dia

o que você estava fazendo
quando o mundo mudou?
hoje, foi um dia agradável.
apesar do noticiário,
apesar do calor
insuportável.

o que faziam as pessoas
enquanto a história se tornava História?
hoje, também, morreu minha avó.
provavelmente muitos avós
e, claro, netos
(tenho sorte).

tudo cabe num dia,
pouco resta na memória.
de qualquer forma,
seguimos tropeçando
para a risada
ou para o tombo.

9/11/16,
para francisca lamonica
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Coração de carvão


há uma chama me atormentando.
ela ilumina o ponto ao qual eu tenho que chegar,
cega quando tento ver o caminho.
leva embora o oxigênio,
torna o silêncio a borda da mentira e da morte.
o incêndio dos pelos do meu corpo e das peças de roupa proibidas.
um rolo de filme antigo queima deixando frames espalhados
e perdidos em algum lugar.
meus joelhos doem, o ano passa como a faísca de um isqueiro –
a chama me atormenta:
no centro do peito
eu inventei o fogo
mas esqueci de inventar o calor.








Mizu

Às vezes me sinto figurante em sua vida. Sabe aquela garrafa de vidro com água gelada que fica na porta da geladeira? Você só lembra-se dela quando chega em casa, com sede e sem mais nada pra beber ou fazer no fim de um dia cheio: cheio de coisas boas ou intermináveis horas de trabalho. Aquela água é a última salvação, porque ela sempre estará lá, te esperando por semanas.
  Ser figurante não é nada ruim, porque eu estou ali por algum motivo, mesmo que não declarado, eu ocupo o vazio de um cenário e ao mesmo tempo em que sou colocado bem ali, é como se eu sempre estivesse ali, desde quando o cenário nem cenário seria.
  E então, me percebo uma garrafa de água velha na geladeira cheia de frutas, e ali permaneço para um novo dia de sede que virá, e que, sem escolha, escolhido serei.
  Dias se passaram. Meses. Ano. E dou-me, enfim, conta, de que sou figurante de mim mesmo e que detesto água gelada, mesmo em dias escaldantes.