O tempo e os seus olhos/あの魚

O peixe nada
e eu sigo com um fio de esperança mas nada,
peças nítidas emergem nas bolhas,
peças da minha cabeça quebrada.
Lembra aquela cerveja, aquela chuva, o beijo?
Há um oceano para as peças se afastarem
lentamente e sem motivo.
O que será que nós estávamos pensando naquele dia?

O ponteiro é uma máquina, às vezes para.
Num lago tranquilo, o calendário não faz sentido:
a água como os braços de mãe, apenas envelhecendo, presente.
O relógio marca a hora, nem que seja a hora errada.
A cachoeira mergulha com força,
o peixe foge, esguio e assustado.
Meus olhos seguem o peixe
e, de todos os peixes, este faz curvas,
vira de um lado para o outro.

Vejo as peças no rio correndo depressa,
de curva em curva, suas curvas,
que me deixaram perdido sem saber o caminho de volta.
O peixe não foge dos meus olhos
– e não é um sonho, é um aquário:
minha cabeça vai se remontando devagar,
as peças rearrumadas de uma forma
que eu nem imaginava que poderia existir.

Não é nem um sonho, nem um aquário:
o peixe passeia por um lugar mais apertado.
Lá dentro há uma gota d’água,
uma gota maior que toda a hidrosfera,
que tece, com a precisão de uma agulha,
o tempo.

Diante dos seus olhos grandes de curiosidade e Mar
tem tudo e todas suas pequenas ramificações.
Diante dos seus olhos tem tudo e o peixe
nada.

Mizu

Às vezes me sinto figurante em sua vida. Sabe aquela garrafa de vidro com água gelada que fica na porta da geladeira? Você só lembra-se dela quando chega em casa, com sede e sem mais nada pra beber ou fazer no fim de um dia cheio: cheio de coisas boas ou intermináveis horas de trabalho. Aquela água é a última salvação, porque ela sempre estará lá, te esperando por semanas.
  Ser figurante não é nada ruim, porque eu estou ali por algum motivo, mesmo que não declarado, eu ocupo o vazio de um cenário e ao mesmo tempo em que sou colocado bem ali, é como se eu sempre estivesse ali, desde quando o cenário nem cenário seria.
  E então, me percebo uma garrafa de água velha na geladeira cheia de frutas, e ali permaneço para um novo dia de sede que virá, e que, sem escolha, escolhido serei.
  Dias se passaram. Meses. Ano. E dou-me, enfim, conta, de que sou figurante de mim mesmo e que detesto água gelada, mesmo em dias escaldantes.

 
 
 

Nebulosa

Pelos braços das águas vou
Nadando em parco rio
Sedento de oceano.

Pelas ondas de água pura ando
Desafio gravidade e cosmos,
Barqueta que sonha transatlântico.

Crio veredas, traço avenidas,
Colcheias e semínimas
Numa trama musical.

Ébrio e etéreo
Sou nascituro reverso
Com a inocência de um pardal.

E soa o canto
E soa o grito
E suo deveras:
Preciso de varais!

Eis que renasço
Eis que me crio
Eis que sou filho
Eis que sou pai!

Do beijo o prazer
De gestar mais estrelas,
Do olhar o calor
De queimar sem rubores.

Do hálito a promessa,
A derradeira sentença:
Amo-te e
Sempre me amarás.

Eu, filho do carbono
Tu da primavera fugaz.