O sonho do carrasco

Todo dia
um olhar de perdição no rosto do filho de alguém.
Desolado, os passos lentos em direção ao fim
do corredor são tangíveis. Tão tangíveis
quanto a voz do martim-pescador cantando
na terra do fogo impiedoso. O sismógrafo
por trás dos seus olhos tenta desabituar-se
ao indigesto sol da tarde de
todo dia.

No cochilo durante a volta para casa,
ele vê todos os rostos que não pertencem mais
aos corpos de seus donos. Desgosto,
os dias passam em devagar sucessão mas ele sabe
que há muito mais cores
que se possa encontrar no preto
que apenas
o preto.

O carrasco sonha com paixão.
De qualquer espécie.
E faz amor –
amor de verdade –
com sua esposa,
alexitímico.






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Decolores

de poesia;
de mulheres e o que realmente se passa na cabeça de um poeta;
criam cada mundo próprio,
criam cada sentimento de fora do resto do mundo.

saber a dor
que a agulha num disco do alan parsons project
causa na garganta de um homem sedento
por uma cachaça roxa do maranhão.

que o amor só existe quando estamos bêbados discutindo no bar,
fora de lá não há nada semelhante nem razão;

ver através das brasas dos cigarros
através do sonho acordado
dos olhos de homens com uma maldição
– nós todos.

que não há graça num sutiã intacto
nem na linha reta que se perde na bruma;
saboreiam a noite fria como se fosse gurjão de frango.

transformar um espelho em patíbulo;
o carrasco em amante
e a execução em sangue e mágica.

a única pena suja de tinta
que pinta amor
pinta o amor sujo,
onírico
e rebuscado
do caderno amassado, surrado, esquecido.

nos ternos pretos
vagando pela noite
um poste solitário ilumina
alguns escritores de verdade,

(obrigado).

Destination

There is no need for a big dream to dream big,
put on an apron and it already begun
[Rabbits. Zebras running. Go— equilibrium.
Cold rain. Skin. Lions. Mood. Rain, sleep.]

As I stare to the wrong tip of the iceberg,
the people in the living room keep dancing for rain in an electrical storm.
[Wait on something to fill. With— I wouldn’t know what. Hope in mouth, just like a prize.
Sun now. Cold tiles. Bones. The palm of your hand. A tattered dream of time.]

It’s a time to be so small — so small we cannot bear it.
So small that to lift our tiny fists seems pointless and targetless.
[You. Sleeping like an angel. Fade. A walking memory following me.
Unhappy. Daymare. Unrest. Mess. Dinner is ready. My time to go.]

Trying to find an extremity that you can’t never know if exists.
To blindly grope for an edge, not sure what to find, maybe fire.
[Lions again. Newborns. Need to feed. Deers. Gazelles. Over and over. Go.
One more time what really was before— a matter of surviving.]

The pursue of adjusting into something. Not to be what is needed for me to be,
but to be able to adjust— to adapt.
[Curtains. Cloudy. A tiny cut. Blood. Wind. Power went out.
Tangible hours. Mouth. Glass. Liquid. The taste of iron.]

Wait. Somewhere. I want to cry. I want to scream. Without needing to want it.
The hardest part is not the journey nor the decision to travel. It is destination.
[Awareness. Sunlight. A match. Some cigs. Bottles. No more.
I have the strange feel of water. Time.]

Under lights I must feel death on myself to quit being an actor
— have you ever questioned why is so unwordly hard to be yourself?
[A broken feel. Over and over. Go. Bones. Cold tiles.
Nothing. Elsewhere. Run. Walk. See you.]

A memory fills me with eletricity, my structures fall to pieces.
But I am in an apron.
And the hardest part is expectation and understanding.
I have someone to write to: there is no need for a big dream to dream big.

Bicicleta

Quanto pesa um sentimento?
  Tem a semana e os dias lotados de coisas para fazer. E eu me pergunto quanto tempo pesa uma decisão simples. A bicicleta e a brisa, o sol e a morosidade. Se me dá na telha, não me pergunto se faz diferença mudar o caminho normal pelo alternativo; nem nunca me pergunte se vale a pena dormir mais cinco minutinhos.
  Qual é o peso do cotidiano? O dia não desenrola igual se o sol não estivesse assim, se o céu acordasse cinzento. Nem se o calor fosse sem brisa. A bicicleta virasse engarrafamento. E tem a pressa. O trânsito é pesado, são setenta e cinco mil carros por dia garganta abaixo. Aparece na gentileza, mas não é sobre isso.
  Não me surpreende que a raiva pese tanto. Que o ódio pese tanto. Dependendo de como você segue o fluxo dos dias naturalmente, até o amor pesa demais, mais do que devia. Não só o amor: o flerte, as faíscas, as rodas da bicicleta que giram juntas sem se tocar. Peso cansa — todo tipo de peso, seja a barriga, seja a culpa ou tudo mais que sofra a influência da gravidade.
  O que você leva consigo todo dia? O mundo está te puxando pra baixo do momento em que você acorda até quando vai dormir. (No meu caso, especialmente quando eu acordo.) É preciso mais do que força para não ficar pra baixo, down. É preciso de uma noção de tempo e espaço para notar que os dias passam um de cada vez — isso depende de você, a diferença entre ler um livro e ler um livro para fazer uma prova daqui a trinta minutos.
  É tão fácil catar os dias, o difícil é manter uma consciência firme. A gravidade não é tão grave quando existem uns copos americanos. Metade vazios quando já brindamos e demos o primeiro gole, um gole de sede, metade cheios quando já estamos no fim da garrafa e dividimos as gotas finais. Entre metades, lá se vão uns minutos que provavelmente só duraram meio minuto. A gravidade já nem existe aí, quando há música, e todos os sentimentos já não pesam tudo aquilo. E o se o sono chega é pela leveza do sonho precedido por um gole a mais, um beijo, uma escangalhada de risos.
  É tão fácil, tão fácil que é complicado. Como a gente sai de um engarrafamento e chega a cantar usando um pente (ou um shampoo) como microfone? O sangue, o sujo, a bagunça, a arrumação, o cabelo, a mudança, a pança, a pança! O carro enguiçado, dormir de lado, um trecho rimado: papel pardo, uma carta, tia Marta! A Europa, o Japão, Roberto Carlos, Dona Canô, o dólar, as crianças, mais panças.
  Tudo corre como um rio, sim. É que, com o sol na cabeça, o barulho-ritual da lata de coca-cola ou cerveja, a construção de mais um prédio em Niterói… com essas coisas, o rio fica cheio de curva, alaga de vez em quando. A memória é fraca e só se lembra de esquecer os compromissos, esquecer que um dia parado na ponte não é um dia perdido, um dia passado, é um dia inteiro como todos os outros.
  Quanto pesa o meu próprio desespero? De fugir dos limites do meu corpo, de sair do aperto de uma consciência presa a tempo e espaço como se fossem uma camisa de força. Quanto pesa isso? Quanta pesa a própria incompreensão?
  Incapaz de viver uma vida de altos e baixos, eu já me acostumei. A minha felicidade é cheia de tristeza. O cansaço me atinge por igual, mas diferente: a minha tristeza é ampla demais para ser, existir assim, nomeada num sentimento tão vago. É uma tristeza que chama todos os órgãos para participar, como se fosse uma festa, e os órgãos vão-não-vão: ninguém vai, porque a festa da minha tristeza já está lotada. De felicidade, talvez.
  O peso disso tudo me derruba para além do chão. Mas só quando estou já pra cima do décimo sexto andar — o dia perdido será o dia da minha morte, apenas. Só de sacanagem, eu vou morrer às 23:59. E vou levar todos esses pesos que se misturam e se somam à gravidade, pesos que minha bicicleta aguenta com facilidade.
  Então, o que você vai fazer?
  O que você vai fazer agora, daqui a pouco, hoje a noite? De madrugada? Eu sei que dormir é preciso, nem que seja até mais tarde.

 

Clutch

The air was as heavy as it could be;
as light as you and me —
alone there, I felt we drifting
softly like a boat and slowly lifting
off the floor (we were not very sober)
and above tomorrow’s hangover.
Restless, we were pushed by the flow
like nothing else mattered, even though
trapped in our bodies’s clutch
I can’t remember anything as such.
And somehow, I wasn’t preocuppied anymore.
There was this whole new world to explore;
I knew not what to do when
this very thought made me smile:
it is possible to lay my head in peace again,
even if it’s just for a little while.

Na palma da minha mão

Na palma da minha mão cabem alguns sonhos,
eu os guardo nos bolsos das minhas calças;
alguns estão ainda novos, outros cresceram
demais
e eu tive que os descartar. Há uns sonhos apodrecidos que tenho
medo de jogar fora,
crio espaço para esses nos bolsos e na palma da minha mão.
Eles se encaixam e se mesclam sem querer
num solavanco;
como uma criança que tem que pisar só nas faixas brancas do calçadão
deslizo a mão por toda a extensão da tua vontade imensa. Absorvo
a textura de nuvem com a palma da mão,
embaralha tudo
que vive dentro dela;
me faz ir por uma rua desencontrada do movimento,
uma rua que nem existe. Se mostro a cara e ofereço o peito,
quando me tocas
viro um cachorro diante de um aspirador de pó
e desencontro-me dos meus limites como gente,
apesar de não ser tão gente
como você. Recuo no ferro incandescente dos teus dedos,
recuo ao toque, a decepção
me leva longe:
uma ventania numa festa de casamento;
um guarda-chuva perdido na terra dos guarda-chuvas perdidos;
eu poderia ser a embriaguez de uma garota linda
e confusa.
No terror de um filme de comédia mal feito, meu juízo nervoso oscila e
não sabe
que caminho seguir.
Quando tudo que você queria era uma sombra debaixo de uma árvore
ou um motel mesmo,
o não-medo. A coragem que eu tenho para dizer que sou um covarde.
Torço sem querer torcer para a modulação aleatória desembocar no rio certo,
se acaso o acaso funciona
foco na palma da minha mão
e deixo tantos sonhos quanto existirem caberem nela.
Se a mente não me trai, uso a palma da minha mão
não para coletar sonhos, mas sim passos de dança,
para criar arcos com os braços e
transformar-te em flecha
que flecha
voa.
E atinge um alvo, mesmo que chão. Se o se acontece,
viro eu mesmo a própria incandescência: ando nesse traço de giz
riscado sob o mar.
Não é um jogo, não é uma dança também: é algo
com nome mais burocrático quando deveria ser
a existência menos burocrática de todas as coisas;
ainda assim, há dois lados tal qual espelho e funciona igualzinho:
de cada lado há um que assemelha o outro, mas
não o é. Não é uma brincadeira,
embora fique melhor quando parece. É cardíaco: bate
duas vezes para mostrar a vida.
Tu dependes de mim — se bebes como um perdido no deserto,
se fazes conchas com as mãos e bebes poças cheias de poesia,
provavelmente morrerás,
ainda que
num oásis.
Se segues tua parte, resta a mim ser mais que
um momento de inspiração desperdiçado.
O guidom do teu copo levou-te até um canto mal iluminado;
desapareceste junto
de um guardanapo cheio de ideias-em-breve-erros.
Nessa volta do ponteiro, eu sou o sabonete delgado
que, no fim, desaparece na pressão com que o aplicas
sobre
tua pele.
Meus pés estão firmes no chão através de falsas raízes.
Na palma da minha mão
cabe um sonho
a mais.
 

Cidades estranhas

  Flutua o luminoso traço memorial, no mais profundo escuro da calma, escoa agudo numa música natural que toca o cantinho da alma. Brilha bem branco como o branco mais branco e bonito da neve (feita de tecnologia rgb, que ambos lembramos eu e você). A mente metamorfoseia e marcha manca, mas mansa.
  É uma estrada; possui um vazio quase mais leve que a neve, quase mais leve que o nada: um vazio de criança despreocupada. A pele sente um sentimento amplo e o que se vê é um campo, uma bola, uma boneca, um beijo na testa no fim da festa de aniversário.
  Voa a coruja ilusória pra outro lugar, o porém fica porém e também o gosto da memória de agosto que não viveu nenhum rapaz, porque não aconteceu ou ninguém lembra mais.
  Cansado e sem coração, a canção recria o corpo, carrega a pedra no meio do caminho. A estrada se desenrola diante de minhas pupilas. Meus olhos são machucados pela luz incerta e abrem como uma mente aberta. Um carro veloz corta correndo feroz essa mente minha, ou aquela que eu tinha, e vem vindo em minha direção.
  Paralizado, eu não tenho certeza se é um sonho.