na fotografia II

na fotografia II

o vento sopra as fotografias
pela janela
e o tempo, embora mais velho,
mantém seu ritmo calmo e violento.

as ondas na praia são certeza
da lua irresoluta;
tornei-me aquela memória
indigna de confiança
que sempre me supus.

a luz azul está desaparecendo
aos poucos, ao longe.
o barulho continua me perseguindo
–eu tentei ser tudo
e não fui nada.

entendendo devagar que
não existe daqui a um ano
nem daqui a dez anos
–meu pra sempre durante
um átomo de tempo.

o vento sopra as fotografias
pela janela
e as águas salgadas e geladas do mar
ignoram nossos sorrisos anacrônicos.

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möbius

luzes
reluzem,
reluta
de luto,
o escuro:
nos labirintos
sucintos
tropecei em fixos
problemas
prolixos.

de eternidade
em
eternidade.
troquei dez reais
por
realidade.
sem dar ouvidos
ao olvido,
lembrei
que havia esquecido:
perdi
o que já estava perdido

e sendo como sou
não como fui
desfiz
o que fora
sido,
fora
gido –
a eternidade
explicada
não tinha idade,
nem nó
nem nada
nem era
uma coisa só.

no tempo destrinchado,
o labirinto perdeu
a horizontal:
o chão cedeu,
pulei o meio,
caí no final,
outro problema veio,
mais um tropeço,
e eis que então
tropeço nas luzes
do começo.

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..
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.
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‘.

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.
..

Manchas no horizonte/Luzes dos carros

A segunda chance é a pior chance:
pesa o mundo e escurece a noite,
beira o penhasco da insensatez.

O diabo não cansava de dizer-lhe ao pé do ouvido:
– A mulher não é uma mulher, é uma criança.
A simpatia não é um convite, é respeito.
O homem não é um homem, é uma criança.
O gesto não é um movimento, é uma mensagem.

E falado isso, tudo voltava a acontecer.
A faca que ele nem via, mas que estava cravada ali
por baixo das dobras do casaco.
Ao passar a mão, vermelho, muito vermelho.

E o diabo não cansava de dizer-lhe ao pé do ouvido:
– Você vê apenas o vermelho, mas sabe que é sangue.
Você vê medo, reconhece a morte.
Você vê uma pequena chama longe e sabe que ali há um incêndio.
Na segunda chance, você tem a última chance.
A última chance de cometer os mesmos erros pra sempre
e a última chance de seguir um outro percurso.

O pior não era quando o diabo fincava-lhe a faca
ou falava-lhe ao pé do ouvido.
A pior parte era quando o diabo permanecia em silêncio
porque era exatamente quando ele sabia
que as manchas no horizonte eram as luzes dos carros,
exatamente quando ele lembrava
que o diabo era, acima de tudo, ele mesmo.

Havia a segunda chance
em que ele tinha que ser quem não era
por alguns segundos de bravura
para tornar-se de vez alguém diferente
daquele que sempre foi.

Que diabo de nome é esse?

 

  Lucem Fero Dei. É uma frase latina que significa ‘eu carrego a luz de Deus’. Nas traduções admite-se o que carrega a luz ou aquele que carrega a luz. Tal sentença surge das palavras Lux (luz), Fero (eu carrego) e Deus (Deus), que dará nome ao príncipe dos anjos caídos: Lúcifer.
  Na verdade Lúcifer é o mais devoto do Todo-Poderoso, pois apenas aceitou glorificar o mesmo e não uma criação abaixo da ordem angelical e cheia de defeitos: o homem. Logo, ele era também o iluminado que via o quão violenta é tal raça, recusando-se pois a aceitá-la, muito menos prestar-lhe graças. Se Lúci tentou roubar o trono da Divina Providência foi para colocar um pouco de juízo na cabeça do Senhor.
  Diz a lenda que com terça parte dos anjos – os nefilin – Lúci desceu do Paraíso para um vale profundo no qual dividiria o planeta com tão odiada criação, tornando-lhe a vida insuportável, necessitando, pois, os homo sapiens da graça de Deus (um quê de Zeus e a glorificação da humanidade alimentando sua imortalidade). Porém penso que Lúcifer nada fez, apenas nos deixou na solitária com nossos pensamentos, atos e omissões, tornou cada um e todos um Inferno particular.
  Não. Não sou adorador da trevas (embora goste muito do Harry Potter). Não sou umbandista (embora ache uma interresante religião e seja afro-descendente). Apenas quero refletir o quanto somos aliciados a crer que o problema está em alguém que não seja nós mesmos, que a atual soberania do Homem sobre a natureza não tem nos levado à morte iminente e apenas a alguns problemas no tempo, que tudo pode ser reduzido a dinheiro e os valores facultativos de acordo com as vantagens.
  O que eu quero? Ser a luz e não as trevas.