dia

o que você estava fazendo
quando o mundo mudou?
hoje, foi um dia agradável.
apesar do noticiário,
apesar do calor
insuportável.

o que faziam as pessoas
enquanto a história se tornava História?
hoje, também, morreu minha avó.
provavelmente muitos avós
e, claro, netos
(tenho sorte).

tudo cabe num dia,
pouco resta na memória.
de qualquer forma,
seguimos tropeçando
para a risada
ou para o tombo.

9/11/16,
para francisca lamonica
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Bicicleta

Quanto pesa um sentimento?
  Tem a semana e os dias lotados de coisas para fazer. E eu me pergunto quanto tempo pesa uma decisão simples. A bicicleta e a brisa, o sol e a morosidade. Se me dá na telha, não me pergunto se faz diferença mudar o caminho normal pelo alternativo; nem nunca me pergunte se vale a pena dormir mais cinco minutinhos.
  Qual é o peso do cotidiano? O dia não desenrola igual se o sol não estivesse assim, se o céu acordasse cinzento. Nem se o calor fosse sem brisa. A bicicleta virasse engarrafamento. E tem a pressa. O trânsito é pesado, são setenta e cinco mil carros por dia garganta abaixo. Aparece na gentileza, mas não é sobre isso.
  Não me surpreende que a raiva pese tanto. Que o ódio pese tanto. Dependendo de como você segue o fluxo dos dias naturalmente, até o amor pesa demais, mais do que devia. Não só o amor: o flerte, as faíscas, as rodas da bicicleta que giram juntas sem se tocar. Peso cansa — todo tipo de peso, seja a barriga, seja a culpa ou tudo mais que sofra a influência da gravidade.
  O que você leva consigo todo dia? O mundo está te puxando pra baixo do momento em que você acorda até quando vai dormir. (No meu caso, especialmente quando eu acordo.) É preciso mais do que força para não ficar pra baixo, down. É preciso de uma noção de tempo e espaço para notar que os dias passam um de cada vez — isso depende de você, a diferença entre ler um livro e ler um livro para fazer uma prova daqui a trinta minutos.
  É tão fácil catar os dias, o difícil é manter uma consciência firme. A gravidade não é tão grave quando existem uns copos americanos. Metade vazios quando já brindamos e demos o primeiro gole, um gole de sede, metade cheios quando já estamos no fim da garrafa e dividimos as gotas finais. Entre metades, lá se vão uns minutos que provavelmente só duraram meio minuto. A gravidade já nem existe aí, quando há música, e todos os sentimentos já não pesam tudo aquilo. E o se o sono chega é pela leveza do sonho precedido por um gole a mais, um beijo, uma escangalhada de risos.
  É tão fácil, tão fácil que é complicado. Como a gente sai de um engarrafamento e chega a cantar usando um pente (ou um shampoo) como microfone? O sangue, o sujo, a bagunça, a arrumação, o cabelo, a mudança, a pança, a pança! O carro enguiçado, dormir de lado, um trecho rimado: papel pardo, uma carta, tia Marta! A Europa, o Japão, Roberto Carlos, Dona Canô, o dólar, as crianças, mais panças.
  Tudo corre como um rio, sim. É que, com o sol na cabeça, o barulho-ritual da lata de coca-cola ou cerveja, a construção de mais um prédio em Niterói… com essas coisas, o rio fica cheio de curva, alaga de vez em quando. A memória é fraca e só se lembra de esquecer os compromissos, esquecer que um dia parado na ponte não é um dia perdido, um dia passado, é um dia inteiro como todos os outros.
  Quanto pesa o meu próprio desespero? De fugir dos limites do meu corpo, de sair do aperto de uma consciência presa a tempo e espaço como se fossem uma camisa de força. Quanto pesa isso? Quanta pesa a própria incompreensão?
  Incapaz de viver uma vida de altos e baixos, eu já me acostumei. A minha felicidade é cheia de tristeza. O cansaço me atinge por igual, mas diferente: a minha tristeza é ampla demais para ser, existir assim, nomeada num sentimento tão vago. É uma tristeza que chama todos os órgãos para participar, como se fosse uma festa, e os órgãos vão-não-vão: ninguém vai, porque a festa da minha tristeza já está lotada. De felicidade, talvez.
  O peso disso tudo me derruba para além do chão. Mas só quando estou já pra cima do décimo sexto andar — o dia perdido será o dia da minha morte, apenas. Só de sacanagem, eu vou morrer às 23:59. E vou levar todos esses pesos que se misturam e se somam à gravidade, pesos que minha bicicleta aguenta com facilidade.
  Então, o que você vai fazer?
  O que você vai fazer agora, daqui a pouco, hoje a noite? De madrugada? Eu sei que dormir é preciso, nem que seja até mais tarde.

 

Charme

mas eu sempre fui apaixonado
por esse seu ar de que não está nem aí,
apenas
e vivendo o que jogam em você,
sem ligar muito,

eu sempre fui apaixonado,
sem ligar muito,
tiro a poeira
e espero
a luz
da manhã—

preciso de um banho
e
preciso
chegar
atrasado
hoje.