ave

uma ave de rapina carrega m
eu coração: ninguém
me ensinou a esquecer. chut
ando pedras pela cidade vaz
ia como se fosse um milagre fic
ar sem causar problemas. faz
endo planos, o presente é pas
sado num piscar de olhos, o te
mpo inteiro. mas uma hora é se
mpre uma hora. daqui a 10 anos,
apenas 10 anos terão passado. o
carrossel gira e sempre está lá n
o mesmo lugar. entre suas garras,
uma ave de rapina ainda car
rega meu coração
e,
desse jeito,
eu viajo o mundo.

inconstante

as fotografias são leves
o vento as sopra para fora da janela
no frio do inverno que parou no tempo.
o tempo, embora cada dia mais velho,
mantém seu ritmo calmo e violento.
as ondas na praia são certeza
da lua irresoluta.

    tornei-me aquela memória
    indigna de confiança
    que sempre me supus.
    a luz azul está desaparecendo
    aos poucos, ao longe.
    o barulho continua me perseguindo –
    eu tentei ser tudo e não fui nada
    além de um vestígio,
    uma pedra no caminho.

entendendo devagar que
não existe daqui a um ano
nem daqui a dez anos –
meu pra sempre durante
um átomo de tempo.
e já todos perderam a confiança em mim
além de mim mesmo.
não quero cantar o dia nublado
ainda que prefira isto
a reclamar do sol e da chuva.

    você já é muito diferente
    do que eu possa lembrar.
    meu coração aberto rachou-se
    agora estou afogado no fundo do oceano.
    em algum lugar da superfície
    ainda permanece a luz azul
    como um farol de esperança,
    há um lugar para abarcar
    e respirar em segurança,
    vivo.

O jogo dos sete erros

O telefone tocou

(primeiro erro:
um palhaço chorando em público

segundo erro:
ter que lembrar de dar atenção à brisa

terceiro erro:
as traduções soon to be misleading

quarto erro:
as idéias soon to be mistakes

quinto erro:
tinta vermelha na consciência branca

sexto erro:
no vazio, uma breve euforia
seguida pela asfixia)

foi engano.
 

O coração do labirinto

Havia apenas uma vela no meio da mesa, uma simples vela já nos seus últimos momentos. Também a brasa do cigarro acendia do meio da escuridão. A garota tentou fazer aros de fumaça. Tentou ignorar o que ele a dissera há pouco. O silêncio negro pairou no ar por algum tempo. Ela levantou e apagou o cigarro no cinzeiro com raiva. Um sopro dela e aquela cozinha ficou escondida do mundo e do resto do mundo; todas as direções pareciam ser uma só: davam no corpo do minotauro, no coração do labirinto. O silêncio da falta de luz era o único caminho a ser trilhado, antes fora uma estrada de chão espaçosa, agora tornara-se um piso asfaltado, estreito e quente em que era impossível andar lado a lado ou deitar-se para uma soneca.
   A voz tremeu, o escuro berrou, a noite gelou — e agora, José? e agora, nós dois?