Marca-passo



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de passo em passo,
incerteza em incerteza,
dou um passo
e sem querer,
sem saber o que faço
já estou fazendo,
sem querer fazer
sem querer querendo –
o ano passa
e a incerteza não,
e outro passo vem,
depois mais cem,
e o sentimento cão
me alcança
como nem eu mesmo me alcanço
e eu canso
e cansado
o meu passo incerto anterior
já é passado,
agora, nesse passo incerto
dou mais um passo,
vou longe
mas perto,
sigo aos trancos,
passando apertos,
vivendo aberto,
e nessa vida sem acertos,
te acerto –
de passo em passo,
passo
pela corda bamba da incerteza,
mais uma vez,
devagarinho,
passo de fininho,
me equilibro com o rosto
no seu coração,
passo no posto
pego dois latão,
e os passos se confundem,
tropeço
e te peço
para vir
e você não vem,
aí o passo desastrado
me passa de volta ao passado
tudo por ali,
tudo a minha volta,
e um passo a mais solta
tubarões no meu tanque de pensamento
e nas minhas mãos, cimento –
não desisto com os nãos,
mas sigo a bater a cabeça na parede
quando precisava dos seus seios
para me equilibrar,
sem meios,
sem par,
meus passos não me tiraram do lugar –
mais um passo incerto,
numa tentativa de liberdade
ciente que isso não existe
que minha liberdade jaz
num poema triste
e aí, então,
eu já nem sei se o próximo passo existe
mas passo a música
e a minha liberdade jazz
num passo de dança improvisada
no meio da calçada,
outros passos, uns dez,
e a liberdade dobra,
sem querer um riso sobra,
mesmo com os pisões nos pés,
e já não há mais consciência
nem cansaço,
acabou-se a metafísica,
viva o fim da ciência!
caio em mim, sentado
estou passado,
todos os meus passos foram errados
mas sem eles eu não passaria
sem eles não haveria amores amados –
continuo lentamente e torto,
o passo cansado e medroso do morto,
naquela mesma corda bamba
minha liberdade é samba
e minha dor é carnaval;
passo mal,
mas passar bem,
passe comigo,
passe sem,
pessoa alguma precisa de alguém:
penso no amor,
passo manteiga no pão
e faço dieta em vão:
a liberdade que eu habito
me encarcera e me cria
se ela me chamasse pro forró
eu ia,
já nem é mais madrugada
e eu vago sem alma,
minha carne mal passada,
sem cama e sem calma
minha resposta é uma dúvida
e se eu dou outro passo
o mundo anda devagar
e renasço
ao acordar,
no dia seguinte,
atrasado e de ressaca,
sem liberdade novamente,
sem liberdade na minha mente,
o passo por vir
é incerto certamente
e cheio de passos para seguir
eu levanto e vou trabalhar.





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Três passos para escrever um poema/O jardim do silêncio

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1. Primeiro passo

Eu não posso escrever um poema.
Minhas mãos estão amarradas.
Minha boca cala.
Minhas letras silenciam.
Não posso falar o que eu sinto.
Não posso sentir o que falo.
Não posso escrever mais que isso.

2. Segundo passo

O coração das coisas não fala.
Uma imagem não fala.
Uma carta não fala.
Um jardim não fala.
Ou todos falam,
e somos nós que assim fazemos soar:
para nós mesmos,
para que não fiquemos sós
e o mundo mudo.

3. Último passo

Depois de pôr a sua melhor roupa;
O seu melhor vestido;
O seu melhor terno;
Dê o último passo
para fora da prancha,
para dentro do tanque dos tubarões.
E, aí, então,
capaz de falar
ou não;
capaz de ser tudo além de somente si no mundo
ou não;
você vai começar a escrever um poema.

Ex: O Jardim do Silêncio

Eu queria lhe dizer algumas coisas,
você sabe,
mas o silêncio apenas
já me deixa
rouco.

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枯山水 - Karesansui
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Soneto Preto

Fumaça e espelhos, o mágico faz a pomba aparecer e voar.
Diante dos meus olhos, sei apenas que não é real.
Meu coração tropeça sozinho na mesma canção, no mesmo bar,
porque eu cansei: do que já foi oceano, resta só o sal.

O aroma da grama recém-cortada é o cheiro da aflição da grama.
O agradável é um sofrimento que passa despercebido,
e o problema é gostar de sofrer como quem ama,
sem nem duvidar do que se ouve além do que foi ouvido.

Depois da ventania não-prevista, tudo já arruinado.
O músculo perde-se num labirinto de espelhos,
o passo hesita depois do que ainda não é passado.

Desolado, distante de todo tipo de conselhos,
a mente nos faz crer que não conseguiremos nada mais.
Diante do mágico, sei apenas que nós somos reais.