outros delírios após a sorte e o azar

Delírio número um:

The sweetest girl of SP

Marina, eu não sei quantos anos ela tem. Mas ela não tem muito mais que dezoito, nem tão menos. She’s sweet (essa frase não soa bem em português). Ela me trata como se fosse gente grande, eu mesmo que sou grande em comparação a ela não consigo fazer as coisas assim. E ela é a pessoa que mais sabe o que quer e ainda assim não sei se consegue o que busca. Ela fica bem próxima de mim e é como se gritasse e eu só a visse abrindo a boca, sem som. Eu nunca sei se ela está pedindo ajuda ou fazendo caretas. Não sei, provavelmente os dois.
Fico pensando “que sorte ser eu e não outra pessoa”. Mas eu mesmo penso que não vai durar e não vai dar certo e uma menina so sweet ainda vai se ferrar muito com gente que não vai entender esse grito silencioso que ela dá. É azar, então?
  É os dois, é sorte mas é azar, é agora e é depois, eu consigo o que todos querem mas não consigo o que todos conseguem. E aí, Marina, como a gente aprende a acertar as coisas?
  Errando?
  Só errando?
  Marina é bonita e tem a pele morena. Tem dias que eu não sei.
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Delírio número dois:

Cinderela 2012

A metáfora não existe pra mim. Os dois estavam num quarto de hotel cuja parede era toda de vidro com vista para a cidade cinza e sem fim.
  A vista de longe, a confusão de braços e dos dois corpos não deixava dúvida: um envolvimento sexual. De perto, a obviedade dava lugar ao que se assemelhava a uma briga. Um beijo atacado, um abraço arremessado, o puxão de cabelo não era carinho.
  Ela vestia só uma calcinha preta chamativa. Ele entrara de terno, mas agora tinha pouco. Foram algumas horas de digladiação e ao fim, era de se surpreender que não havia sangue, nem dentes perdidos por ali. Suor, talvez lágrimas, hematomas e uma sede sem solução. Contando junto, uns três ou quatro orgasmos.
  Ao final, ela tinha certeza que perdera. Ele também tinha certeza, uma certeza nítida de que falhara. Ela ajeitou-se num hobby preto transparente e de suas costas irromperam duas enormes asas brancas, brancas sujas, brancas cinzas. Algumas penas se soltaram como é natural. Numa batida de asas, o vento soprou tudo em todas as direções e uma mesa foi derrubada e também um espelho. O espelho refletia a imagem do homem em cinquenta pedacinhos irregulares.
  São Paulo recolheu todos os cacos de vidro na sua escuridão de sempre. Ela alçou vôo sem ao menos dizer qualquer coisa. Retirada. O ataque foi dela, o ataque foi um fracasso. E ele tinha certeza que não conseguira sucesso, perdera a luta. Ela voou rápido pelo ar descolorido e nebuloso.
  O homem se recompôs. Ao pôr de volta o terno, nada de achar seus sapatos.
  Os dois vão remoer aquilo e se ver em mil metáforas que tentam encaixotar o que se vê. Não houve nem confronto de verdade para alguém perder.
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One comment

  1. NS · Setembro 25, 2015

    ! Bravíssimo !

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