möbius

luzes
reluzem,
reluta
de luto,
o escuro:
nos labirintos
sucintos
tropecei em fixos
problemas
prolixos.

de eternidade
em
eternidade.
troquei dez reais
por
realidade.
sem dar ouvidos
ao olvido,
lembrei
que havia esquecido:
perdi
o que já estava perdido

e sendo como sou
não como fui
desfiz
o que fora
sido,
fora
gido –
a eternidade
explicada
não tinha idade,
nem nó
nem nada
nem era
uma coisa só.

no tempo destrinchado,
o labirinto perdeu
a horizontal:
o chão cedeu,
pulei o meio,
caí no final,
outro problema veio,
mais um tropeço,
e eis que então
tropeço nas luzes
do começo.

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‘.

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Memória

Eu não me lembro,
era tarde
e eu provavelmente estava me sentindo estranho
e eu não lembro porque eu estava bêbado
e eu não me lembro por quê,
mas poderia ser que eu estou trancado numa sala fria,
preso numa sala no subsolo sem nada,
sem comida ou água,
poderia ser porque eu tenho uma namorada agora
e eu não sei o que fazer,

e eu não me lembro,
mas era azul, azul marinho, azul de noite,
eu não consigo me lembrar mais
mas nós estávamos deitados na calçada
e eu não me lembro o que a gente disse
apenas o céu azul,
tão azul quanto o azul consegue ser
e eu não me lembro
mas tem um sabor bom, engraçado
que eu adoraria guardar

mas está desaparecendo,
eu não me lembro,
eu nem lembro mais,
porque eu estava apaixonado por ela,
amor azul real,
e nós tínhamos a noite,
nós tínhamos o tempo juntos,
era um tempo nosso,
céu azul
e conversa fiada

e eu não me lembro mais,
eu vou sentir falta dessa memória,
eu quero sentir falta dessa memória,
mas como sentir falta
de algo que não existe mais na sua mente?
Eu não me lembro
como eu não me lembro o que eu fiz essa manhã,
mas foi grandioso
e muito maior que acordar dia
após dia

sem lembrar a gente no chão
olhando para o céu azul
e tendo aquela conversa,
eu não me lembro,
eu não me lembro,
eu não me lembro,
e,
na verdade,
eu tentei tanto esquecer
que finalmente consegui.

Parabéns.
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La Estrella

Un anciano compra remedios silenciosamente en la farmacia. Sus dedos vacilan por pequeñas cajas de pastillas y él hesita. De pronto, un joven piensa en voz alta “¡No Creo! ¿Qué hace John Carter aquí?”. Es un rapaz muy raro, parece tener veinte años.
  Él no para. Se acerca hablando en inglés con el señor. “Talk to me John! I’m your biggest fan! Just give me an autograph! Please!”. El viejo mira la cara del chico y habla “¿Estás loco?”. La reacción fue “¡Dios mío, John Carter habla mi lengua!”, y después “¡Dame un autógrafo! Yo he visto todas tus películas, soy tu mayor fan. A mi padre le encantaba aquella frase de impacto tuya “I won’t spill blood… Anymore.”
  El viejo malhumorado agarra su remedio y camina lentamente hasta el cajero para pagar, intentando ignorar el chico molesto que le gritaba sus filmes y citaciones favoritos.
  “¡Niño, yo no soy este hombre! Entonces, por favor, déjame en paz.”. El supuesto John Carter paga su compra y sale de la farmacia. El joven se pone a andar en su misma dirección. “Tú no necesitas ser modesto. Solamente quiero tu autógrafo. ¡Mis amigos no van a creer que me encontré al increíble actor John Carter en la farmacia!”. El anciano para y responde con calma “Mira, si tú continuas siguiéndome… Llamo a la policía.”.   El chico se pone a pensar… “Me recuerdo cuándo dijiste eso. Fue en After that Thief, 1965. Look boy, if you keep following me, I will call the cops, and you will suffer more than that guy on the cross.” El viejo suspira y sigue caminando. “¡Vete!”. De repente, el chico se pone triste “Pero… Pero…”. El anciano repite “Sólo vete, solamente eso.”.
  Con los ojos llenos de lágrimas, el joven de veinte años se voltea, aún sin creer que se ha encontrado a John Carter, su mayor ídolo. El viejo no le da importancia y regresa a casa. Entra en el edificio, saluda al portero José y sube.
  Allá él enciende la computadora (¿dónde es el botón?) – hacía mucho tiempo que no la usaba – y entra en aquel sitio de búsqueda… ¡Google, eso es! Escribe “John Carter”. Escoge la primera página que le aparece. Un gran texto habla sobre un antiguo actor… Y al lado hay una foto. El viejo piensa “El chico tenía razón, él se parece mucho a mi.”
  Después baja a la portería, se le había olvidado el periódico. El portero le pide perdón por no haberle recordado antes. El viejo aprovecha para decirle algo. “¿José, sabías que yo ya fui un gran actor de Hollywood en las décadas de cincuenta y sesenta?”. Él balancea la cabeza pensándolo… “No” y parece muy sorprendido. “Sí, sí… Yo era un excelente actor… Ya lo sé, ¿quieres un autógrafo, verdad?”.
  Él vuelve a su pequeño departamento. Toma su caja de remedios y atraviesa lentamente su casa. Entonces, tira las pastillas por la ventana. Después tira la caja de aquellos antidepresivos también. Él se ríe y se dice a si mismo “Finalmente… Soy una estrella.”

  

feliz aniversário

me desculpe por este poema ruim,
por estas palavras cegas:
senti a primeira brisa
algum dia, em algum lugar
quando eu era apenas uma criança
eu
não me lembro.

certo que algum momento
experienciei algo brilhante,
vi o espírito da fragrância
espalhado num campo de jasmim.
e algo me disse para nunca esquecer
o que me tornaria quem eu me tornasse
eu
esqueci.

não duvido que um dia
um senhor de olhos de cobra
me segurou pelo braço
e me fez sair do conforto
que nos ensurda
e eu realmente ouvi
as palavras
que afinal não duraram.

acho mesmo que houve
um momento em que exclamei
“o que você fez com o jardim que eu plantei?”
e eu mesmo respondi
já sem nem saber que jardim era esse:
“ah, as flores murcharam,
não sobrou muito
além disso.”

o que ficou foram as várias vezes
que eu tentei ajudar a todos (e a mim mesmo)
sendo o homem perfeito com minha pena,
com minha inteligência (e piedade).
eu me pus num altar da incompreensão
e criei um jardim esquecido
com flores mortas.

isso me lembro bem:
adorei as flores de plástico
e os dias nublados,
a vida conturbada
até mesmo quando a vida
não estava
conturbada.

e eu cultivei seres que não crescem
no lugar de ideias raras, escassas,
valiosas além de qualquer preço
e me tornei um espelho invertido,
perguntando em vão a mim mesmo
“o que você fez com o jardim
que eu confiei a você?”

me desculpe por este poema ruim.
às vezes, eles só precisam ser escritos.
me desculpe por um poema ruim,
ou mais um,
mas este –
este é para mim mesmo.
feliz aniversário.

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inconstante

as fotografias são leves
o vento as sopra para fora da janela
no frio do inverno que parou no tempo.
o tempo, embora cada dia mais velho,
mantém seu ritmo calmo e violento.
as ondas na praia são certeza
da lua irresoluta.

    tornei-me aquela memória
    indigna de confiança
    que sempre me supus.
    a luz azul está desaparecendo
    aos poucos, ao longe.
    o barulho continua me perseguindo –
    eu tentei ser tudo e não fui nada
    além de um vestígio,
    uma pedra no caminho.

entendendo devagar que
não existe daqui a um ano
nem daqui a dez anos –
meu pra sempre durante
um átomo de tempo.
e já todos perderam a confiança em mim
além de mim mesmo.
não quero cantar o dia nublado
ainda que prefira isto
a reclamar do sol e da chuva.

    você já é muito diferente
    do que eu possa lembrar.
    meu coração aberto rachou-se
    agora estou afogado no fundo do oceano.
    em algum lugar da superfície
    ainda permanece a luz azul
    como um farol de esperança,
    há um lugar para abarcar
    e respirar em segurança,
    vivo.

Meu mapa astral não é nenhuma grande descoberta científica

;

Não importa o semblante
ninguém está isento
de cada instante
a todo momento

;

Sei ou não sei,
eis a questão

;

A distância me machuca
todas elas

;

VENDE-SE memória teimosa

;

A musa ri de mim,
a assombração ri também
Quando foi que eu fiquei tão engraçado?

;

Estou preso num comercial de perfume –
nada faz sentido
nem tem cheiro

;

O sacro é um saco
(né não?)

;

A vida é uma ópera!
Quem tá fora quer entrar,
quem tá dentro só dorme
e aplaude no final

;

Desconstrução.
Em fragmentos,
mas ção.

;
O prefeito inteligente
contrata strippers
para dar roupas ao povo

;

Na hora H troquei os pés pelas mãos—
acabei plantando bananeira

;

Lembro de um mensageiro que reescrevia
todos os bilhetes que tinha que entregar
Transformava tudo em cartinhas de amor
Causou 8 namoros 3 casamentos 1 morte
e a crise mais grave do capitalismo

;

O homem é uma ilha
Só consigo ser ção
com cê-cedilha

Memórias de abacate

Num segundo nós estamos comendo abacate e estudando química — lendo sobre a lei de Avogadro (ou Lei de Adevogado, como eu chamava; ou Lei de Avocado — isto é, abacate em inglês, como você chamava). A gente ia lendo e comendo (de colher), quando você me via comendo muito, parava de ler pra ficar só comendo e eu dizia “agora, a gente vai ter que voltar pro começo de novo” e você ria, mas como nenhum de nós sabia Química, a gente acabava voltando pro começo. No próximo segundo, você ainda está no mesmo lugar, porém seus olhos estão cheios de lágrimas e eu estou com minhas coisas e indo embora. Indo pra casa, alguns quilômetros dali, não pra Paris ou Londres.
  Outro segundo vem, e nós estamos caminhando na praia, tímidos, querendo falar alguma coisa, mas com medo de… do que a gente tem medo quando não conhece aquela pessoa do nosso lado, sabendo que um dia ainda vai conhecer. E então, eu pego uma margarida e te digo que você é tão linda quanto aquela margarida. Você sorri tímida tímida e diz que eu sou bobo bobo. No segundo seguinte, você não está usando sua blusa roxa, você não está usando nada. E me pergunta, com a cabeça no meu peito “Por que você me ama?”
  No próximo segundo, nós estamos olhando para o céu azul. Tão azul que engole a gente na azulzice dele. O problema é que eu sou muito desligado e o meu sorvete pinga na sua roupa e você briga comigo e quando você faz isso, seu sorvete cai no chão e você briga comigo de novo. Mas eu estou rindo, assim crescemos juntos. Vocês está furiosa, as coisas são assim mesmo. No segundo que vem, você está brava e diz que eu não entendo as coisas. dessa vez eu respondo, digo “Eu gosto disso, dessa coisa de não entender… nem saber o que vai acontecer.”
  Nesse segundo então, nós estamos deitados juntos, comendo pipoca e assistindo a um dos filmes cult que você tanto adora. Um do Fellini, um bem maluco. E eu tento te dar um beijo e você me ignora no momento importante, mas logo depois me abraça e me beija. E depois do filme, você tenta explicar e eu digo que prefiro não entender, o filme foi lindo do jeito que foi. Não importa. E a gente se beija. E um segundo passa, e lá está você olhando séria pra mim. Dizendo que acha que não sente mais nada. Não sente mais as faíscas do amor. Não me ama mais.
  Eu abro os olhos e o segundo seguinte dura algum tempo, porque dessa vez eu estou descendo a escada chorando. Sim, homens também choram. E era quase noite, e eu queria morrer. Nesse momento, a gente fica pensando qual é o sentido da vida. Eu tenho certeza que a minha felicidade ficou contigo e a sua comigo. No outro segundo, uma idéia vem à minha cabeça. São quase sete horas, eu corro até o hortifruti. Eu quero uma última chance, digo a mim mesmo. E assim, no segundo adiante, eu estou subindo as escadas. Eu bato à porta. Você abre. Você está usando sua blusa roxa favorita.
  “Vá embora.” Eu respondo que só quero que a gente coma um ultimo abacate juntos. Só isso. “Não, por favor, vá embora…” Eu insisto que dois anos e meio não devem acabar com lágrimas tristes, mas sim com boas memórias. Você resmunga, mas depois me deixa entrar, contanto que a porta fique aberta e eu vá embora logo em seguida. Tudo bem.
  Nós estamos comendo sem nos olhar. Você ainda tem os olhos vermelhos. E eu o coração partido. O abacate não tem o gosto bom que tinha antes. Eu puxo o abacate só pra mim e começo a comer sozinho. Você briga comigo e puxa da minha mãe e começa a comer o que falta sozinha. E enquanto você está com cara de brava, eu só consigo pensar em uma coisa.
  “Seis vezes dez elevado a vigésima terceira potência.” Eu falo. Você pára de comer. Olha pra mim por um único segundo e diz “Quê?” Eu respondo “O número de Avocado!” E, um sorriso mínimo aparece no seu rosto. Eu continuo “Agora, a gente vai ter que voltar pro começo de novo.” No segundo seguinte você ri, ri tanto que sua barriga dói. Você me chama de bobo bobo. Eu sorrio, levanto, fecho a porta e apago a luz.