Na palma da minha mão

Na palma da minha mão cabem alguns sonhos,
eu os guardo nos bolsos das minhas calças;
alguns estão ainda novos, outros cresceram
demais
e eu tive que os descartar. Há uns sonhos apodrecidos que tenho
medo de jogar fora,
crio espaço para esses nos bolsos e na palma da minha mão.
Eles se encaixam e se mesclam sem querer
num solavanco;
como uma criança que tem que pisar só nas faixas brancas do calçadão
deslizo a mão por toda a extensão da tua vontade imensa. Absorvo
a textura de nuvem com a palma da mão,
embaralha tudo
que vive dentro dela;
me faz ir por uma rua desencontrada do movimento,
uma rua que nem existe. Se mostro a cara e ofereço o peito,
quando me tocas
viro um cachorro diante de um aspirador de pó
e desencontro-me dos meus limites como gente,
apesar de não ser tão gente
como você. Recuo no ferro incandescente dos teus dedos,
recuo ao toque, a decepção
me leva longe:
uma ventania numa festa de casamento;
um guarda-chuva perdido na terra dos guarda-chuvas perdidos;
eu poderia ser a embriaguez de uma garota linda
e confusa.
No terror de um filme de comédia mal feito, meu juízo nervoso oscila e
não sabe
que caminho seguir.
Quando tudo que você queria era uma sombra debaixo de uma árvore
ou um motel mesmo,
o não-medo. A coragem que eu tenho para dizer que sou um covarde.
Torço sem querer torcer para a modulação aleatória desembocar no rio certo,
se acaso o acaso funciona
foco na palma da minha mão
e deixo tantos sonhos quanto existirem caberem nela.
Se a mente não me trai, uso a palma da minha mão
não para coletar sonhos, mas sim passos de dança,
para criar arcos com os braços e
transformar-te em flecha
que flecha
voa.
E atinge um alvo, mesmo que chão. Se o se acontece,
viro eu mesmo a própria incandescência: ando nesse traço de giz
riscado sob o mar.
Não é um jogo, não é uma dança também: é algo
com nome mais burocrático quando deveria ser
a existência menos burocrática de todas as coisas;
ainda assim, há dois lados tal qual espelho e funciona igualzinho:
de cada lado há um que assemelha o outro, mas
não o é. Não é uma brincadeira,
embora fique melhor quando parece. É cardíaco: bate
duas vezes para mostrar a vida.
Tu dependes de mim — se bebes como um perdido no deserto,
se fazes conchas com as mãos e bebes poças cheias de poesia,
provavelmente morrerás,
ainda que
num oásis.
Se segues tua parte, resta a mim ser mais que
um momento de inspiração desperdiçado.
O guidom do teu copo levou-te até um canto mal iluminado;
desapareceste junto
de um guardanapo cheio de ideias-em-breve-erros.
Nessa volta do ponteiro, eu sou o sabonete delgado
que, no fim, desaparece na pressão com que o aplicas
sobre
tua pele.
Meus pés estão firmes no chão através de falsas raízes.
Na palma da minha mão
cabe um sonho
a mais.
 

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One comment

  1. maricastilho · Setembro 23, 2012

    Uma poesia arquitetada e sonhada ao mesmo tempo.
    Na verdade, uma obra onde as paredes são os sonhos. Uma construção feita de todos os tipos de sonhos ( apodrecidos ou não). E que parece infinita, sonhos se empilham um nos outros -alguns se misturam, outros continuam da mesma forma original- e a tal construção cada vez aumenta mais e, quando se acha que chegou ao fim, percebe-se que é só o começo. Só o começo por quê ainda não dá para ver as nuvens (ou serão mais sonhos?) de perto.
    Muito bonita a poesia.(=

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