Sentimentos Estrangeiros

Uma tribo estrangeira dança
sobre as cinzas de corpos que nunca serão:
nunca serão conhecidos;
nunca serão explicados,
compreendidos,
nem voltarão ao que já foram.

Numa longa carta,
tento passar tudo a limpo.
São palavras antigas, mas
falho em deixar claro o mal entendido,
falho em desculpar-me,
falho em escrever
fora da minha cabeça.

A tribo tem
sangue nos dentes,
terra no rosto,
tinta no corpo
e dançam:
dançam para apaziguar os fantasmas,
para que eles parem de tocar
quem é vivo.

Quando eu vejo o seu fantasma,
espero um abraço – em vão.
Dançar sobre suas cinzas
não traria paz;
seria como dançar
sobre a bandeira
do meu próprio coração.

Tento dormir;
tento fazer silêncio;
tento sorrir e me dizem que é falso.
O fantasma murmura no meu ouvido
segredos terríveis
numa língua que há muito já esqueci.
Tenho que revelar
– é tudo mentira.
Querem de mim a verdade?
Pois ei-la aqui:
Sou um estrangeiro do meu próprio corpo.

Tento acordar.
.
.
.
.
.
.

real dry socks

clockworks running gradually faster at dawn,
a day’s always full and the rituals are on.
the wake of one man or all men.

cloudness, no astonishment, a steady face,
the eyes filled with unrest, hands contorted,
feet horrendously dry in the middle of the flood.

keeps walking with its contours disappearing,
dirty with blood and milk all over,
going farther adrift by an implicit code.

taking over what despises,
becoming what hates
and afraid of what really is.

Abecedário em chamas

A.

Se busco: o docinho é auto-enganação
o punhal é bruto demais pra mim

B.

Cada letra de forma
formada por máquina

C.

C. ama quem a odeia
e ri de quem a ama

D.

A máscara da máscara mascara
a vontade de ir e não ir, ser e não ser

E.

Alô, alô, Jupiteriano
Aqui quem fala já é Marte!

F.

O ridículo que não se percebe
e se enfeita

G.

Vocábulos podem ser parentes?

H.

A moldura estreita-se
as gordurinhas pulam

I.

O piano está em chamas
mas a família ainda quer
ouvir o pianista tocar

J.

“Eu queria querer-te amar o amor”
Já aceitei a memória de J.
como uma alucinação esquizóide

K.

No centro há uma porta,
atrás da porta não se sabe

L.

O espetáculo da risada bem dada
de uma moça casada

M.

Mas C. quer só amar
quem a ama agora

N.

Neve, a vanidade do virgem:
Vale tudo (mas nem tudo)

O.

Eu não sei de nada
sobre o que não é aqui e agora

P.

P. decide viver
várias vezes se preciso

Q.

Quem levô C.?

R.

O retrato em preto e branco
do casal feijão com arroz

S.

A loira era gostosa
mas a chuvinha era mais, dormi

T.

Super Guarda-Chuva, tão herói…
Foi ficando esquecido e acabou trocado,
e o herói da vez é o Super Ar-Condicionado

U.

O beijo-bocejo é fácil de aprender
para as pessoas reais demais

V.

O enfeitado se acha ridículo
e não é

X.

Detalhe todos os alfabetos exigentes
entre as letras A e B

W.

Uma mente perversa como o maior vilão
pra eu tentar ser o mocinho

Y.

A maioria das facas
tem um gume só

Z.

Nasceram duas vezes,
nenhuma das vezes
no dia em que nasceram

O piano está em chamas

404

1.

O desespero na busca por algo sólido aplica-lhe um susto;
Num momento de derrota cotidiana, de tudo desacreditado,
ele leu um trecho inócuo e ineficaz, ridiculamente robusto,
mas leu a frase “não tenha medo da imigração” errado!

Seus olhos registraram “não tenha medo da imaginação”;
A enciclopédia onde os sonhos são pintados de burocracias
Deu-lhe algo a que segurar-se com a força da palma da mão
Sem medo da imaginação, não há obstáculo, abrem-se as vias!

O princípio básico ateou fogo ao tédio do sacramento
decerto que o traço de realidade não poderia ser perdido,
mas a sede de luta, a sede de verdade para o pensamento

apenas cresceu, embora mal ele soubesse o erro cometido,
o homem em briga dispôs-se a lutar de punhos apenas
um vôo incontestável que ofuscou as almas pequenas.

2.

Sucesso ou não, a chave valia-se em simplesmente lutar.
A arma pode gerar o triunfo da vitória, mas o arrepio
e a glória que criam-se de forma sublime e salutar
é a sentida na pele e na força de um punho vazio,

no sangue corrente e no grito tão distinto de liberdade.
As lutas seguem, o homem debruça-se na tristeza
e questiona a si mesmo num momento de saudade,
tremendo em temor ao tempo e à própria fraqueza.

Então vai buscar inspiração no momento primeiro
que o libertou das algemas do medo da imaginação,
que fez ele sair com sua convicção, completo, inteiro –

e a ardilosa verdade é maldita e mente em traição.
A enciclopédia dirá para não ter medo de imigrar:
Eis então que a verdade mata o que o erro fez voar.

Dirigindo em ruas escorregadias

 

Primeiro de tudo, eu devo avisar que sofro de uma doença: eu não fico realmente feliz, nem quando estou feliz (especialmente, talvez).

Amargura e ternura são duas palavras que eu não costumo costurar às minhas tramas. Penso em uma linha reta, adiciono camadas e armadilhas para os leitores. E eles gostam, dizem. Não houve uma pessoa que veio a mim e disse: não gostei dos teus contos. O máximo foi: você não deveria ter lançado um livro agora e você escreve muito superficialmente (acompanhado de “mas eu gostei”). Um dos contos é muito elogiado, um jogo com as palavras. Mas eu não consigo sentir orgulho. São só palavras.
 
Amargura e ternura são duas palavras que não apareceram no meu livro. No dia do lançamento, uma tia veio e me contou uma história bem rapidinha da sogra dela, elas não se gostavam muito apesar da minha tia se esforçar. Eu disse que sabia exatamente como era, eu sabia mesmo. E quando, certo dia, elas estavam juntas cuidando do abacateiro no quintal (por isso ela me contou) e a sogra veio dizer que estava triste. Minha tia escutou quieta ela dizer que sentia falta do marido (morto há seis anos acho) e que sabia que minha tia não saberia como era isso. Era como abraçar um fantasma todo dia.

Eu entendo sua amargura por causa do seu marido. Minha tia me falou que pensou isso e que era verdade, mas não falou para não ofendê-la ou magoá-la. Ao invés disso, ela falou assim: eu entendo sua ternura por causa do seu marido. Minha tia falou que era verdade também. Sem conseguir segurar, ela acrescentou também que sabia que a sogra não entenderia que ela já aprendera a dirigir em ruas escorregadias. Ela não sabia se a sogra tinha entendido, e ela já morreu, mas eu entendi e sorri e quis recompensar ela de alguma forma por essa história e não sabia como, só disse obrigado.

Passaram já quase três meses inteiros desde o lançamento e eu não mudei, ainda sou feliz da mesma forma que antes. Ainda invento minhas memórias. Mas esse texto é para a minha tia, para agradecê-la. E responder algo que eu não me toquei na hora e que eu não sei se ajudará em qualquer coisa a ela ou a qualquer um. Eu também nunca abracei um fantasma, no entanto, a cada dia que passa sinto que um fantasma me abraça e eu continuo sorrindo da mesma forma.