A Orquestra Mágica das Luzes [parte 1]

 

Rosa,

  Eu sempre reconheço a sua sombra. As pessoas podem saber como é a silhueta de alguém que conhece bem ou até mesmo de uma pessoa diferente. Acho que ninguém jamais a reconheceria dessa forma, nem sua mãe, sua irmã menor ou até mesmo, sei lá, seu futuro marido. Quando nós olhamos, vemos o cabelo, a altura, a posição do corpo, essas coisas que dá pra ver pela sombra. E você, tem uma altura média, um cabelo novo a cada dia e nunca faz duas coisas do mesmo jeito. Mas eu reconheço a sua sombra.
  Numa manhã quente como essa, eu até consigo ver o seu tio reclamando do ventilador desligado, a sua mãe varrendo a sala e você parada, assim, “autistando” – olhando para as comidas em cima da mesa, mas com a cabeça em outro planeta. Foi nesse dia que eu fiquei olhando pra você por uns 11 segundos. Quando você percebeu, virou pra mim e disse que não gostava que eu ficasse olhando assim pra você. Eu parei de olhar, fiquei com os olhos no chão, na sua sombra.
  Foi quando eu percebi que os seus ombros são desiguais. É uma coisa sutil, mas enquanto eu olhava só conseguia pensar que a sua sombra era comum demais e não cheia de detalhes e enigmas, como você. Mas depois de um tempinho, eu notei nos seus ombros. E depois daquele dia, eu sempre notava nos seus ombros. Talvez me ajudassem a resolver o seu enigma.
  Ontem mesmo eu pensei nisso antes de dormir. Me senti numa viagem de avião, deitado e um milhão de paisagens que eu só ia sobrevoando. Eram lugares frios, montanhas desiguais – como seus ombros – e lagos congelados. Engraçado eu lembrar desses pensamentos tão bem, porque depois meu avião terminou numa nuvem branca gigante e cheia de chuva. Terminou no sonho, no sono, e a partir daí, eu não lembro de muita coisa.
  Hoje eu acordei suado. Um calor terrível. Tomei um banho. Foi impossível não te enxergar tomando banho comigo e reclamando do calor, você, a pessoa que mais detesta calor no mundo inteiro. Bem, depois eu voltei a dormir. Tentei, né.
  E outra coisa – faz tempo que a gente não conversa por msn. É, eu sei que você não gosta dessas modernidades, prefere se manter rústica e ligada a vida vivida. Mas eu gostava, da minha internet meio lerda e a sua super webcam daí.
  Era engraçado, as imagens pareciam uma sucessão de fotos. E às vezes travava sua imagem com a boca aberta. Isso, porque você fala o que digita, também acho isso engraçado! E você falava de coisas bonitas daquela vez, dos vaga-lumes do Não-sei-o-quê River. Eu imaginei você, de cabelos compridos (como você tava na webcam), lá – brilhando mais que o lago, os vaga-lumes e todo resto.
  Sabe, eu sinto saudades de você e, embora você diga que sim, eu me pergunto às vezes se você sente saudade de mim.
Na última vez que a gente se viu, lá no aeroporto, minha garganta travou e eu fiquei olhando pra você por uns 11 segundos. Quando percebi que você não gostava disso, olhei pro chão e vi sua sombra. Você passou a mão no cabelo e disse que eu podia olhar, que você gostava quando eu ficava assim, olhando pra você, meio perdido do mundo.
  Pelo msn, você esquece como é alguma palavra em português e escreve ela em inglês pra eu te traduzir. Você mudou uma vez aqui, já mudou mais vezes aí. E você sempre muda, os tempos contigo eram os melhores, porque cada dia era diferente e emocionante. Talvez eu não mude o suficiente pra te acompanhar.
  Conversei com minha mãe um dia desses. Ela tinha notícias de você, conversou com Dona Maria, sua mãe. Falou que você tava super feliz, com emprego e tudo aí. E que tava morando com um nova-iorquino. E ela disse mais coisas, eu não prestei muita atenção. Parece que você não guardou muito de mim, assim como eu guardei de você. Aliás, se um dia você quiser vir aqui, tenho tesourinha, escova de dente, pente, lençol das meninas superpoderosas, carteirinha do clube, sua antiga identidade falsa (que eu fiz, lembra?). Bem, tem uma caixa com todas as suas coisas, esperando pela dona.
  Eu acho que não tenho muito o que fazer. Só esperar o fim das férias, do verão, da monotonia. Outro dia, fiquei ouvindo uma memória: você cantando, desafinada como sempre. É bom lembrar das coisas, assim, de repente. Talvez tenha sido pelos meus devaneios antes de dormir, mas hoje decidi escrever isso pra você, que não gosta de email e msn e nada disso. Nem sei se vai chegar em janeiro aí. Mas tudo bem, o janeiro daí é frio pra caramba que eu sei.
  No momento, to no quarto, com a porta aberta. Quando eu ia começar a escrever isso, vieram duas pessoas conversar com minha mãe na sala. Eu conseguia ver só as sombras delas. Era um homem e uma mulher. As vozes não chegam até aqui. Ainda assim, dá pra ver as sombras projetadas no chão. Fiquei uns 11 segundos com os olhos vidrados na silhueta da mulher. Mas os ombros iguais dela não me deram nenhum arrepio.

                                                                                                                                                             Diego.

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12 comments

  1. Ana · Janeiro 15, 2010

    lindo,de verdade

    mas não me senti melhor

    mó bad aqui

  2. Bella · Janeiro 15, 2010

    Lindo.
    Me faz sentir bem.
    Quando li, foi como se eu fosse a Rosa.
    E fiquei feliz de ter um Diego me escrevendo com tanto carinho.

  3. Juliana Dias · Janeiro 15, 2010

    Bom… eu pensei por mais de 11 segundos…

    É o tipo de texto no qual eu não consigo fazer comentários, simplesmente porque eles me tiram as palavras de tão bonitos que são. E, nesse caso, nem dá para citar uma parte preferida… dá vontade só de voltar e ler tudo outra vez…

    Gostei! Gostei! Gostei muito mesmo! =)

  4. Adriana · Janeiro 16, 2010

    Você disse pelo twitter que esse texto valia pena ser lido e realmente é verdade. Queria fazer um comentário bem bolado haha, mas não sou muito boa nisso então vou resumir dizendo que o texto é lindo e que goste muito. E que aliás tenho gostado bastante de todo o blog em si =D

  5. Anamel · Janeiro 16, 2010

    =D (sorriso mais largo do dia inteiro)…


    Bom, é isso.
    Obrigada!!!

  6. Fernanda Hiraga · Janeiro 17, 2010

    Gostei mesmo! Muito bom o jeito que você conduziu o texto, não quis que acabasse.

  7. maracuja · Janeiro 26, 2010

    mais lindo do mundo… amo as cartas.
    os olhos cheio novamente…
    to boba… esse to q nem a Juliana aqui querendo reler tipo 55 vezes…. saudade é meu próximo tema tbm..
    coisa de gente brasileira…

  8. maracuja · Janeiro 26, 2010

    Onnnn

  9. leleuantonio · Março 26, 2010

    Meu caro, muito bom o seu texto, tratou o tempo de uma forma muito interessante.

    Valeu a dica, e estarei sempre buscando aprender com aquleles que sabem mais do que eu.

    Por favor continue lendo meus escritos com o mesmo olhar critico, espero que não gostes de verdade de um texto meu para poder ouvir todas suas criticas. (risos)

    Obrigado por participar de meu inicio.

    Leleu Antonio

  10. Vörös · Março 28, 2010

    Lágrimas nos olhos.
    Lembrei de histórias antigas, de estórias remotas e de sonhos futuros.
    Ah menino, vc vai longe com seus dedos ágeis por esses teclados mundanos!

  11. Lucem Fero Dei · Janeiro 16, 2011

    Lindo! Beautiful! Hermoso! Kallós! Schön!

    A riqueza de detalhes só esmiuça uma delicadeza ainda mais terna.

  12. João G. · Fevereiro 16, 2011

    wow, descobri o blog ao acaso, estou impressionado com j.d.crespo. pelo jeito que você escreve, dá até vontade de mostrá-lo algo escrito por mim. parabéns.

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