Recado dentro do livro

Ah marinheiro!
Como eu queria poder ter seguido viagem contigo.
Não fossem as tarefas que a hierarquia me trouxe,
Teria abandonado timão, âncoras, o barco todo
para viver contigo essa aventura de amanheceres tão distintos
E sempre desconhecidos

Seria de certo, novidade todo dia!
Como voltar a ser maruja,
quando a ansiedade do novo superava o medo do desconhecido,
quando tudo isso não era óbvio.
E ao cair da tarde, a noite chegaria
como um abraço silencioso.

/
/
/
/
/
/
/
/
//
/

Anúncios

Dois minutinhos

2:00

Ando.
Ando por uma trilha macia.
Isto é um olho, um par de olhos?
Uma testa, um nariz, uma orelha.

Ando sem pressa,
entre colinas e depressões.
Não tenho como me perder,
porque não tenho uma direção certa.
Ainda assim me perco,
e assim me acho.

Um joelho, três dedos do pé,
a mão esquerda, um ombro.
Ando despreocupado,
aprendo o caminho do arrepio:
é um trem-bala que parte do pescoço.
Continuo andando sem rumo,
chegando apenas no desconhecido,
apenas onde desejo chegar.
Sem medo.

1:00

Os carros não se alimentam de ruas calmas.
Um carro por qualquer motivo corre na rua,
o que faz com que os outros carros,
por outros motivos, correrem na rua também,
e é uma teia de carros que se amontoa,
e logo nenhum carro corre mais.

Entre os bocejos das pessoas
dentro dos carros e ônibus,
nasce lenta e preguiçosamente
algo que se enraíza com tranquilidade
sobre algumas intranquilidades
e outros sonos que não foram embora.

A manhã vai estalando os ossos
dos dedos, do pescoço e das costas,
erguendo-se com reminiscências e esperanças.

0:00

Tento me isolar de mim
no seu colo
certo de que assim
me protejo
do que já é peso
e não se dá pra explicar.

Me refugio do mundo
nos seus seios,
deixo um pouco
do sal do meu silêncio
junto das suas águas
tão doces.

No seu enigma,
nos seus braços,
nos seus lábios,
descubro
mais uma vez
aquilo que
eu vou sempre desconhecer.

Longevidade

A inteligência de quem nunca li
e os filmes que nunca vi não me assustam.
O lixo gritante entope os tubos e conexões (t.)
até que reste apenas o cérebro cansado,
cheio de propaganda e o que nem importa,
a prova que passou e nada provou.

Um abraço
para quem não veio,
um abraço para quem nem nunca virá.
Quando eu não soube te explicar,
eu soube que o abraço que importa
não sai da boca.

Após mais um fim, vou direto ao meio
porque se eu quero cantar,
não há língua que me impeça
ou letra que me limite
só preciso da voz –
da voz e nada mais.

como a vida como um furacão como a vida


três lustros não são um furacão
quando por motivo de sinuosidade
no percurso do tempo ocorre um acidente terrível
e perde-se os desprazeres da mocidade,
as decisões erradas,
a distorção temporal entre júbilo e
espelho, espinha, espera, esperança.

fora isso, você está no olho do furacão, meu amigo.
nos olhos da onda furiosa
que te ilumina um corredor escuro
e te traz de volta do futuro
com o sabor do cafézinho de sexta passada.

com mãos grandes
e ideias reduzidas a vento,
basta rodopiar e rodopiar,
de volta a vida como um furacão
como é vida de um passo atrás:
como se você tivesse aprendido.
como se você não se deliciasse
com os desprazeres e a
melancolia da vida igualmente
como se tivesse três lustros vivido.

abrace o desgoverno, amigo.