dia dos mortos

encher os pulmões não é suficiente.
o ar me preenche e depois vai embora —
como saberei que na hora
quando o coração dispara
o ar virá de novo? e abrir os olhos
não me faz enxergar: eu enxergo
só até onde a vista alcança.
em momentos de dúvida, confusão,
como poderei enxergar além? e
eu ando sobre uma terra que
se transforma/ sob um céu
que está sempre mudando —
mas não chove onde falta água
e a casa de toda gente inunda
e segue com a correnteza:
como viver nessa realidade
em que arremessam alvos em dardos?
meus sapatos estão gastos
mas eu sempre gostei de andar descalço:
pacientemente, as árvores crescem;
pacientemente, planto sementes
da forma que estas sementes
aparecem para mim.
às vezes, até me imagino
com uma mochila nas costas,
prestes a chegar em casa.
como se soubesse onde ela realmente fica.
como se ela ficasse em apenas um lugar.
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/

Anúncios

O corpo insuficiente

Na boca, percebe-se o corpo insuficiente.
No copo esporadicamente cheio.
Numa tentativa frustrada de preencher o espaço vazio
onde não cabe uma família que desconhece o próprio endereço.
Com uma certa presença inicial adocicada, é fácil intoxicar-se
com a seleção simples do que se quer ver e o que não se quer.
Esse açúcar é aos poucos substituído por uma acidez forte,
é fácil sentir o absurdo queimando voraz a realidade.
,
,
,
,
,
,
,
,
,

Castelos/Midori

(Anjos maus, anjos maus, por quê?)

Primeiro,

havia um grupo de chatos. Umas vinte pessoas vagando por uma residência imensa feita de blocos de pedra abandonada na Itália. Poderia haver um tesouro por lá, é isso que nos ensinam sobre o mundo da fantasia. Ninguém, apenas os nossos bolsos cheios de fantasmas nossos que iam se espalhando pelos cômodos. A contar pelo número de pessoas, algumas também se perderam se misturando à atmosfera, conscientes de que estavam se perdendo embora muito mais estivessem se encontrando. Eu tinha minha garrafa de Vodka e o grupo de chatos eventualmente tornou-se apenas um grupo.

Segundo,

nós chegamos numa praia com areia branca que é quase da cor do meu terno cor areia branca. Há uma parte inundada na praia a qual teríamos que atravessar nadando se algum de nós estivesse com disposição e capacidade. Do outro lado, uma menina. Ela estava de pé no meio de um círculo de torres de areia que não chegavam à altura dos joelhos dela. E ela tinha o cabelo cortado numa franjinha e ela olhava pra mim como se só eu pudesse vê-la. O bando de pessoas vestidas com classe cambaleando pela areia acenou a ela, uma das mulheres – uma que tinha o esmalte descascando das unhas – gritou qualquer coisa. A menina não reagiu, continuou olhando para mim com seus olhinhos italianos.
  Eu desejei naquele momento que só eu pudesse vê-la.

Terceiro,

eu andava ainda meio anestesiado de sono e andava devagar com meu carrinho de malas. Não foi difícil enxergá-las. Mais tarde, em casa, entreguei à menorzinha um globo de neve com um castelo no meio. Ela o olhou com os olhos maiores que o próprio presente.

Quarto,

a festa está animada e um saco ao mesmo tempo, ela disse. Então, estamos numa festa de Schrödinger?, eu disse mas ela não entendeu. Às vezes eu encontrava pessoas que tinham se descolado do meu tempo-espaço, principalmente do meu espaço. Era bom quando isso acontecia. Todos pareciam alegres. Estavam se matando nem tão aos poucos assim. As pessoas são como velas, precisam de fogo para fazer sentido e fazer sentido as leva ao destino final.
  Quando cheguei em casa, me senti abraçado por um copo d’água e o cd do The Clash que eu tinha achado no chão do carro na semana passada.

(Anjos maus, anjos maus, por que voam tão baixo?)

Quinto,

desconforto, a cama parecia tábua. Até que. Mãos pequenas. Sorriso pequeno. Cabelo castanho. Pele macia. Dente mole. Mão chegando no tamanho da minha mão. Pele – são duas torres (dobra os joelhos), aqui está o fosso com o riozinho cheio de jacarés em volta (mexe os braços), o quarto da princesa, a sala de observação, o jardim secreto (bagunça o cabelo), o aeroporto privado (abre a boca), o segredo fica aqui no meio (orelha no umbigo) e agora eu já sei o segredo: cosquinha na costela (todo o castelo se desmonta momentaneamente).