Chame a polícia se eu não voltar em uma hora e meia

 

– A la arriba! A la abajo! Al centro! e A dentro! – e ambos viraram com ímpeto a dose de vodka, ele se segurava pra não rir com aquela reza em espanhol.
– Vamos lá, a partir da sexta é que as coisas começam a ficar divertidas de verdade.
– O que você quer dizer com divertidas, tá querendo se aproveitar da embriaguez de uma jovem sensual de apenas dezoito aninhos?
– Na verdade, eu quis dizer que é quando tudo mexe junto com a sua cabeça; – e então ele parou de falar e ficou balançando a cabeça de um lado pro outro, como se aquilo fosse incrível – É incrível! – ambos riram e ele prosseguiu – Bem, eu me referia a isso, mas se você quiser me seduzir, eu deixo.
– Sempre querendo se aproveitar de mim, você. – e a garota começou a enrolar os cabelos da sua franja negra.
– Sabe, – ele parecia mais sério que o clima descontraído do bar – às vezes acho que quem se aproveita de mim é você. – e os dois ficaram trocando olhares sérios por uns seis segundos. Depois, ela desatou a rir.
– Você quase não me fez rir. – ele deu um riso e logo mandou a pergunta:
– Sexta dose, de quem a vez, mon chéri?
– C’est moi.
– Entonces, my dear, diga o que você está pensando agora, enquanto eu providencio a próxima rodada. – e ele levantou o braço, estalou os dedos e chamou bem alto: Campeão! Campeão!, o garçom olhou e ele indicou que queria mais uma rodada.
– Bom. Eu queria sair daqui contigo. De mão dadas, porque eu sou menina correta. Aí, nós saíamos daqui e íamos lá pra casa.
– Agora?
– É, agora. E daí, eu abriria a porta do elevador e você entraria e então eu cochicharia para o porteiro “Chame a polícia se eu não voltar em quinze minutos”. – ele riu.
– Sempre quis dizer isso também. – de súbito, parou e ficou pensativo – Mas pensa bem: nós estamos bebendo Vodka, isto é, álcool, isto é, álcool RUSSO! Então, você teria que dar uma margem maior pro porteiro chamar a polícia…
– Tá bom, eu diria: “Chame a polícia se eu não voltar em uma hora e meia”. Tá melhor?
– Nossa, tá ótimo.
– Então posso continuar? – ela nem esperou resposta – Então, nós de repente estaríamos na cama; E você começa a tirar minha roupa com pressa e eu digo calma. E você me ouve e pára, me dá um beijo no pescoço e põe pra tocar um vinil do Thelonious Monk (-quem é esse? – Jazz, jazz, deixa pra lá), e então eu faria um strip tease, e ficaria só de calcinha, pra você tirar. – ela olhava para cima e então para o rapaz à sua frente, enquanto falava.
– Interessante – ele respondeu lentamente.
– E depois, nós estaríamos um pouco suados, mas tremendamente cansados e nós olharíamos para fora e começaria a chover. – o garçom enfim chegou com as duas doses de vodka.
– Uno! Dos! Tres! Catorce! – e então, numa virada, a garota fez uma careta e ele trincou os dentes num “tsss”.
– Continuando: a gente na cama, chuva lá fora. E aí você me abraça. Me beija. Meu corpo fica leve como uma pluma. E então, eu empurro a sua mão e sento na cama, te peço um cigarro e você me dá. – ele ia dizer que ela não fumava, nem ele, mas não quis atrapalhar o devaneio da menina. – A gente ficava envolto naquele ar cinza e cheio de nicotina. E de novo, você beijava meu pescoço; e eu dizia assim: não, nós só vamos nos machucar mais.
– E então?
– E é isso, era nisso que eu estava pensando.
– Legal. – ele chamou o garçom e pediu a conta. Depois eles ficaram se olhando com uma sensação estranha. – Você já pensou em ser escritora?
– Já, mas não tenho saco pra pôr no papel essas coisas. – ele fez um “hmm…” e não disse nada, então ela disse que era a vez dela e perguntou – Então, o que você está pensando? – o garçom trouxe a conta, ele pagou no débito, enquanto respondia que:
– Por que no final a gente nunca poderia ficar junto? – um papelzinho azul pra cada lado, o cartão de volta e “tudo certo”.
– Desse jeito é mais poético.
– Você devia começar a colocar coisas no papel.
– Talvez… – ela respondeu fazendo uma careta triste; ele a fitou.
– Vamos?
– Vamos.
 
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2 comments

  1. Bella · Abril 25, 2010

    Gostei. É bonitinho. Me fez pensar no que você estava pensando quando escreveu isso.
    Gostei.

  2. Vörös · Abril 27, 2010

    Bravo!

    Estou reticente… e me deu sede de jazz e vontade de ouvir vodka. Assim, nessa ordem!

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