O sonho do carrasco

Todo dia
um olhar de perdição no rosto do filho de alguém.
Desolado, os passos lentos em direção ao fim
do corredor são tangíveis. Tão tangíveis
quanto a voz do martim-pescador cantando
na terra do fogo impiedoso. O sismógrafo
por trás dos seus olhos tenta desabituar-se
ao indigesto sol da tarde de
todo dia.

No cochilo durante a volta para casa,
ele vê todos os rostos que não pertencem mais
aos corpos de seus donos. Desgosto,
os dias passam em devagar sucessão mas ele sabe
que há muito mais cores
que se possa encontrar no preto
que apenas
o preto.

O carrasco sonha com paixão.
De qualquer espécie.
E faz amor –
amor de verdade –
com sua esposa,
alexitímico.






Castelos/Midori

(Anjos maus, anjos maus, por quê?)

Primeiro,

havia um grupo de chatos. Umas vinte pessoas vagando por uma residência imensa feita de blocos de pedra abandonada na Itália. Poderia haver um tesouro por lá, é isso que nos ensinam sobre o mundo da fantasia. Ninguém, apenas os nossos bolsos cheios de fantasmas nossos que iam se espalhando pelos cômodos. A contar pelo número de pessoas, algumas também se perderam se misturando à atmosfera, conscientes de que estavam se perdendo embora muito mais estivessem se encontrando. Eu tinha minha garrafa de Vodka e o grupo de chatos eventualmente tornou-se apenas um grupo.

Segundo,

nós chegamos numa praia com areia branca que é quase da cor do meu terno cor areia branca. Há uma parte inundada na praia a qual teríamos que atravessar nadando se algum de nós estivesse com disposição e capacidade. Do outro lado, uma menina. Ela estava de pé no meio de um círculo de torres de areia que não chegavam à altura dos joelhos dela. E ela tinha o cabelo cortado numa franjinha e ela olhava pra mim como se só eu pudesse vê-la. O bando de pessoas vestidas com classe cambaleando pela areia acenou a ela, uma das mulheres – uma que tinha o esmalte descascando das unhas – gritou qualquer coisa. A menina não reagiu, continuou olhando para mim com seus olhinhos italianos.
  Eu desejei naquele momento que só eu pudesse vê-la.

Terceiro,

eu andava ainda meio anestesiado de sono e andava devagar com meu carrinho de malas. Não foi difícil enxergá-las. Mais tarde, em casa, entreguei à menorzinha um globo de neve com um castelo no meio. Ela o olhou com os olhos maiores que o próprio presente.

Quarto,

a festa está animada e um saco ao mesmo tempo, ela disse. Então, estamos numa festa de Schrödinger?, eu disse mas ela não entendeu. Às vezes eu encontrava pessoas que tinham se descolado do meu tempo-espaço, principalmente do meu espaço. Era bom quando isso acontecia. Todos pareciam alegres. Estavam se matando nem tão aos poucos assim. As pessoas são como velas, precisam de fogo para fazer sentido e fazer sentido as leva ao destino final.
  Quando cheguei em casa, me senti abraçado por um copo d’água e o cd do The Clash que eu tinha achado no chão do carro na semana passada.

(Anjos maus, anjos maus, por que voam tão baixo?)

Quinto,

desconforto, a cama parecia tábua. Até que. Mãos pequenas. Sorriso pequeno. Cabelo castanho. Pele macia. Dente mole. Mão chegando no tamanho da minha mão. Pele – são duas torres (dobra os joelhos), aqui está o fosso com o riozinho cheio de jacarés em volta (mexe os braços), o quarto da princesa, a sala de observação, o jardim secreto (bagunça o cabelo), o aeroporto privado (abre a boca), o segredo fica aqui no meio (orelha no umbigo) e agora eu já sei o segredo: cosquinha na costela (todo o castelo se desmonta momentaneamente).
  

a febre

se eu digo sol, chuva,
você não precisa definir o que é o sol,
não pode redefinir o que é a chuva.
não pode fazer o sol brilhar mais.
ou menos.
você não pode tocar o sol.
mas por que você faria isso?
por quem você queimaria a mão?

a chuva desaba.
você não pode aumentá-la.
nem impedi-la.
e por que mesmo você faria isso?
eu não preciso do universo,
preciso de mais.
de algo que não posso tocar
mas que pode me tocar.

então,
por favor,
deixa chover.

Destination

There is no need for a big dream to dream big,
put on an apron and it already begun
[Rabbits. Zebras running. Go— equilibrium.
Cold rain. Skin. Lions. Mood. Rain, sleep.]

As I stare to the wrong tip of the iceberg,
the people in the living room keep dancing for rain in an electrical storm.
[Wait on something to fill. With— I wouldn’t know what. Hope in mouth, just like a prize.
Sun now. Cold tiles. Bones. The palm of your hand. A tattered dream of time.]

It’s a time to be so small — so small we cannot bear it.
So small that to lift our tiny fists seems pointless and targetless.
[You. Sleeping like an angel. Fade. A walking memory following me.
Unhappy. Daymare. Unrest. Mess. Dinner is ready. My time to go.]

Trying to find an extremity that you can’t never know if exists.
To blindly grope for an edge, not sure what to find, maybe fire.
[Lions again. Newborns. Need to feed. Deers. Gazelles. Over and over. Go.
One more time what really was before— a matter of surviving.]

The pursue of adjusting into something. Not to be what is needed for me to be,
but to be able to adjust— to adapt.
[Curtains. Cloudy. A tiny cut. Blood. Wind. Power went out.
Tangible hours. Mouth. Glass. Liquid. The taste of iron.]

Wait. Somewhere. I want to cry. I want to scream. Without needing to want it.
The hardest part is not the journey nor the decision to travel. It is destination.
[Awareness. Sunlight. A match. Some cigs. Bottles. No more.
I have the strange feel of water. Time.]

Under lights I must feel death on myself to quit being an actor
— have you ever questioned why is so unwordly hard to be yourself?
[A broken feel. Over and over. Go. Bones. Cold tiles.
Nothing. Elsewhere. Run. Walk. See you.]

A memory fills me with eletricity, my structures fall to pieces.
But I am in an apron.
And the hardest part is expectation and understanding.
I have someone to write to: there is no need for a big dream to dream big.

A tragédia

 

  A tragédia sucedeu-se de repente.
  Não quis dar um olhar muito lógico para a cena, não queria deprimir-me. Por isso, ignorei qualquer transeunte confuso e segui andando. Concentrei-me no último botão da minha camisa (de cima pra baixo). Ele não estava abotoado. E me parecia que ele não tinha par. Ponderei, este que é o coisa feliz. Este botão.
  Mas depois a ilogicidade que persegui deu-me um nó na cabeça e tropecei na dificuldade de me expressar. Sem querer saí gritando. Nem sei o que gritei. Mais transeuntes confusos.
  Porque, veja bem. A tragédia sucedera-se de repente. Num súbito ataque de não-sei-o-quê, lembrei de num-sei-que-lá e bateu-me o sentimento. É realmente difícil de explicar. Fiquei atordoado e olhei para o botão. Estaria atordoado também?
  Não. Feliz ele não era. Eu o era. E teria de viver com isso. Viver com isso. Talvez não fosse complicado, mas tragédia fosse, tragédia era. Despi-me da miséria do mundo e mirei as crianças na água. Vivi a tragédia.
  Foi o que foi que não me caberiam jamais as palavras. No entanto, de qualquer forma, mais transeuntes me olharam não só confusos. Eu entendia – havia despido muito mais que a miséria (não por acaso).