Auto-ajuda

No fundo do lago, entre peixes,
frio e algas, está o silêncio.
O silêncio que conversa com as mães,
esposas de maridos que não as amam;
o silêncio que cala os pescadores
quando tentam traduzir o intraduzível;
o silêncio que buscam os poetas
com as suas letras miúdas de tinta.
O silêncio asfixiado que chama
milhares de homens e mulheres
que não conseguem o que querem.





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Abecedário em chamas

A.

Se busco: o docinho é auto-enganação
o punhal é bruto demais pra mim

B.

Cada letra de forma
formada por máquina

C.

C. ama quem a odeia
e ri de quem a ama

D.

A máscara da máscara mascara
a vontade de ir e não ir, ser e não ser

E.

Alô, alô, Jupiteriano
Aqui quem fala já é Marte!

F.

O ridículo que não se percebe
e se enfeita

G.

Vocábulos podem ser parentes?

H.

A moldura estreita-se
as gordurinhas pulam

I.

O piano está em chamas
mas a família ainda quer
ouvir o pianista tocar

J.

“Eu queria querer-te amar o amor”
Já aceitei a memória de J.
como uma alucinação esquizóide

K.

No centro há uma porta,
atrás da porta não se sabe

L.

O espetáculo da risada bem dada
de uma moça casada

M.

Mas C. quer só amar
quem a ama agora

N.

Neve, a vanidade do virgem:
Vale tudo (mas nem tudo)

O.

Eu não sei de nada
sobre o que não é aqui e agora

P.

P. decide viver
várias vezes se preciso

Q.

Quem levô C.?

R.

O retrato em preto e branco
do casal feijão com arroz

S.

A loira era gostosa
mas a chuvinha era mais, dormi

T.

Super Guarda-Chuva, tão herói…
Foi ficando esquecido e acabou trocado,
e o herói da vez é o Super Ar-Condicionado

U.

O beijo-bocejo é fácil de aprender
para as pessoas reais demais

V.

O enfeitado se acha ridículo
e não é

X.

Detalhe todos os alfabetos exigentes
entre as letras A e B

W.

Uma mente perversa como o maior vilão
pra eu tentar ser o mocinho

Y.

A maioria das facas
tem um gume só

Z.

Nasceram duas vezes,
nenhuma das vezes
no dia em que nasceram

O piano está em chamas

What happened to the Captain

For the first, A., would say
with a smile like a warning:
Good morning, Captain — good morning,
my faithful and reliable Captain;
hear the wind sing,
sing the wind near
‘cause tomorrow I’ll also be here.

For the second, B., would disagree
as if she sang a mellow tune:
Good afternoon, Captain — good afternoon,
O! singular and half full Captain;
listen to the song I sing,
stay for now to feel my sorrow
‘cause you can’t be here tomorrow.

The third, C., would just smile perfectly
with kindness and unreasoning:
Good evening, Captain — good evening,
my out of reach and young Captain;
let us explore the midnight sun
and explode the evening mist
‘cause tomorrow we won’t exist.

There was the fourth, D., she
has a lot to say:
Good day, Captain — good day,
O! confusing and wise Captain;
remember what never happened!
and let’s wait on the weather
‘cause tomorrow we’ll be together.

Then there was, E., who said loudly
with no breaks or fright:
Good night, Captain — good night,
my selfish and blind Captain;
I love you today
and I love you right now
‘cause tomorrow I’ll forget somehow.

In new year’s day
the captain lied down on the shore
decided not to be a captain anymore
and let the water wash him away.