Little Graves

Hundreds of little graves
that tell me nothing;
Thousands of little stars
that mean nothing to me;
Millions of little words
that got lost over time;
Billions of little people
that will never touch.

Hundreds of little stars
that tell me nothing;
Thousands of little words
that mean nothing to me;
Millions of little people
that got lost over time;
Billions of little graves
that will never touch.

Hundreds of little nothings
that tell me stories;
Thousands of little meanings
that get me lost;
Millions of little times
that go unnoticed;
Billions of little touches
that leave me speechless.

And so you watch me from afar
being human, being nothing,
being there.

 

Como eu me lembro

Ele dançava rodeado de pessoas. Ainda que fosse dança, não parecia dança, muito mais um ritual. Era desse jeito: os sapatos bem engraxados movendo-se em alta velocidade, aos meus olhos saltava apenas o brilho do lustre em meias-luas contra o chão. As meias pretas perdiam-se nas calças da mesma cor ou na escuridão. O terno parecia largo nos ombros e na boca da calça, mas o movimento dos braços cruzando a gravata negra e a camisa branca como cordas agitadas e as mãos gesticulando ao cruzar rapidamente um lado ao outro do corpo em ações bem alternadas e destemidas faziam você esquecer do que mesmo estava pensando antes de notar isso tudo. Um quadro que em palavras não deve fazer sentido. Os giros calculados culminando em um encontro medido de calcanhares, os joelhos proeminentes e no segundo seguinte invisíveis no negro-calça. A boca tensa em profunda concentração. E o olhar. Um rosto bonito – carregava em seus passos aparentemente simples um reconhecimento de vocação. Uma aptidão para a arte. A respiração de corrida em meio a própria corrida em que não se sai do lugar e apenas dança-se com a sola do sapato metálico açoitando o chão, fazendo o Charleston. O entendimento das angústias cotidianas no momento em que sai a bateria agitada e o piano fica agudo, lento e climático. O dançarino para de sapatear para abraçar a si mesmo em posições diversas, variando com a cadência da música. Variando os braços em abraços como laços. Os braços negros percorrem o corpo como se fizesse pose para diversas fotos com apenas os dedos deslizando sobre o tecido no interlúdio dos flashes do piano, desabando como um seixo atirado contra o rio que percorre sua superfície saltando como um deus. O terno está empapado de suor e a música recupera o ritmo, o dançarino me olha neste ponto e diz sem dizer que sabe tudo aquilo que eu estou sofrendo e que eu vou sofrer o resto da minha vida, em pulos curtos para trás e com as mãos estalando os dedos ele bate com força as solas no chão, gira nos calcanhares e pula alto. Vejo o reflexo da luz nos sapatos engraxados se afastando um do outro. Abre as pernas no ar e as fecha antes de chegar ao piso. Seu último passo não diminui a animação junto com a nova desistência da bateria, é sincronizado com as últimas notas do piano que insistem em não deixar a música acabar. Ele abraça o mundo com as pernas sem arrastar-se. O rosto termina virado para baixo, num olhar triste porém satisfeito. Eu danço, eu posso dançar, eu sou um dançarino. Em palavras isso não deve fazer sentido, quando no calor daquele dia, eu não encontrei nenhuma forma de reagir àquilo. Só fechei os olhos e tentei guardar cada pulo, cada sapato, cada som, cada gota de suor numa reconstrução cerebral em câmera lenta de tudo que aconteceu.