.
  o corpo errado.
  a portaria é um carrossel. da mesma forma que o pote vai resistir, deus também vai e o meu cavalo não chega nem perto.
  o corpo inventa de ficar vermelho e doer todo. faço os cálculos certos para chegar às respostas erradas;
  os braços, as pernas, a língua dela desprendem-se de qualquer cálculo. pergunto a probabilidade e ela sabe a resposta — são probabilidades altas de arrependimento. sabe a resposta e sabe que nossas contas são feitas na matemática dela. distorcida e selvagem.
  muito além do tempo, ela não quer que eu volte mas também não quer que eu vá.
  je m’imagine rouquin. en train de parler français. avec ma barbe. le mercredi matin. en face de son bâtiment.
  por mais que tentem a mão é humana, os dedos são reais e não aguentam como nada aguenta.
  “então, pra quê serve a gente?”.
  agora. eu e você não servimos pra nada. por um tempo.
  a pele branca. onça. leopardo. violência não, dor. os pequenos olhos semicerrados e a certeza causam mais daquele machucado sem nome.
   so, what.
    i love you.
     are you afraid?
      no.
       then what’s the problem?
  that’s the whole problem: i am not afraid.
  as pupilas como florestas inteiras. em chamas. estou cercado.

 

Ljubljana, Oz

O sono esmaece lentamente a visão de um rosto;
o rosto de J. V. de Oliveira (uma mulher)
cheio de detalhes e sardas, estático;
sinto o corpo no sofá e o calor e sinto
  o rosto ainda, os lábios, a odisseia dos olhos;
olhos que sempre me deixam num emaranhado,
preso em algo que nem dá para ver a olho nu.

Do lado de fora do sonho, a vida é um filme ruim.
Dentro, vem um bucado de culpa e mudez do olhar;
o olhar é de cortar o coração;
cortar com uma faca, cortar a sangue frio;
  cortar com as próprias mãos, as minhas.
O sono já é leve mas eu luto para me manter
de baixo das águas multicolores dele.

Se espalha pelo meu corpo a pior sensação
e no segundo seguinte, o cansaço me dá choques;
abri os olhos e os fechei rapidamente.
Quase acordado, quase melhoro, mas também
  quase perco o rosto, luto para não perdê-lo.
O sonho escurece a ponto do rosto se assemelhar
a todas as coisas que não lembro mais.

O quase acordado torna-se quase dormindo;
suor e desconforto por todo lado;
dá uma vontade de ligar alegando doença.
Melhor guardar pra quando o sonho for bom.
  O rosto… quase podia tocá-lo.
Não o alcanço mais;
já o perdi.

Memórias de abacate

Num segundo nós estamos comendo abacate e estudando química — lendo sobre a lei de Avogadro (ou Lei de Adevogado, como eu chamava; ou Lei de Avocado — isto é, abacate em inglês, como você chamava). A gente ia lendo e comendo (de colher), quando você me via comendo muito, parava de ler pra ficar só comendo e eu dizia “agora, a gente vai ter que voltar pro começo de novo” e você ria, mas como nenhum de nós sabia Química, a gente acabava voltando pro começo. No próximo segundo, você ainda está no mesmo lugar, porém seus olhos estão cheios de lágrimas e eu estou com minhas coisas e indo embora. Indo pra casa, alguns quilômetros dali, não pra Paris ou Londres.
  Outro segundo vem, e nós estamos caminhando na praia, tímidos, querendo falar alguma coisa, mas com medo de… do que a gente tem medo quando não conhece aquela pessoa do nosso lado, sabendo que um dia ainda vai conhecer. E então, eu pego uma margarida e te digo que você é tão linda quanto aquela margarida. Você sorri tímida tímida e diz que eu sou bobo bobo. No segundo seguinte, você não está usando sua blusa roxa, você não está usando nada. E me pergunta, com a cabeça no meu peito “Por que você me ama?”
  No próximo segundo, nós estamos olhando para o céu azul. Tão azul que engole a gente na azulzice dele. O problema é que eu sou muito desligado e o meu sorvete pinga na sua roupa e você briga comigo e quando você faz isso, seu sorvete cai no chão e você briga comigo de novo. Mas eu estou rindo, assim crescemos juntos. Vocês está furiosa, as coisas são assim mesmo. No segundo que vem, você está brava e diz que eu não entendo as coisas. dessa vez eu respondo, digo “Eu gosto disso, dessa coisa de não entender… nem saber o que vai acontecer.”
  Nesse segundo então, nós estamos deitados juntos, comendo pipoca e assistindo a um dos filmes cult que você tanto adora. Um do Fellini, um bem maluco. E eu tento te dar um beijo e você me ignora no momento importante, mas logo depois me abraça e me beija. E depois do filme, você tenta explicar e eu digo que prefiro não entender, o filme foi lindo do jeito que foi. Não importa. E a gente se beija. E um segundo passa, e lá está você olhando séria pra mim. Dizendo que acha que não sente mais nada. Não sente mais as faíscas do amor. Não me ama mais.
  Eu abro os olhos e o segundo seguinte dura algum tempo, porque dessa vez eu estou descendo a escada chorando. Sim, homens também choram. E era quase noite, e eu queria morrer. Nesse momento, a gente fica pensando qual é o sentido da vida. Eu tenho certeza que a minha felicidade ficou contigo e a sua comigo. No outro segundo, uma idéia vem à minha cabeça. São quase sete horas, eu corro até o hortifruti. Eu quero uma última chance, digo a mim mesmo. E assim, no segundo adiante, eu estou subindo as escadas. Eu bato à porta. Você abre. Você está usando sua blusa roxa favorita.
  “Vá embora.” Eu respondo que só quero que a gente coma um ultimo abacate juntos. Só isso. “Não, por favor, vá embora…” Eu insisto que dois anos e meio não devem acabar com lágrimas tristes, mas sim com boas memórias. Você resmunga, mas depois me deixa entrar, contanto que a porta fique aberta e eu vá embora logo em seguida. Tudo bem.
  Nós estamos comendo sem nos olhar. Você ainda tem os olhos vermelhos. E eu o coração partido. O abacate não tem o gosto bom que tinha antes. Eu puxo o abacate só pra mim e começo a comer sozinho. Você briga comigo e puxa da minha mãe e começa a comer o que falta sozinha. E enquanto você está com cara de brava, eu só consigo pensar em uma coisa.
  “Seis vezes dez elevado a vigésima terceira potência.” Eu falo. Você pára de comer. Olha pra mim por um único segundo e diz “Quê?” Eu respondo “O número de Avocado!” E, um sorriso mínimo aparece no seu rosto. Eu continuo “Agora, a gente vai ter que voltar pro começo de novo.” No segundo seguinte você ri, ri tanto que sua barriga dói. Você me chama de bobo bobo. Eu sorrio, levanto, fecho a porta e apago a luz.

Final ruim

  Estávamos num ambiente neutro, um café. Pequeno, inverno, charmoso, combinava. Ela me passou a maleta de dinheiro e eu rapidamente e sem cerimônia puxei o revolver e foram dois tiros rápidos. Durante a fuga, um motociclista passou por mim e me matou com dois tiros também.
  Não. Ela apontou para os seus homens com discretos meneios de cabeça. Dois, um negro e alto e um branco e alto, de terno, tomando um café, de óculos escuros. Nós negociamos como aquilo aconteceria. Rapidamente, estávamos discordando e algum tempo depois eu era apenas um corpo num porta mala de volvo preto.
  Not really. Não tinha ninguém, só nós dois. Por baixo da mesa, ambos apontamos nossos revolveres. A mala de dinheiro estava perto do meu pé. Hesitamos. O silêncio lembrava de alguma forma um filme de velho oeste, mas ambos éramos o vilão. Um mosquito passou perto do meu ouvido e quando me de conta, cada um alojou sua bala em um orgão vital de preferência.
  A verdade é que eu disse que estava me sentindo esquisito ultimamente. Uma coisa anormal: parece que estou sempre de chapéu. E depois, contei a ela tudo que eu estava sentindo e morri instantaneamente de tristeza profunda. Ela foi vítima de desidratação. E nossos corpos foram ensacados. Só me senti bem novamente quando reencarnei como um ornitorrinco selvagem.

A beleza

A beleza transborda, espalha-se pelo chão
sem cessar de transbordar. Não é a beleza
de um rosto, de um corpo – nem mesmo é a
beleza invisível de uma alma. Essa beleza
desenha poças entre os azulekos tal qual
leite. É perigosa, é uma beleza assim de
momento, de memória e afoga. Inunda os
pulmões e já nem deixa respirar. A beleza
corre sorrateira pela barriga, toma peito,
os braços e pernas. A retina perde suas
funções e a beleza transborda não só pelos
buracos, como também por todos os orifícios.
A cabeça tomada e logo a massa cinzenta
torna-se furta-cor. A beleza intoxica o
sistema reprodutor e se aloja no lixo
mais profundo da percepção – debaixo da
pele, entre carne, osso e realidade.
Quando isso acontece, a beleza pára de
ser bela e fica com cara de passado.
Torna-se caso clínico, estado crítico

O corpo drenado precisa de álcool.
(e é apenas natural que eventualmente a beleza o drene novamente, tenha se recuperado ou não)

Eu poderia ficar um mês

 

  Eu poderia ficar um mês olhando àquelas paredes. Brancas. Muito brancas. Você estava deitado no sofá. Estava triste, jururu. Procedimento padrão, eu diria. Eu também estava.
– Sabe o que a Clarice Lispector disse?
  Eu poderia ficar um ano com os olhos viajando naquele branco. É estranho. Se você quiser pensar em nada, esvaziar a sua mente, o que vem à cabeça é uma tela branca. Mas branco é algo, branco é cor. E o branco daquelas paredes era mais branco que o branco da cabeça.
– Ela disse: “Quando não escrevo parece que estou morta”.
  O preto sim, o preto é a ausência de cores. Mas porque ninguém pensa no preto? Quer dizer, eu não penso. Talvez você também não, né?
– Se soubesse como andam as coisas por aqui, diria lá de cima: “Quando estou morta parece que não escrevo”.
  Uma risada triste, tristinha. Sabe, acho que a gente foge do preto. O preto dá medo. O branco, por mais que seja a luz, é, essa do fim do túnel, é branco, é paz.
– E você pode estar me ignorando, mas o que eu falei faz sentido se você parar pra pensar.
  Eu catei a última coisa da sala e depositei a última caixa em frente a porta. E me virei na direção do sofá, tentei pensar numa tela branca.
– Sabe, parece que ela não escreve, porque ela morreu. Mas ela escreve. Pelos dedos de quem leu Clarice. Tipo, Caio Fernando de Abreu, tipo essas garotinhas letradas.
  Fazia sentido? Não sei se fazia sentido. Sabe, ir embora. Sei lá. A vida ia deixar de ser A vida. Eu já estava de saco cheio. Abri a porta. E olhei para trás. Uma tristeza encoberta pelas costas do sofá – ninguém veio fechar a porta, nem me dar tchau. E eu estava indo.
  Mas olhando àquelas paredes, eu poderia ficar uma vida inteira.