de espuma e sal

Minha vida sou eu

Ando nas nuvens
Danço com árvores
Caio no chão

Sigo adiante
O próximo encanto
Serena sou eu
Serei
-a.

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Lua

ao nosso destino
dançou até chegarmos
do amor
da lua
pairou sob a luz
voou mais um rodopio
ela forçou mais um salto
como se o cansaço não existisse
passo após passo
para acompanhar aquela dançarina
bonita o suficiente
nenhuma música seria
dançou
mexeu o corpo
jogou as pernas
e como se tocasse música
ela levantou
de músculos exaustos mas determinados
um beijo
no silêncio confortável
observamos o vazio
lado a lado do lado de fora
ficamos assim de um jeito qualquer
a lua cheia como holofote natural
esmigalharam-se um punhado de minutos nisso
os corpos esmagados de viagem
quase meia-noite
mais um tempo e paramos num ponto elevado
passamos o rio das almas
as sombras engolindo as lâmpadas
à procura do nosso hotel
entramos devagar pelas ruas
quatro rodas contra o chão de terra
confiando nas palavras do velhinho à beira da estrada
nós seguimos toda a vida
 

Teoria do inconspícuo diário

Tateio no escuro; toco o branco com o nariz.
Nos encontramos numa derrota contra a gravidade.
Meus dedos não diferem um vestido, um sonho, um oceano.
Passa um riacho no peito; vejo sombras de olhos fechados,
a dança começa—

Pique esconde; sorriso na inquietude inadmitida.
Gira gira; gira só o coração desacompanhado.
Pressiona o meu peso contra o seu peso,
os meus cortes contra os seus hematomas;
sem careta sem pisão no pé, gira gira!

Pique pega: pique pega sem toque: pique pega psíquico;
o caos faz pipoca, o vento sopra e varre tudo.
Um buraco negro nos dá o mesmo destino.
Estamos aprendendo, o quê, estamos aprendendo, sim.
Somos o meu queixo na sua testa.

Falo sério mas soa como piada, uma risada.
Compassos desencontrados em leveza desavisada.
A coda e a falta de jeito constroem um desespero leve
até parar de girar, para, gira, para aos poucos.
Aplausos imaginários como um sol que nasce.

Embora estejamos prontos para um repertório inteiro,
passou da meia-noite e eu já me sinto uma abóbora.

O milagre esquecido

A chave estava atrás do vazinho de planta. Um quarto novo e vazio espera por ela, esse aqui continua aqui. É estreito, tem uma sala e um chão de tábua corrida. Poeira em todos os lugares. Eu ando um pouco pra ver a cortina meio fechada e um raio de poeiras em frente ao sofá branco encardido. Isso e isso e aquilo não são importantes. Passo pelo banheiro e chego numa porta amarela com um porta retrato de margarida vazio no meio.
  Olho para as coisas. Isto é um beliche. E o tapete. Penteadeira, espelhos – um pedacinho de espelho cortado num canto. Tudo tem gosto de ausência.
  Eu sento num banquinho acolchoado sem saber o que estou procurando por ali. Um sonho rasgado vale tanto quanto um soutien esquecido por lá. O celular toca. Achei que você nunca fosse retornar. “É, eu também, por isso que demorei a ligar.” Abro as gavetas da penteadeira. Tem maquiagem velha. Cadernos com listas de compras. Sem datas, sem tempo. “Então, o que você quer nas ruínas de um império falido?” Nada. Ou não sei, por enquanto é a mesma coisa. Como tudo bem e normal. “Sabia que tem pessoas num prédio como a gente, metade delas devaneando sobre o passado, metade devaneando sobre o futuro, todas elas ansiando por alguma coisa.” Eu sou a exceção, calmo.
  Ando mais um pouco e abro o armário da parede para encontrar apenas cabides de madeira e apenas um vestido rosa claro. Como você conhece tão bem as pessoas e sabe o que elas estão pensando? “Não é tão difícil, é complicado para uma só perceber que é todo mundo nutrindo uma solidão imbecil. Fica fácil quando você entende a guerra pessoal de um grupo, um grupo contém um pedaço do resto das pessoas.” Eu não sei se entendi. “Bem, você tem que aprender, é violento demais.” Passo a mão no vestido, ele tem fiapinhos e poeira. Não é de criança, embora seja infantil para o seu comprimento. É cafona.
  Por que você deixou só um vestido? “Eu achava ele cafona.” Eu gosto de cafona. “Eu achava que ele me faria sentir vergonha, mas agora o que passa por mim é o oposto, não sobrou nada, como eu sinto falta desse vestido.” Abro mais gavetas, um sabonete velho, um papel com estampas de ursinhos. Uma caixinha de metal com roupas rasgadas ou em pedaços, roupas pequenas, essas sim de criança. Sabe, tem uma caixa aqui cheia de roupas rasgadas. “Foi um rito de passagem, elas estavam um trapo e mal cabiam em mim, para simbolizar minha adolescência rasguei tudo. Um erro, talvez.” Tem uma coisa que realmente chama minha atenção, essas roupas jamais poderiam ser taxadas de gay, sabe. São roupas em branco, sem esse tipo de atribuição. “É, podiam durar mais tempo e podiam estar em melhor estado.”
  No compartimento de cima do armário tem livros, mas estão fora do meu alcance. Olho para o banco e decido que ele não vai me aguentar. Vou procurar algo para me levantar. Ando até a cozinha e ninguém fala nada até eu chegar lá. Se você fosse gay, você contaria pra todo mundo? “Claro, qual é a graça de ser gay apenas no papel.” É, eu concordo. O silêncio voltou e eu achei uma meia-escada. Apesar disso, nós nos isolamos, por quê.
  O que tem tão alto no seu armário? “Ah.” Alguns segundinhos definindo as palavras. “É um presente pra você.” E por que eu mereço um presente? “Por ser quem você é, eu sempre quis dar um presente para algumas pessoas por elas serem quem são, mas é difícil e eu nem sei porque é tão difícil.” Tem cinco livros encostados e depois um monte de cadernos. Os livros são Machado, José de Alencar, José Lins do Rego, Danielle Steel e Harold Robbins. O meu presente são os cadernos? “Pega só o vermelho, os outros combinam mais com um armário esquecido.”
  Pego, sento no banquinho e abro sobre o meu colo o todo empoeirado caderno de capa vermelha. Também não tem datas. Mas contas de matemática, coisas de ciências, alguns deveres de língua portuguesa, provavelmente outras disciplinas. “Procura lá pro final, meu presente está lá pro final. Você vai perceber.” Folheio rapidamente e muita poeira escapa. Tusso. Tem um desenho bem óbvio e ainda assim há uma legenda: Jesus Cristo. Ele parece feliz, não é perfeito, ao mesmo tempo que não é nada mal. E depois, um texto. Achei. “É, eu não lembro quantos anos eu tinha, mas sempre pensava, nessa época, que quem pôs a gente na terra e criou a natureza devia aprender mais com as suas próprias criações.” Como assim? “Como ele só põe a gente e não fala nada. A graça de descobrir as coisas sozinhos, é isso? Mas porque tem que ser sempre sozinhos. Nossos bebês não fazem nada sozinhos e eu sinto que nós somos os bebês de quem criou o mundo.” Ele devia se manifestar mais diretamente. “Pelo menos.”
  Li o título em voz alta — O milagre perdido. Depois, li o texto pra mim mesmo. Contava como Jesus fora absolvido pelos judeus, começou a dançar e todos cantaram e dançaram juntos a mesma canção. Você reescreveu a morte de Jesus? “Mais ou menos. Na minha versão, ele não morre, não revive, não vira lenda.” Mas ele canta. “E dança, a parte da dança é mais importante. O milagre perdido é a habilidade de todos perto dele saberem a coreografia sem nem ensaiar.” Eu rio e não ouço um eco, porém imagino um eco, cheio de poeira, como um raio de sol.
  Você é a criatividade em pessoa. “Nem tanto.” Estava insatisfeita com a versão bíblica? “Não, é o que eu disse. Tem outros prédios como esse em que você está, tem outras bilhões de pessoas no mundo, eu só achava que podia ter mais que uma história só.”
  Fecho o caderno. Olho tudo. Me olho no espelho. Você escrevia muito? “Não, preferia desenhar, era mais preciso. Dava no mesmo. Na verdade, eu gostava mesmo era de dançar.” Fico na janela por um tempo. Nem vejo a vista, só estou na janela, eu e a brisa. “As pessoas sempre se impressionaram facilmente com meus talentos.” Essa parte do discurso eu já conhecia: esses inúmeros talentos faziam com que ela se sentisse livre, livre para dominar o mundo. Ela tinha dito essas coisas na primeira vez em que a gente conversou direito. E a minha cabeça é uma caixinha que não esquece. Você ainda é livre? Ela não respondeu direto.
  Fui em direção a porta sem pressa. Saí. Botei a chave de volta atrás do vazinho de planta para algum aventureiro do tempo. Ou para um corretor. Olhei a porta e a falta de tapete em frente a ela. Senti de novo o gosto da ausência diante da porta fechada. Era um sabor próximo a poeira, que beirava mais para o coração vazio e pesado. “Sabe, eu não sei. Eu tinha isso bem definido na minha cabeça, mas hoje, eu não sei. Eu não consigo fazer e não tenho explicação para não conseguir fazer essas coisas. Eu me tornei uma ‘artista’ e eu fiquei conhecida, o que isso me trouxe, nesse momento, é uma distância que parece irreal entre eu e o meu vestido cafona, ou minha penteadeira guerreira. A liberdade me acompanha, eu acho, só que agora ela está tímida e longe da superfície.”
  Eu senti que aquela era a solidão falando mais alto. Nunca disse isso a ela. Eu não consigo parar de pensar no meu presente, no seu Jesus Cristo feliz. Sabe o que eu mais gostei da sua reencenação cristã? “A inocência?” Não, a mensagem. “Qual?”
  Foda-se a bíblia, foda-se a arte, foda-se tudo, vamos dançar.

Como eu me lembro

Ele dançava rodeado de pessoas. Ainda que fosse dança, não parecia dança, muito mais um ritual. Era desse jeito: os sapatos bem engraxados movendo-se em alta velocidade, aos meus olhos saltava apenas o brilho do lustre em meias-luas contra o chão. As meias pretas perdiam-se nas calças da mesma cor ou na escuridão. O terno parecia largo nos ombros e na boca da calça, mas o movimento dos braços cruzando a gravata negra e a camisa branca como cordas agitadas e as mãos gesticulando ao cruzar rapidamente um lado ao outro do corpo em ações bem alternadas e destemidas faziam você esquecer do que mesmo estava pensando antes de notar isso tudo. Um quadro que em palavras não deve fazer sentido. Os giros calculados culminando em um encontro medido de calcanhares, os joelhos proeminentes e no segundo seguinte invisíveis no negro-calça. A boca tensa em profunda concentração. E o olhar. Um rosto bonito – carregava em seus passos aparentemente simples um reconhecimento de vocação. Uma aptidão para a arte. A respiração de corrida em meio a própria corrida em que não se sai do lugar e apenas dança-se com a sola do sapato metálico açoitando o chão, fazendo o Charleston. O entendimento das angústias cotidianas no momento em que sai a bateria agitada e o piano fica agudo, lento e climático. O dançarino para de sapatear para abraçar a si mesmo em posições diversas, variando com a cadência da música. Variando os braços em abraços como laços. Os braços negros percorrem o corpo como se fizesse pose para diversas fotos com apenas os dedos deslizando sobre o tecido no interlúdio dos flashes do piano, desabando como um seixo atirado contra o rio que percorre sua superfície saltando como um deus. O terno está empapado de suor e a música recupera o ritmo, o dançarino me olha neste ponto e diz sem dizer que sabe tudo aquilo que eu estou sofrendo e que eu vou sofrer o resto da minha vida, em pulos curtos para trás e com as mãos estalando os dedos ele bate com força as solas no chão, gira nos calcanhares e pula alto. Vejo o reflexo da luz nos sapatos engraxados se afastando um do outro. Abre as pernas no ar e as fecha antes de chegar ao piso. Seu último passo não diminui a animação junto com a nova desistência da bateria, é sincronizado com as últimas notas do piano que insistem em não deixar a música acabar. Ele abraça o mundo com as pernas sem arrastar-se. O rosto termina virado para baixo, num olhar triste porém satisfeito. Eu danço, eu posso dançar, eu sou um dançarino. Em palavras isso não deve fazer sentido, quando no calor daquele dia, eu não encontrei nenhuma forma de reagir àquilo. Só fechei os olhos e tentei guardar cada pulo, cada sapato, cada som, cada gota de suor numa reconstrução cerebral em câmera lenta de tudo que aconteceu.