O milagre esquecido

A chave estava atrás do vazinho de planta. Um quarto novo e vazio espera por ela, esse aqui continua aqui. É estreito, tem uma sala e um chão de tábua corrida. Poeira em todos os lugares. Eu ando um pouco pra ver a cortina meio fechada e um raio de poeiras em frente ao sofá branco encardido. Isso e isso e aquilo não são importantes. Passo pelo banheiro e chego numa porta amarela com um porta retrato de margarida vazio no meio.
  Olho para as coisas. Isto é um beliche. E o tapete. Penteadeira, espelhos – um pedacinho de espelho cortado num canto. Tudo tem gosto de ausência.
  Eu sento num banquinho acolchoado sem saber o que estou procurando por ali. Um sonho rasgado vale tanto quanto um soutien esquecido por lá. O celular toca. Achei que você nunca fosse retornar. “É, eu também, por isso que demorei a ligar.” Abro as gavetas da penteadeira. Tem maquiagem velha. Cadernos com listas de compras. Sem datas, sem tempo. “Então, o que você quer nas ruínas de um império falido?” Nada. Ou não sei, por enquanto é a mesma coisa. Como tudo bem e normal. “Sabia que tem pessoas num prédio como a gente, metade delas devaneando sobre o passado, metade devaneando sobre o futuro, todas elas ansiando por alguma coisa.” Eu sou a exceção, calmo.
  Ando mais um pouco e abro o armário da parede para encontrar apenas cabides de madeira e apenas um vestido rosa claro. Como você conhece tão bem as pessoas e sabe o que elas estão pensando? “Não é tão difícil, é complicado para uma só perceber que é todo mundo nutrindo uma solidão imbecil. Fica fácil quando você entende a guerra pessoal de um grupo, um grupo contém um pedaço do resto das pessoas.” Eu não sei se entendi. “Bem, você tem que aprender, é violento demais.” Passo a mão no vestido, ele tem fiapinhos e poeira. Não é de criança, embora seja infantil para o seu comprimento. É cafona.
  Por que você deixou só um vestido? “Eu achava ele cafona.” Eu gosto de cafona. “Eu achava que ele me faria sentir vergonha, mas agora o que passa por mim é o oposto, não sobrou nada, como eu sinto falta desse vestido.” Abro mais gavetas, um sabonete velho, um papel com estampas de ursinhos. Uma caixinha de metal com roupas rasgadas ou em pedaços, roupas pequenas, essas sim de criança. Sabe, tem uma caixa aqui cheia de roupas rasgadas. “Foi um rito de passagem, elas estavam um trapo e mal cabiam em mim, para simbolizar minha adolescência rasguei tudo. Um erro, talvez.” Tem uma coisa que realmente chama minha atenção, essas roupas jamais poderiam ser taxadas de gay, sabe. São roupas em branco, sem esse tipo de atribuição. “É, podiam durar mais tempo e podiam estar em melhor estado.”
  No compartimento de cima do armário tem livros, mas estão fora do meu alcance. Olho para o banco e decido que ele não vai me aguentar. Vou procurar algo para me levantar. Ando até a cozinha e ninguém fala nada até eu chegar lá. Se você fosse gay, você contaria pra todo mundo? “Claro, qual é a graça de ser gay apenas no papel.” É, eu concordo. O silêncio voltou e eu achei uma meia-escada. Apesar disso, nós nos isolamos, por quê.
  O que tem tão alto no seu armário? “Ah.” Alguns segundinhos definindo as palavras. “É um presente pra você.” E por que eu mereço um presente? “Por ser quem você é, eu sempre quis dar um presente para algumas pessoas por elas serem quem são, mas é difícil e eu nem sei porque é tão difícil.” Tem cinco livros encostados e depois um monte de cadernos. Os livros são Machado, José de Alencar, José Lins do Rego, Danielle Steel e Harold Robbins. O meu presente são os cadernos? “Pega só o vermelho, os outros combinam mais com um armário esquecido.”
  Pego, sento no banquinho e abro sobre o meu colo o todo empoeirado caderno de capa vermelha. Também não tem datas. Mas contas de matemática, coisas de ciências, alguns deveres de língua portuguesa, provavelmente outras disciplinas. “Procura lá pro final, meu presente está lá pro final. Você vai perceber.” Folheio rapidamente e muita poeira escapa. Tusso. Tem um desenho bem óbvio e ainda assim há uma legenda: Jesus Cristo. Ele parece feliz, não é perfeito, ao mesmo tempo que não é nada mal. E depois, um texto. Achei. “É, eu não lembro quantos anos eu tinha, mas sempre pensava, nessa época, que quem pôs a gente na terra e criou a natureza devia aprender mais com as suas próprias criações.” Como assim? “Como ele só põe a gente e não fala nada. A graça de descobrir as coisas sozinhos, é isso? Mas porque tem que ser sempre sozinhos. Nossos bebês não fazem nada sozinhos e eu sinto que nós somos os bebês de quem criou o mundo.” Ele devia se manifestar mais diretamente. “Pelo menos.”
  Li o título em voz alta — O milagre perdido. Depois, li o texto pra mim mesmo. Contava como Jesus fora absolvido pelos judeus, começou a dançar e todos cantaram e dançaram juntos a mesma canção. Você reescreveu a morte de Jesus? “Mais ou menos. Na minha versão, ele não morre, não revive, não vira lenda.” Mas ele canta. “E dança, a parte da dança é mais importante. O milagre perdido é a habilidade de todos perto dele saberem a coreografia sem nem ensaiar.” Eu rio e não ouço um eco, porém imagino um eco, cheio de poeira, como um raio de sol.
  Você é a criatividade em pessoa. “Nem tanto.” Estava insatisfeita com a versão bíblica? “Não, é o que eu disse. Tem outros prédios como esse em que você está, tem outras bilhões de pessoas no mundo, eu só achava que podia ter mais que uma história só.”
  Fecho o caderno. Olho tudo. Me olho no espelho. Você escrevia muito? “Não, preferia desenhar, era mais preciso. Dava no mesmo. Na verdade, eu gostava mesmo era de dançar.” Fico na janela por um tempo. Nem vejo a vista, só estou na janela, eu e a brisa. “As pessoas sempre se impressionaram facilmente com meus talentos.” Essa parte do discurso eu já conhecia: esses inúmeros talentos faziam com que ela se sentisse livre, livre para dominar o mundo. Ela tinha dito essas coisas na primeira vez em que a gente conversou direito. E a minha cabeça é uma caixinha que não esquece. Você ainda é livre? Ela não respondeu direto.
  Fui em direção a porta sem pressa. Saí. Botei a chave de volta atrás do vazinho de planta para algum aventureiro do tempo. Ou para um corretor. Olhei a porta e a falta de tapete em frente a ela. Senti de novo o gosto da ausência diante da porta fechada. Era um sabor próximo a poeira, que beirava mais para o coração vazio e pesado. “Sabe, eu não sei. Eu tinha isso bem definido na minha cabeça, mas hoje, eu não sei. Eu não consigo fazer e não tenho explicação para não conseguir fazer essas coisas. Eu me tornei uma ‘artista’ e eu fiquei conhecida, o que isso me trouxe, nesse momento, é uma distância que parece irreal entre eu e o meu vestido cafona, ou minha penteadeira guerreira. A liberdade me acompanha, eu acho, só que agora ela está tímida e longe da superfície.”
  Eu senti que aquela era a solidão falando mais alto. Nunca disse isso a ela. Eu não consigo parar de pensar no meu presente, no seu Jesus Cristo feliz. Sabe o que eu mais gostei da sua reencenação cristã? “A inocência?” Não, a mensagem. “Qual?”
  Foda-se a bíblia, foda-se a arte, foda-se tudo, vamos dançar.

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Fragmento

 

  Você já esperou muito tempo por algo que você acreditava que aconteceria?
  Eu deitei no chão: os azulejos do banheiro recolhendo todo calor do meu corpo. Depois pego uma coca no frigobar. Bebo lentamente, sentado na beirada da cama. O ponteiro não pára e avança devagar. As minhas costas ainda estão levemente geladas.
  Quando eu paro de pensar na espera para pensar nesses outros detalhes meu coração acalmava um pouco. Tento até pensar em palavras engraças, que as vezes eu uso, sei lá por quê. Mas ela não vem. Deixo a lata de coca vazia em cima da mesinha e deito, dessa vez na cama. Fecho os olhos.
  Naquele momento, ela aparece e deita do meu lado – não, isso é só um fragmento de memória que se desgarra de algum lugar e acerta meus olhos. Aos poucos, eu já não tenho paciência. O meu celular não toca e o seu toca demais. Pego minhas coisas e vou embora.
  Passo na recepção, pago e vou pro carro. Estou dirigindo. Uma súbita raiva me faz arremessar o celular pela janela. Ele se despedaça na calçada. Ela pára, pega e monta o celular. Eu me arrependo e paro – volto para buscar o celular. Ele está na sua mão: Desculpe, senhora, eu estava no meu carro e tive um súbito ataque de nervos e defenestrei o meu aparelho. Ela riu e responde: Quer dizer que defenestras? – e então eu conheci a mulher mais incrível do mundo – mas isso já é outro fragmento.
  Abro os olhos, estou sobre os azulejos ainda. Você ainda não chegou. Mas acho que não importa mais, já perdi todo calor do meu corpo.