Apenas

por Danilo Crespo e Pedro Lopes

Quando acordei
Não te vi do outro lado
E pensei
Se o colchão tinha
Me engolido,
Sozinho.

O quarto era glacial
Nosso inverno no ar
condicionado
A boca seca por água
O corpo seco e
Sozinho.

Me perguntei se
Levantar era preciso
E sempre é.
Vi penas no lençol
E chão

Impulso; colisão
Meu corpo esvaiu-se
da física
e levantando,
eu já estava caído.

Quando caí em
Mim, foi você que vi.
E não havia vidro
Espelho?
Nenhum caco de nós
Ou ontem

E te toquei
Como quem toca
banjo;
lentamente ressoamos
parede afora

O vizinho sequer
Reclamou.
Surdo,
Foi absurdo o
Nosso som

E sem regra
sem refrão
a gente cantou junto
uma só
canção.

Mas, sabe quando
O microfone falha
E a segunda voz
Assume. Apenas
Repito: há penas

No chão, na cama,
Em todo o lugar,
Se procuro,
há mais
e se encontro
amor

a televisão
ligada, me diz
que o sono me venceu.

E
insiste em mostrar
que você
acordou
sem dormir

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Auto-ajuda

No fundo do lago, entre peixes,
frio e algas, está o silêncio.
O silêncio que conversa com as mães,
esposas de maridos que não as amam;
o silêncio que cala os pescadores
quando tentam traduzir o intraduzível;
o silêncio que buscam os poetas
com as suas letras miúdas de tinta.
O silêncio asfixiado que chama
milhares de homens e mulheres
que não conseguem o que querem.





ps

Cadeiras vazias, constantemente preenchidas e esvaziadas em instantes. Teto branco. Parede branca. Janela sem paisagem. Cortina encolhida. E silêncio. Sem rádio no fundo. Sem som na televisão. E pessoas quietas. Vendo a tela, folheando revistas sem artigos ou dormindo de alguma forma nesse tipo de ambiente. Portas fechadas. Abrem e fecham. Entram e saem pessoas. Piso gelado. Inverno vazio. E me encontro com você, ao ver uma senhora usando um par de sapatos, como os seus no outono de 1978.
  Você estava bem, mas amanheceu frio. Não havia pele que lhe esquentasse e te puxei para o carro. Chegamos em um corredor branco. Silencioso. Nem rádio nem televisão. Nem pessoas, vultos. E portas. Quase infinitas, não fosse a parede ao fundo, com uma janela pequenina. E foi esta janela que me acalmou, quando você entrou em uma porta, do lado esquerdo do corredor branco, vazio, quase infinitamente silencioso.
  Alguém já reparou no eco que o silêncio faz quando a gente precisa esperar alguma coisa e não sabe nem o tempo dessa espera? A gente sempre sabe que, quanto menos a gente quer esperar, a sensação da demora é infinitamente maior?
  Ao retirar as correspondências da caixa de correio, havia um calendário do próximo ano, e pude perceber que espera não havia.

 

Fragmento

 

  Você já esperou muito tempo por algo que você acreditava que aconteceria?
  Eu deitei no chão: os azulejos do banheiro recolhendo todo calor do meu corpo. Depois pego uma coca no frigobar. Bebo lentamente, sentado na beirada da cama. O ponteiro não pára e avança devagar. As minhas costas ainda estão levemente geladas.
  Quando eu paro de pensar na espera para pensar nesses outros detalhes meu coração acalmava um pouco. Tento até pensar em palavras engraças, que as vezes eu uso, sei lá por quê. Mas ela não vem. Deixo a lata de coca vazia em cima da mesinha e deito, dessa vez na cama. Fecho os olhos.
  Naquele momento, ela aparece e deita do meu lado – não, isso é só um fragmento de memória que se desgarra de algum lugar e acerta meus olhos. Aos poucos, eu já não tenho paciência. O meu celular não toca e o seu toca demais. Pego minhas coisas e vou embora.
  Passo na recepção, pago e vou pro carro. Estou dirigindo. Uma súbita raiva me faz arremessar o celular pela janela. Ele se despedaça na calçada. Ela pára, pega e monta o celular. Eu me arrependo e paro – volto para buscar o celular. Ele está na sua mão: Desculpe, senhora, eu estava no meu carro e tive um súbito ataque de nervos e defenestrei o meu aparelho. Ela riu e responde: Quer dizer que defenestras? – e então eu conheci a mulher mais incrível do mundo – mas isso já é outro fragmento.
  Abro os olhos, estou sobre os azulejos ainda. Você ainda não chegou. Mas acho que não importa mais, já perdi todo calor do meu corpo.