cidades estranhas

É uma estrada;
possui um vazio
quase mais leve que a neve,
quase mais leve que o nada:
um vazio de criança despreocupada.
A pele sente um sentimento amplo
e o que se vê é um campo,
uma bola, uma boneca,
um beijo na testa
no fim da festa.
Diante dos meus pés,
a estrada se desenrola,
cansado e sem coração,
passo pesado
e caco de vidro na sola,
o corpo é recriado pela canção:
Carrega-se a pedra no meio do caminho.
Mas, de repente,
sinto o farol e me assusto.
Se tento olhar um pouquinho,
meus olhos ardem na luz incerta,
abrem como uma mente aberta.

Paralisado,
eu não tenho certeza se é um sonho.

Sábio leopardo

O que eu devo fazer, Leopardo das Neves?
No que o caminho há se Tornado –
tombo, fundo do poço; saudade?
Uma confusão; Labirintos leves?
As respostas me deixam desolado,
o funeral da minha singularidade:

O que eu devo saber?
Uma dúvida primitiva.
Se dá certo, desvanece;
Se na lágrima, prazer.
A verdade da expectativa:
Sou o salvo sem s.

E o que eu devo ser?
Se
não posso ir embora,
já errei e já me arrependi –
e agora;
o que devo fazer?

Se muito em minhas ideias tardo,
sei que já passa da hora do almoço.
Sinto seus dentes no meu pescoço
Ora, claro! És um sábio leopardo.

Leopardo das Neves


2014/08/07
Danilo Crespo

Coração de carvão


há uma chama me atormentando.
ela ilumina o ponto ao qual eu tenho que chegar,
cega quando tento ver o caminho.
leva embora o oxigênio,
torna o silêncio a borda da mentira e da morte.
o incêndio dos pelos do meu corpo e das peças de roupa proibidas.
um rolo de filme antigo queima deixando frames espalhados
e perdidos em algum lugar.
meus joelhos doem, o ano passa como a faísca de um isqueiro –
a chama me atormenta:
no centro do peito
eu inventei o fogo
mas esqueci de inventar o calor.








Acerca da escolha

Vai–
:
Voar sim, tocar o céu acho que não:
O sólido derreteu. Doze meses de verão.
:
O caminho mais bonito, o do outro lado.
Aquele que brilha, o caminho errado.
:
Nunca sei qual lado é o racional
e qual é o que sempre tem a palavra final.
:
Ao final da música, todos vão embora.
Ainda, o dançarino mantém o compasso
No salão vazio não restou quase nada,
só um abraço.
:
Acerca da escolha… eu me abstenho.
Por que você tá aí, franzindo o cenho?