sobre cair

nessa cidade,
a chuva sempre cai igual —
as gotas nunca caem com convicção;
são pingos que hesitam e vem
sem lembrar que o chão
é o seu destino;
sem saber que há um ciclo
e que novamente estarão no alto,
na beira do pulo
e quando caírem
será na dúvida
para a morte
e para a sobrevida —
às vezes, lentamente
outras, bem rápido;
sem parar.
não é possível parar.
esperar é movimento
e olhar para o céu também;
quando pisamos numa poça
a nossa água é a água da chuva
e saímos pisando incertos
seguindo adiante
sem lembrar que o chão
é o nosso destino;
sem saber que há um ciclo
e que novamente estaremos no alto,
na beira do pulo
e quando cairmos
será na dúvida
para a morte
e para a sobrevida —
às vezes, lentamente
outras, bem rápido;
sem parar.
não é possível parar.
esperar é movimento
e olhar para o céu também;
nessa cidade,
a chuva sempre cai igual;
como os corpos dos que se matam.
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dia dos mortos

encher os pulmões não é suficiente.
o ar me preenche e depois vai embora —
como saberei que na hora
quando o coração dispara
o ar virá de novo? e abrir os olhos
não me faz enxergar: eu enxergo
só até onde a vista alcança.
em momentos de dúvida, confusão,
como poderei enxergar além? e
eu ando sobre uma terra que
se transforma/ sob um céu
que está sempre mudando —
mas não chove onde falta água
e a casa de toda gente inunda
e segue com a correnteza:
como viver nessa realidade
em que arremessam alvos em dardos?
meus sapatos estão gastos
mas eu sempre gostei de andar descalço:
pacientemente, as árvores crescem;
pacientemente, planto sementes
da forma que estas sementes
aparecem para mim.
às vezes, até me imagino
com uma mochila nas costas,
prestes a chegar em casa.
como se soubesse onde ela realmente fica.
como se ela ficasse em apenas um lugar.
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inconstante

as fotografias são leves
o vento as sopra para fora da janela
no frio do inverno que parou no tempo.
o tempo, embora cada dia mais velho,
mantém seu ritmo calmo e violento.
as ondas na praia são certeza
da lua irresoluta.

    tornei-me aquela memória
    indigna de confiança
    que sempre me supus.
    a luz azul está desaparecendo
    aos poucos, ao longe.
    o barulho continua me perseguindo –
    eu tentei ser tudo e não fui nada
    além de um vestígio,
    uma pedra no caminho.

entendendo devagar que
não existe daqui a um ano
nem daqui a dez anos –
meu pra sempre durante
um átomo de tempo.
e já todos perderam a confiança em mim
além de mim mesmo.
não quero cantar o dia nublado
ainda que prefira isto
a reclamar do sol e da chuva.

    você já é muito diferente
    do que eu possa lembrar.
    meu coração aberto rachou-se
    agora estou afogado no fundo do oceano.
    em algum lugar da superfície
    ainda permanece a luz azul
    como um farol de esperança,
    há um lugar para abarcar
    e respirar em segurança,
    vivo.

Esboço

Após longos minutos de gotas caindo do lado de fora da janela,
pegou o lápis e rabiscou um pedaço de papel.
O traço foi tão suave que parecia nem ter alma. Como um sopro angelical,
o traço saiu rapidamente do papel riscando a mesa de vidro.
Ao ver o risco, seu susto foi curto.
“Quem se importaria com a desordem nesta casa senão eu mesma?!”, pensou.
O gato lhe olhava como estátua egípcia.
O chá tinha uma cor mágica.
Tirou a roupa,
rabiscou seu corpo inteiro de batom rosa-camélia
negou o espelho
pegou a tesoura
e fez-lhe sangue,
para combinar com o batom.

a febre

se eu digo sol, chuva,
você não precisa definir o que é o sol,
não pode redefinir o que é a chuva.
não pode fazer o sol brilhar mais.
ou menos.
você não pode tocar o sol.
mas por que você faria isso?
por quem você queimaria a mão?

a chuva desaba.
você não pode aumentá-la.
nem impedi-la.
e por que mesmo você faria isso?
eu não preciso do universo,
preciso de mais.
de algo que não posso tocar
mas que pode me tocar.

então,
por favor,
deixa chover.

Destination

There is no need for a big dream to dream big,
put on an apron and it already begun
[Rabbits. Zebras running. Go— equilibrium.
Cold rain. Skin. Lions. Mood. Rain, sleep.]

As I stare to the wrong tip of the iceberg,
the people in the living room keep dancing for rain in an electrical storm.
[Wait on something to fill. With— I wouldn’t know what. Hope in mouth, just like a prize.
Sun now. Cold tiles. Bones. The palm of your hand. A tattered dream of time.]

It’s a time to be so small — so small we cannot bear it.
So small that to lift our tiny fists seems pointless and targetless.
[You. Sleeping like an angel. Fade. A walking memory following me.
Unhappy. Daymare. Unrest. Mess. Dinner is ready. My time to go.]

Trying to find an extremity that you can’t never know if exists.
To blindly grope for an edge, not sure what to find, maybe fire.
[Lions again. Newborns. Need to feed. Deers. Gazelles. Over and over. Go.
One more time what really was before— a matter of surviving.]

The pursue of adjusting into something. Not to be what is needed for me to be,
but to be able to adjust— to adapt.
[Curtains. Cloudy. A tiny cut. Blood. Wind. Power went out.
Tangible hours. Mouth. Glass. Liquid. The taste of iron.]

Wait. Somewhere. I want to cry. I want to scream. Without needing to want it.
The hardest part is not the journey nor the decision to travel. It is destination.
[Awareness. Sunlight. A match. Some cigs. Bottles. No more.
I have the strange feel of water. Time.]

Under lights I must feel death on myself to quit being an actor
— have you ever questioned why is so unwordly hard to be yourself?
[A broken feel. Over and over. Go. Bones. Cold tiles.
Nothing. Elsewhere. Run. Walk. See you.]

A memory fills me with eletricity, my structures fall to pieces.
But I am in an apron.
And the hardest part is expectation and understanding.
I have someone to write to: there is no need for a big dream to dream big.