Apenas

por Danilo Crespo e Pedro Lopes

Quando acordei
Não te vi do outro lado
E pensei
Se o colchão tinha
Me engolido,
Sozinho.

O quarto era glacial
Nosso inverno no ar
condicionado
A boca seca por água
O corpo seco e
Sozinho.

Me perguntei se
Levantar era preciso
E sempre é.
Vi penas no lençol
E chão

Impulso; colisão
Meu corpo esvaiu-se
da física
e levantando,
eu já estava caído.

Quando caí em
Mim, foi você que vi.
E não havia vidro
Espelho?
Nenhum caco de nós
Ou ontem

E te toquei
Como quem toca
banjo;
lentamente ressoamos
parede afora

O vizinho sequer
Reclamou.
Surdo,
Foi absurdo o
Nosso som

E sem regra
sem refrão
a gente cantou junto
uma só
canção.

Mas, sabe quando
O microfone falha
E a segunda voz
Assume. Apenas
Repito: há penas

No chão, na cama,
Em todo o lugar,
Se procuro,
há mais
e se encontro
amor

a televisão
ligada, me diz
que o sono me venceu.

E
insiste em mostrar
que você
acordou
sem dormir

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Memória

Eu não me lembro,
era tarde
e eu provavelmente estava me sentindo estranho
e eu não lembro porque eu estava bêbado
e eu não me lembro por quê,
mas poderia ser que eu estou trancado numa sala fria,
preso numa sala no subsolo sem nada,
sem comida ou água,
poderia ser porque eu tenho uma namorada agora
e eu não sei o que fazer,

e eu não me lembro,
mas era azul, azul marinho, azul de noite,
eu não consigo me lembrar mais
mas nós estávamos deitados na calçada
e eu não me lembro o que a gente disse
apenas o céu azul,
tão azul quanto o azul consegue ser
e eu não me lembro
mas tem um sabor bom, engraçado
que eu adoraria guardar

mas está desaparecendo,
eu não me lembro,
eu nem lembro mais,
porque eu estava apaixonado por ela,
amor azul real,
e nós tínhamos a noite,
nós tínhamos o tempo juntos,
era um tempo nosso,
céu azul
e conversa fiada

e eu não me lembro mais,
eu vou sentir falta dessa memória,
eu quero sentir falta dessa memória,
mas como sentir falta
de algo que não existe mais na sua mente?
Eu não me lembro
como eu não me lembro o que eu fiz essa manhã,
mas foi grandioso
e muito maior que acordar dia
após dia

sem lembrar a gente no chão
olhando para o céu azul
e tendo aquela conversa,
eu não me lembro,
eu não me lembro,
eu não me lembro,
e,
na verdade,
eu tentei tanto esquecer
que finalmente consegui.

Parabéns.
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O sonho do carrasco

Todo dia
um olhar de perdição no rosto do filho de alguém.
Desolado, os passos lentos em direção ao fim
do corredor são tangíveis. Tão tangíveis
quanto a voz do martim-pescador cantando
na terra do fogo impiedoso. O sismógrafo
por trás dos seus olhos tenta desabituar-se
ao indigesto sol da tarde de
todo dia.

No cochilo durante a volta para casa,
ele vê todos os rostos que não pertencem mais
aos corpos de seus donos. Desgosto,
os dias passam em devagar sucessão mas ele sabe
que há muito mais cores
que se possa encontrar no preto
que apenas
o preto.

O carrasco sonha com paixão.
De qualquer espécie.
E faz amor –
amor de verdade –
com sua esposa,
alexitímico.






Auto-ajuda

No fundo do lago, entre peixes,
frio e algas, está o silêncio.
O silêncio que conversa com as mães,
esposas de maridos que não as amam;
o silêncio que cala os pescadores
quando tentam traduzir o intraduzível;
o silêncio que buscam os poetas
com as suas letras miúdas de tinta.
O silêncio asfixiado que chama
milhares de homens e mulheres
que não conseguem o que querem.





Rosemary

Por trás desses olhos não há máquinas
Não tem raciocínio preciso e veloz, nem decisão
Por baixo dessa pele só há carne
Sem mentiras, falsidade, nem verdade
Se me vir calmo, pode ser desespero
Por trás do meu amor
Não há felicidade, nem tristeza

Desculpe-me por estar errado,
eu sei que você me entende
O que é ou não é isto,
não depende de mim,
muito mais de você,
de você mesma
no reflexo dos meus olhos

Sem julgamento, sem pensar em depois de amanhã,
sem lembrar de anteontem,
sem acidentes de carro, sem apagões,
sem o que todo mundo busca do Amor,
isto é, sem ilusões:
te amo como um incêndio lento,
como um café da manhã especial.

Astronauta

No seu calendário não há os dias da semana, não há segunda nem
sexta. As viagens espaciais são incertas. O escafandro branco
sufoca o homem num futuro ultra-
passado.

Impulsionado por um motor à combustão que se alimenta dos sentimentos
já em falta na terra. Ele foi para além do topo do mundo. Para fora
daqui.

O amor do astronauta é eterno da partida e eterno da volta.
Imutável da distância.

Castelos/Midori

(Anjos maus, anjos maus, por quê?)

Primeiro,

havia um grupo de chatos. Umas vinte pessoas vagando por uma residência imensa feita de blocos de pedra abandonada na Itália. Poderia haver um tesouro por lá, é isso que nos ensinam sobre o mundo da fantasia. Ninguém, apenas os nossos bolsos cheios de fantasmas nossos que iam se espalhando pelos cômodos. A contar pelo número de pessoas, algumas também se perderam se misturando à atmosfera, conscientes de que estavam se perdendo embora muito mais estivessem se encontrando. Eu tinha minha garrafa de Vodka e o grupo de chatos eventualmente tornou-se apenas um grupo.

Segundo,

nós chegamos numa praia com areia branca que é quase da cor do meu terno cor areia branca. Há uma parte inundada na praia a qual teríamos que atravessar nadando se algum de nós estivesse com disposição e capacidade. Do outro lado, uma menina. Ela estava de pé no meio de um círculo de torres de areia que não chegavam à altura dos joelhos dela. E ela tinha o cabelo cortado numa franjinha e ela olhava pra mim como se só eu pudesse vê-la. O bando de pessoas vestidas com classe cambaleando pela areia acenou a ela, uma das mulheres – uma que tinha o esmalte descascando das unhas – gritou qualquer coisa. A menina não reagiu, continuou olhando para mim com seus olhinhos italianos.
  Eu desejei naquele momento que só eu pudesse vê-la.

Terceiro,

eu andava ainda meio anestesiado de sono e andava devagar com meu carrinho de malas. Não foi difícil enxergá-las. Mais tarde, em casa, entreguei à menorzinha um globo de neve com um castelo no meio. Ela o olhou com os olhos maiores que o próprio presente.

Quarto,

a festa está animada e um saco ao mesmo tempo, ela disse. Então, estamos numa festa de Schrödinger?, eu disse mas ela não entendeu. Às vezes eu encontrava pessoas que tinham se descolado do meu tempo-espaço, principalmente do meu espaço. Era bom quando isso acontecia. Todos pareciam alegres. Estavam se matando nem tão aos poucos assim. As pessoas são como velas, precisam de fogo para fazer sentido e fazer sentido as leva ao destino final.
  Quando cheguei em casa, me senti abraçado por um copo d’água e o cd do The Clash que eu tinha achado no chão do carro na semana passada.

(Anjos maus, anjos maus, por que voam tão baixo?)

Quinto,

desconforto, a cama parecia tábua. Até que. Mãos pequenas. Sorriso pequeno. Cabelo castanho. Pele macia. Dente mole. Mão chegando no tamanho da minha mão. Pele – são duas torres (dobra os joelhos), aqui está o fosso com o riozinho cheio de jacarés em volta (mexe os braços), o quarto da princesa, a sala de observação, o jardim secreto (bagunça o cabelo), o aeroporto privado (abre a boca), o segredo fica aqui no meio (orelha no umbigo) e agora eu já sei o segredo: cosquinha na costela (todo o castelo se desmonta momentaneamente).