4 am

não consigo dormir:
a esta hora,
já as verdades
são trêmulas.
o desejo é necessário;
há de, no mínimo, desejar-se
um copo d’água.
o meu norte é o caos —
a chama me chama:
a chama que ilumina
fracamente
a escuridão
me chama;
eu, seduzido,
me queimo.

não consigo dormir;
já a dor que me mata
é prazer
e o prazer que me mata
é dor
inescapável
que teima em não se decidir;
que queima e treme
e ilumina fracamente
o corredor;
a noite é bela, violenta,
aterrorizante —
o que não se vê está lá
mas o que não está
também não se vê.
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o corpo/ a cidade

meu corpo é uma cidade
a cidade é o meu corpo;
todas as casas estão
em chamas,
destroços caem,
outra vez um incêndio:
quando tudo for consumido
haverá breu real
e nada mais —

não há caminhos errados
quando há apenas um caminho:
não se pode morar em cinzas.
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Coração de carvão


há uma chama me atormentando.
ela ilumina o ponto ao qual eu tenho que chegar,
cega quando tento ver o caminho.
leva embora o oxigênio,
torna o silêncio a borda da mentira e da morte.
o incêndio dos pelos do meu corpo e das peças de roupa proibidas.
um rolo de filme antigo queima deixando frames espalhados
e perdidos em algum lugar.
meus joelhos doem, o ano passa como a faísca de um isqueiro –
a chama me atormenta:
no centro do peito
eu inventei o fogo
mas esqueci de inventar o calor.








O labirinto do coração

1.

Eu nasci com a caixa dos pássaros no peito.
  Os anos se passaram e eu nunca soube porque era dos pássaros, pra mim era só uma caixa vermelha, não fazia muita diferença. Não era possível vê-la através da camisa, ninguém via. Um dia notei que havia um ninho. Só. A caixa ia se ocupando aos poucos.
  Corta.
  Naquele banco desconfortável, muito tempo depois, tudo sobre ela ficou sujo de sorvete. Aquele nosso primeiro sorvete eu tentei guardar na memória. Mas ele está derretendo, e todas as nossas memórias – boas e ruins – estão ficando com gosto de sorvete de chocolate. Minha cabeça está batendo contra a janela no balanço da estrada empoeirada.
  Dois, três segundos e corta de novo.
  Havia apenas uma vela no meio da mesa, uma simples vela já nos seus últimos momentos. Também a brasa do cigarro acendia do meio da escuridão. A garota tentou fazer aros de fumaça. Tentou ignorar o que ele a dissera há pouco. O silêncio negro pairou no ar por algum tempo. Ela levantou e apagou o cigarro no cinzeiro com raiva. Um sopro dela e aquela cozinha ficou escondida do mundo e do resto do mundo; todas as direções pareciam ser uma só: davam no corpo do minotauro, no coração do labirinto. O silêncio da falta de luz era o único caminho a ser trilhado, antes fora uma estrada de chão espaçosa, agora tornara-se um piso asfaltado, estreito e quente em que era impossível andar lado a lado ou deitar-se para uma soneca.

2.

Eu não consigo parar de pensar e o mundo também não para de rodar.

3.

Ela diz isso agora pra eu não ficar preocupado;
  mas sabe que eu fico.
  Ela diz que é só algo em relação a atitude;
  mas sabe que na minha cabeça eu já revisei tudo.
  Sabe que eu já me arrependi de algo que fiz por ter sido eu mesmo. E acho que ela não percebeu que por causa dessa conversa que nem aconteceu ainda já voltei à estaca zero na busca de ser cada vez mais eu e menos eles.
  Nós sempre estávamos na mesma discussão sobre as mesmas coisas indissolúveis. Não importa, sempre caímos na mesma armadilha. Me sinto bem sozinho. Bem até lembrar dela e querer tudo aquilo outra vez, tudo aquilo que era bom, esqueço a paranóia e a tempestade.
  A voz tremeu, o escuro berrou, a noite gelou
  — e agora, José? e agora, nós dois?
  Quando ela me ligou, desliguei na sua cara. Ela ligou de novo, eu desliguei de novo e me desliguei de vez.
  Meu coração batia na velocidade do alívio,
  com o peso da decisão e, por sorte, sem parar
  (muitos nascem só para morrer).

4.

O grande problema da vida é que nós não vivemos um problema de cada vez mas sim todos ao mesmo tempo.
  Fiquei horas escrevendo as coisas que se estapeavam e se pisoteavam para sair de mim num rabisco anárquico. Foi num acesso de ódio que joguei tudo mesa a baixo. Brutalmente, sem compaixão por serem meus pertences. Sem delicadeza, sem me importar com os expectadores que, mesmo que nem existam, nos preparamos em silêncio para agradar. Um caderno fez espalhar papel por todo o quarto.
  Respirei.
  Fui recolocando cada livro, lápis, estojo, pasta, folha em seu devido lugar. Antes de terminar, parei e saí para fumar um cigarro.
 Eu queria dar uma volta de meia hora mais ou menos pela praia. Sentia uma coisa misteriosa quando estava tudo congelado na rua e o mar permanecia impassível. Admirei a água, as ondas, a areia, coisas que os poetas geralmente gostam e eu nunca soube ver nada além do que eles realmente são.
  O meu olho cirúrgico fatiou toda aquela tranqüilidade. Veio a mim um sentimento criminoso que nós encontramos normalmente em coisas pequenas. Eu o estava vendo do jeito que tem que ser visto — nas imensidões.
  Por um instante, desprendi-me de ontem. A água que batia nos meus pés, no entanto, ao invés de molhar, deixava-me seco.

5.

Respirei de novo.

6.
        Acordei com o corpo
       todo riscado de uma fúria
      presa e alimentada
     mas que
    sob a incerteza dos desencontros
   começa a se situar novamente;
  se situar como se situam
 os cartoons já sobre além do penhasco.
E também uma ressaca pesadíssima.

7.

Fico me perguntando por que ando tanto e tão sem rumo. Cada vez que penso nisso, chego a conclusão de que queria estar mesmo é bem longe daqui, mas a vida que a gente vive cria tantas camadas que é difícil pegar uma mochila e sair por aí de verdade.
  Sou uma farsa pra mim mesmo?
  Não sei se me iludo ou é esta a verdade. Um dia, andando do trabalho para a faculdade com pressa, aconteceu: todos os pássaros vieram velozes e voando me atingiram no peito. Disputavam para entrar na caixa, um pássaro batia no peito e caía. E outro, e mais um. A cena se repetiu algumas vezes e eu cambaleei um pouco até vir mais um pássaro grande demais e me derrubar de vez. Eram muitos pássaros voando em direção ao meu peito, à minha caixa semi-preenchida. Não conseguia entender porque aquilo estava acontecendo. Eram muitos pássaros e eles não cabiam na minha caixa, por mais que todos soubessem exatamente onde deviam estar.
  O próximo passo é um passo do qual eu me arrependo por vergonha besta. Um passo cheio de animação no fundo, e no fundo falso do fundo, um outro passo na direção oposta.

Nariz queimado

Como se fosse um fósforo nos tempos quase incontáveis que precedem o seu incêndio.
  Queria dar um beijo no nariz dela. Mas não era isso. Ela não queria beijos no nariz, nem algo que se assemelhasse com amor. Talvez algo que se assemelhasse com amor. Mas de longe. E um conceito diferente do meu.
  Disse que era um mágico.
— Que mágica você faz? — ela perguntou.
— Transformo sorte em azar.
— E azar em sorte?
— Depende do meu humor.
  Mas não importa. É só ilusão.
  O nariz ficou pressionado contra o dorso nu, preso numa tentativa de respirar carne.

[11/2012]

Na palma da minha mão

Na palma da minha mão cabem alguns sonhos,
eu os guardo nos bolsos das minhas calças;
alguns estão ainda novos, outros cresceram
demais
e eu tive que os descartar. Há uns sonhos apodrecidos que tenho
medo de jogar fora,
crio espaço para esses nos bolsos e na palma da minha mão.
Eles se encaixam e se mesclam sem querer
num solavanco;
como uma criança que tem que pisar só nas faixas brancas do calçadão
deslizo a mão por toda a extensão da tua vontade imensa. Absorvo
a textura de nuvem com a palma da mão,
embaralha tudo
que vive dentro dela;
me faz ir por uma rua desencontrada do movimento,
uma rua que nem existe. Se mostro a cara e ofereço o peito,
quando me tocas
viro um cachorro diante de um aspirador de pó
e desencontro-me dos meus limites como gente,
apesar de não ser tão gente
como você. Recuo no ferro incandescente dos teus dedos,
recuo ao toque, a decepção
me leva longe:
uma ventania numa festa de casamento;
um guarda-chuva perdido na terra dos guarda-chuvas perdidos;
eu poderia ser a embriaguez de uma garota linda
e confusa.
No terror de um filme de comédia mal feito, meu juízo nervoso oscila e
não sabe
que caminho seguir.
Quando tudo que você queria era uma sombra debaixo de uma árvore
ou um motel mesmo,
o não-medo. A coragem que eu tenho para dizer que sou um covarde.
Torço sem querer torcer para a modulação aleatória desembocar no rio certo,
se acaso o acaso funciona
foco na palma da minha mão
e deixo tantos sonhos quanto existirem caberem nela.
Se a mente não me trai, uso a palma da minha mão
não para coletar sonhos, mas sim passos de dança,
para criar arcos com os braços e
transformar-te em flecha
que flecha
voa.
E atinge um alvo, mesmo que chão. Se o se acontece,
viro eu mesmo a própria incandescência: ando nesse traço de giz
riscado sob o mar.
Não é um jogo, não é uma dança também: é algo
com nome mais burocrático quando deveria ser
a existência menos burocrática de todas as coisas;
ainda assim, há dois lados tal qual espelho e funciona igualzinho:
de cada lado há um que assemelha o outro, mas
não o é. Não é uma brincadeira,
embora fique melhor quando parece. É cardíaco: bate
duas vezes para mostrar a vida.
Tu dependes de mim — se bebes como um perdido no deserto,
se fazes conchas com as mãos e bebes poças cheias de poesia,
provavelmente morrerás,
ainda que
num oásis.
Se segues tua parte, resta a mim ser mais que
um momento de inspiração desperdiçado.
O guidom do teu copo levou-te até um canto mal iluminado;
desapareceste junto
de um guardanapo cheio de ideias-em-breve-erros.
Nessa volta do ponteiro, eu sou o sabonete delgado
que, no fim, desaparece na pressão com que o aplicas
sobre
tua pele.
Meus pés estão firmes no chão através de falsas raízes.
Na palma da minha mão
cabe um sonho
a mais.
 

Dawn with Jesus by my side

I smoke a cigarette
Never lit by anyone
The smoke did not fly beautifully
Through my lungs and out of me
With everything I have
And leaving nothing inside.

I saw Jesus and he asked me if I believed in cancer.
I nodded and lowered my fake leather hat.
Jesus said to me that I was a wise man for the unlit cig.
He answered my silence with more silence,
The cold wind lashed the prairy somewhere around the area
And our tattered selves.

Jesus was a grimy man with dirty clothes.
We watched the dawn together half asleep by exhaustion.
He said to me that cancer was hard to believe, even if you have it.
I nodded and took the cigarette out of my mouth,
Blew air full of half emptiness and put it back.
He asked if he could have the cigarette.

I said why not.
But did not hand it to him.
And asked if he believed in cancer.
He said sometimes, but still found hard.
He took the cigarette out of my mouth and groped himself for a lighter or a match.
I said don’t look at me pal, I don’t have it either.
He smiled his Jesus loves you smile and told me not to worry.

I wanted to ask him what should I do with my life, but it sounded cheesy in my head.
So I kept it to myself and stared at him in silence.

A huge explosion happens then.
A fire started nearby.
A fiery horizon hurt my eyes
Incredibly.

Jesus said he gotta go.
I did not bid farewell.
He was already far with the unlit cigrette between his fingers
When, without stop walking, he turns and yells
“Love thyself and thy neighbour!”

I watched him go walking towards the fire for some time.
But I was tired,
Lied down on the ground,
Put my hat over my face and let the weakness spread throughout my body
Until I was sound asleep.