parcialmente sob as cobertas,
debaixo da carne e noite adentro,
onde os poemas fazem cócegas,
há um poste solitário, apenas um —
a luz só precisa iluminar a si mesma.
você não sabe —
o seu sangue não corre em vão;
corre com a pressa de quem sabe
a importância da matemática
mas nunca aprendeu a contar.
fecho a porta
e você diz que não há porta.
no mundo real, as pernas erram os passos;
mesmo com os cadarços bem amarrados,
é fácil tropeçar no próprio tropeço.

você não quer
seu sangue derramado inutilmente;
como se apenas o baque do seu corpo
ao cair inerte e sem vida no solo
já não fosse suficiente para fazer a terra hesitar —
e aí, o dia duraria um pouco mais
e o planeta ficaria pra trás.

em vão, as pernas erram pelo mundo real —
seus passos derramados na pressa
correm com o sangue de quem
sabe a matemática das cócegas
onde os poemas fazem-se importantes.
e aí, te espero no fim de uma carta
em que as palavras sonham ser carne.

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ave

uma ave de rapina carrega m
eu coração: ninguém
me ensinou a esquecer. chut
ando pedras pela cidade vaz
ia como se fosse um milagre fic
ar sem causar problemas. faz
endo planos, o presente é pas
sado num piscar de olhos, o te
mpo inteiro. mas uma hora é se
mpre uma hora. daqui a 10 anos,
apenas 10 anos terão passado. o
carrossel gira e sempre está lá n
o mesmo lugar. entre suas garras,
uma ave de rapina ainda car
rega meu coração
e,
desse jeito,
eu viajo o mundo.

nada (apenas tudo)

estávamos andando sobre as ondas,
ondas de vidro, colinas realmente.
e aquilo era só a gente; eu e você.
andamos até notar o horizonte:
a terra quadrada como um tabuleiro.
só faltavam os antípodas lá embaixo.
na ponta do mundo, miramos o espaço —
o infinito cósmico: o grande vazio,
nada na nossa frente, apenas
tudo. e, na inocência da ignorância,
caí: acabou o equilíbrio do nosso mundo,
éramos um tabuleiro de ondas sólidas
sobre uma pequena bolinha de gude.
no caminho até o chão, tudo ficou claro —
e eu sabia então que a queda iria
estilhaçar o vidro com o impacto
e tornar água todo aquele mar.
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a.v.

Singular

O mundo é um corpo, o corpo é imundo.
Da rebeldia inocente que apenas os animais domésticos são capazes de possuir —
Propriedade: o que os humanos separam de forma bem pouco inteligente.
Legislação: quem faz as leis pensa em si e ajuda quem gosta e atrapalha quem não gosta.
A razão do povo: se tem razão como pode continuar tendo razão sem mudança?
O vômito ao ver pés horrivelmente secos no meio da enchente.