Encruzilhada

Encruzilhada

Ele já caminhava por quase um dia agora. Passo após passo, sentia a fadiga, apesar da relativa juventude. Finalmente chegava à encruzilhada, naquela estrada quente, cujos carros pareciam não tomar conhecimento de sua presença e o faziam comer poeira, apesar do sinal de pedido de carona que ele fazia com a mão direita. Enquanto isso com a esquerda segurava uma caixa marrom com seus pertences dentro. Observou como as duas estradas, longas e infinitas, se cortavam tão abruptamente e pareciam estar mortas assim como Romeu e Julieta, uma sobre a outra, completamente sem vida, mas carregando quantidades exorbitantes de sentimento. “Um bom lugar para se conseguir uma carona”.

Dizia isso a si mesmo desde que partira a pé de sua última cidade.

A parte inferior de sua calça já havia perdido sua cor original – azul marinho – e já estava da cor da terra em que pisava, na beira da estrada. Era uma areia de cor clara, que dava ao cenário um aspecto árido quando somado ao calor que fazia. O suor escorria por suas têmporas e, de tempo em tempo, passava o pulso pela testa para se limpar de alguma gota que aparecia na frente de seu olho, caindo pela sobrancelha. A boca da manga comprida de sua jaqueta estava encharcada, suas mãos também. Mesmo com a elevada temperatura, o músico não ousava tirar a camisa ou a jaqueta, havia passado a noite em claro andando e à noite sua roupa não era suficiente para combater o frio.

Estava extenuado com a caminhada, e ao se posicionar na lateral da encruzilhada, o melhor ponto possível para conseguir uma carona, parou repousando seu corpo e mente. O peso que carregava consigo, do cansaço nas pernas e da consciência na cabeça, se materializou deixando-o de joelhos, segundos após ele colocar suavemente sua maleta no chão. Utilizando o pouco de força que lhe restava, juntou as mãos em frente ao peito, fechou os olhos e rezou rapidamente. Lembrava-se sempre da figura do Padre de sua igrejinha, que freqüentava quando criança. Aquele homem havia mudado sua vida e talvez fosse por ele mesmo que rezava – para dar continuidade à sua vida, seguir em frente. Pedia piedade a Deus, pedia que Ele o ajudasse se pudesse, pois não tinha mais o que fazer e seria muito difícil que conseguisse uma carona.

Na verdade, quase impossível, ele pensava. No norte, onde estava, as pessoas eram na sua grande maioria brancas e guardavam o racismo exposto em suas ações, sem sequer envergonharem do fato, talvez achassem natural desprezar a raça negra. Não se importava, sabia que teria lutar contra isto para alcançar o sucesso tanto almejado. Fazer música no sul dos Estados Unidos, onde nasceu, era difícil, o sonho dele era ser famoso no norte, em que se encontrava a fama e o dinheiro.

“Amém”. Terminou suas preces, relaxou os joelhos, ajeitou seu corpo e sentou no chão, ainda à beira das estradas, pedindo carona. Nessas horas agradecia por não ter cabelo, apenas uma penugem rala que se misturava com o couro cabeludo. O suor descia pelo canto do seu nariz, até finalizar a jornada em sua boca, sua grande boca, fazendo-o sentir o gosto salgado do esforço. Aguçando o paladar, pensava em sua boca. Ela se destacava, era um pouco maior que o de uma pessoa qualquer. Sua mãe lhe dizia que quando crescesse seria um beijoqueiro, ela dizia muita coisa e o levava à igreja.

Quando pequeno morava com seus pais, era pouco inteligente. Mas era feliz, vivia uma vida modesta. Sua mãe dizia que o filho seria beijoqueiro, porque tinha a boca grande. Seu pai era carpinteiro e estava sempre desempregado. As coisas só começaram a mudar quando a igreja atuou sobre a sina deles. A mãe desperdiçava o pouco do dinheiro que tinha na capela, o padre era o melhor amigo de muita gente – inclusive dela, sua intenção era dar um futuro ao seu filho. E, por incrível que pareça, conseguiu, lá mesmo na igreja. Seu filho aprendeu a tocar piano, e parecia ter um dom natural para a musica. Rapidamente a mãe não queria mais um filho beijoqueiro, mas sim padre, para que difundisse a palavra de Deus.

Na medida em que o tempo passava, o pequeno menino que tocava piano se tornou um apaixonado por música. Seus talentos eram muito bem explorados pelo padre, homem que realmente parecia ser equânime diante de seus olhos. Mesmo assim, ainda se saía mal no colégio. Sua mãe não entendia como isso era possível, acreditava que ele era tão esperto. Mas ele sabia, a principio sua ausência de interesse nos estudos era por causa da música, ficava em casa praticando com um piano invisível o que o padre lhe ensinava na igreja.

O seu pai certa noite chegou bêbado em casa, e o viu assoviando uma música, era uma música gospel. Sentado na beira da estrada, lembrava-se bem daquele dia e exatamente o que seu pai havia dito e feito. Pôs a caixa sobre seu colo, olhou-a bem, mesmo com terra na calça.. Tocava agora, com os dedos no ar – sobre a caixa – a mesma musica que praticava naquele inesquecível dia. “Pare de assoviar esta merda!”, gritou seu pai cuspindo um pouco, já naquela época odiava o próprio pai. “Hoje, você vai conhecer música de verdade!” e então o tomou pelo braço, tirando-o de casa.

Ainda na mesma música, lembrava-se da dor que sentira, por resistir ao máximo. As lágrimas infantis se mesclavam com os gritos e isso tudo era como um liquidificador barulhento ecoando em sua cabeça. Forçado pelo pai, chegou a um local de aparência estranha, vulgar e suja, ainda desconhecido para ele naquele tempo. Parou de chorar. O ser odiado que o segurava pelo braço acenou para um homem na porta, eles trocaram algumas palavras, e enfim pai e filho entraram lá. Nesse momento, o músico parou de tocar o seu piano invisível à beira da estrada, via mais uma possível carona passar a sua frente sem ligar para sua existência, mas naquele instante a nostalgia havia tomado sua mente e pensava somente no cabaré em que entrara naquela noite.

Chamava-se “Bitches Brew”. Logo ao entrar, viu alguns sujeitos estranhos, rapazes recém-chegados à maioridade e homens com o triplo de suas idades talvez. Mais adiante no saguão principal, viu um palco ainda vazio no outro lado do cômodo. Olhou a sua volta, para registrar com seus olhos tudo que havia entre o palco vazio e ele. Logo percebia porque seu pai ia lá, apesar de não entender ainda o motivo de tê-lo trazido.

Ele ia pelas mulheres, havia várias com pouca roupa, em toda parte. Muitas delas trocavam palavras com o futuro músico ao passar, dizendo ois e olás, ao chamá-lo de “garotinho”. Então percebeu que sentia um certo prazer ao ver aquelas damas, e ao mesmo tempo reconheceu aquele lugar. Era o que o padre lhe descrevia como “Casa do Demônio”.

Acordou para o calor à sua volta, deixando a noite fria de suas lembranças de lado por um momento, o rapaz de boca grande agora começava a tocar uma outra música com seus dedos no ar, esta conhecida e com um estilo completamente diferente da outra que tocara. Tinha mais sentimento, ele sabia, e definitivamente não era estilo gospel. A música tinha muito mais poder e as notas eram diferentes. Novamente um carro passava em alta velocidade, era incrível como os novos carros estavam rápidos, desde o ano anterior, 1950. Com o veloz automóvel foi a atenção dele, de volta aos seus dedos que criavam o som na sua mente, mesmo sem fazer som no mundo real, e de volta ao seu devaneio.

O principal motivo da sua lembrança tão forte daquele dia foi o que viu e ouviu depois de seus olhos começarem a se acostumar com o novo mundo com que tinha contato. Depois de absorver toda aquela nova informação, seu pai lhe disse “Agora você vai ver o que é musica de verdade!”. Um homem subiu no palco e falou as seguintes palavras “Que o show comece!” e dentro de si mesmo o pequeno garoto sabia que algo grande estava para começar.

Mas ele não esperava que o “show” mudasse sua vida, ou pelo menos que não mudasse tanto. O homem tinha o tom de cor de sua pele, e um bigode não muito fino. Ele se sentou em frente ao piano. Os outros músicos da banda apareceram em seguida. Pessoas estranhas, com cara de indiferente ou de alegre, empunhavam tambor, saxofone e baixo. Os dedos do preto de bigode deslizaram virtuosamente por seu instrumento. Grande parte das pessoas lá, sentou-se em volta de pequenas mesas juntas ao palco. Ainda havia muitos que sequer prestavam atenção e o caos continuava acontecendo, porém agora com uma bela trilha sonora.

Os olhos do garoto focalizam os dedos do pianista sobre o palco, o modo como ele dedilhava a canção era novo, era melhor do que as músicas que o Padre lhe ensinava, tinha mais sentimento, pôde sentir desde as primeiras notas até as últimas, a canção era mais realistica – mostrava sentimento tanto no jeito de tocar, quanto no jeito de ouvir. Agora, ele sabia que aquele músico tocava as teclas como se estivesse encostando e sentindo o corpo de uma mulher. Na época, ele era imaturo o suficiente para não entender essa explicação que seu pai lhe dera para a perfeição da música.

A noite continuou e o menino encantado queria fazer um som como aquele. Ele lembrava muito bem o último dialogo que tivera com seu pai. “Que música é essa?”, seu velho lhe respondera sem pestanejar, com um sorriso que era um misto de sábio e bobo na cara “Isso é Jazz.”. E novamente um carro lhe banhava de poeira na rua, no momento em que sua canção lembrada e batucada em sua caixa terminava. A boca desejava por água e o corpo já não tinha o que suar. O sol já ia de encontro com a linha do horizonte – não faltava uma hora para que isso acontecesse.

Como voltou para casa, não demorou muito e aprendeu o que era o Jazz. Nessa mesma jornada, aprendera o que era sexo e também saíra da igreja. Alguns anos depois, tocava piano em uma banda – já fora de sua cidade natal. Não se despediu da sua mãe, muito menos de seu pai. Não se arrependeu disso, somente percebia agora que devia ter falado com o padre. Talvez se houvesse feito isso, estaria vivendo um momento mais agradável agora. Sem estudos não chegou muito longe, o padre nunca permitiria que ele ficasse fora do colégio.

Em bandas de improviso, ele tocou pelo sul. Mas as coisas estavam difíceis, desde o ano em que ele nascera. Nunca a busca por dinheiro foi tão louca, tão evidente. Numa carona ele chegou ao norte, na cidade em que estivera. Numa briga com sua garota, ele andou até se perder na estrada. Sentado na areia clara, o pianista se sentia péssimo.

Estava se equilibrando na fina linha da vida, que por sua vez estava prestes a arrebentar. Sem rumo, sem lar, só podia esperar por uma carona que o levasse para onde fosse. Mas era impossível, era tarde demais.

O sol não tardaria a descer e os carros não passariam mais por ali. Ademais, seus sentidos começavam a se confundir. A linha interminável por onde passavam os carros começava a se tornar pequenas pedrinhas e com seus dedos no chão podia sentir o gosto e o cheiro de areia. Uma pedrinha preta deslocou-se rapidamente do infinito e foi gradativamente ganhando dimensões maiores até parar na sua frente.

“Vai pra onde?”, ele ouviu. Mal conseguia distinguir o que era aquilo. “Qualquer lugar” saiu de sua boca um som que, mesmo não tendo chegado aos seus próprios ouvidos, fez o motorista abrir a porta e dizer “Pode subir”. Cambaleante, o pianista agradeceu e tentou se recompor sentado no banco ao lado daquele homem negro, robusto e barbudo. Era um caminhão de pequeno porte, bem antigo.

Ele conseguiu se hidratar novamente e recuperar os sentidos. E sair dali. Entretanto, continuava na encruzilhada que era a sua vida, sem saber que rumo tomaria. Em conflito constante entre seus impulsos e sua capacidade de se arrepender. Talvez nunca fosse sair de lá, e assim continuaria a vagar com a incerteza e o pensamento nostálgico. Mas também era possível que uma carona improvável lhe tirasse de lá, do mesmo jeito que lhe aconteceu – assim encontraria seu lugar nesse mundo de infinitos, fosse por amor, por música, por amor à música ou por todos esses.

[J.D. Crespo – 29/05/08]

Nathália?

  E as pessoas foram embora aos poucos. Teve filme, teve foto, teve lágrimas. Teve a banda de novo (era fraca, o vocalista tinha um bigode de porteiro e voz de Papagaio). Uma tia se empolgou e começou a girar o sutiã no ar numa música do RPM. Eles tocaram todas aquelas músicas. I wanna hold your hand, great balls of fire, twist, tutti-frutti, dancing queen e por aí vai. No final, sobramos nós, sentados no chão, suados, com roupas frouxas. Uma pequena chama na escuridão e eu ofereço.
  Quer um cigarro?
  Ela aceita. As últimas pessoas começam a se despedir.
  Como vão seus comerciais? A pergunta me atinge de surpresa.
  Fiz um que você iria gostar.
  Nas moléculas da fumaça entre nós, aquele cara imberbe segura a morena magricela. O lençol da cama é azul e está no chão. Os gemidos dela, o barulho da cama e o homem faz uma careta. E eles param de se mexer.
  Que foi?
  Nada, é assim “tu-duh tu-duh tu-duh é titânio, é Zanic! Tããã Melhor do que ferro, alumínio, aço. Tu-duh tu-duh tu-duh Mais forte que o Titanic!”.
  Ainda não vi esse.
  Deve ter ido ao ar hoje, ou ontem.
  Um sopro cinza recria o sorriso do rapaz pelado, e o rosto espantado da menina. Que foi? Nada, acabei de pensar num jingle. Canta pra mim. Ele pega a guitarra e toca algo que parece um gemido e depois fala “é pra um comercial de camisinha” e ela ri.
  Mas as brasas caem no chão e eu lembro que não consegui achar as palavras corretas naquele dia, que poderia ter sido tão importante.
  Tô com a cabeça em outro lugar, tô pensando em algumas coisas…
  Ela olhou pra mim e perguntou como ia a vida em São Paulo.
  Eu prefiro o Rio, lá onde eu to morando tem engarrafamento demais.
  Me sinto, de fato, numa garrafa. E estão despejando vinho em mim, já está na altura da minha cintura.
  Ela disse que eu estava um pouco alto. Concordei com a cabeça e acrescentei: bebida de graça, graça. A maior graça dos casamentos.
  Quem diria né, que Poly & Luiz chegariam a se casar, quanta sorte, né?
  Eu respondi que não se tratava de azar, mas sim de convicções. Slogans. Você olha para a sua namorada e vem a sua cabeça: viva uma vida confortável ao lado da sua mulher. Casamento é a palavra chave. Seus amigos vão te achar um máximo e a sua mulher será super feliz! Quer ficar pra sempre com aquela que abala o seu coração? Case-se já!… Sabe, esse tipo de coisa que as pessoas idealizam. Entenda melhor. Qual é a filmografia da sua vida? Se você gosta de filmes com gente casando, você casa. Você é propriedade da sua mulher.
  Deixa de ser machista, homem!
  Eu, machista? Só to dizendo que não se trata de sorte.
  Ela discordou de novo e explicou: Tem países em que as pessoas são casadas no nascimento, sabia?
  Besteira, eles não tem solteironas de 30 anos lá. Você terá azar se nascer, ao invés de gente, porco. Eles não têm capacidade física de olhar para o céu. Imagine viver sem esses pontinhos luminosos.
  Ela sorriu com a cabeça virada para o chão.
  E aqui no Rio, como está tudo? Eu devolvi a pergunta dela.
  Tá tudo direitinho, no lugar. Acho que a maré está pra virar, as coisas vão melhorar agora, eu sinto.
  Você sente? Seria minha presença?
  Deixa de ser bobo.
  Caviar, meu bem,…
  Não me chama de Caviar.
  Eu sou um prêmio e você é um achado! Não existem mais mulheres boas como você por aí… Nathália.
  Desde quando Antônio, o homem que mais preza por liberdade no mundo, está interessado em compromisso?
  Eu joguei o cigarro fora, uma rajada de vento levantou minha franja, e na escuridão do fim de festa eu respondi: você sabe.
  Algumas pessoas passaram e se despediram de nós dois. Abraços e sorrisos e atés. O silêncio se instalou. A banda já havia tirado todo o equipamento. Eu falei que ela tinha engordado.
  Nathália riu e respondeu Você não aprende mesmo né? Só se deve comentar se for alguma coisa boa!
  Balançando a cabeça, eu repliquei Não, eu digo as coisas quando é verdade.
  E aquele era o momento perfeito, eu busquei as palavras. Mas quando o cara de bigode de porteiro e voz de papagaio pôs a mão no ombro dela eu me dei conta que eu nunca soube aquelas palavras. Ela o beijou e se despediu de mim. Eu fiquei quieto e acenei. Não sei como estava o meu rosto no momento, acho que meus olhos brilhavam na escuridão. Uma fina película aquática. Os recém-casados não tinham ido embora – iam viajar em lua de mel no dia seguinte, a tarde. Luiz veio falar comigo.
  Tudo bem, cara?
  Acho que sim, eu respondi.
  Abaixei o tom de voz e perguntei se ele gostava do filme 4 casamentos e 1 funeral. Ele disse que sim. Eu nem precisei perguntar se ele amava a Poly, isso, essa informação inútil, eu sabia.
  Era uma vez um garoto idiota e seu melhor amigo inteligente. Luiz ficava nervoso olhando para uma menina numa mesa perto da nossa. Eu disse a ele que ele arranjava coisa melhor, mas o rapaz estava bem determinado. Então, falei pra ele ir lá e chamar ela pra dançar ou conversar. Ele ficava repetindo: Talvez a gente poderia dançar… Talvez a gente pudesse dançar…. Talvez a gente… Luiz parou a uma mesa dela, fechou os olhos e deu o passo seguinte repetindo o que iria dizer. De repente, bateu numa garota bonita. Ela ouviu o que ele disse, mas perguntou “Desculpe, o que você disse?”. Mais branco do que nunca, o garoto idiota de 21 anos responde “Talv… É… Dança. Dançar?” Eles dançaram.
  E foi assim que eles se conheceram. Os felizardos marido e mulher. Parece até filme.
  Nostálgico esse final de festa, né?
  Não respondi.
  Lembrei de muita coisa que a gente passou junto, lembrei também de quando eu conheci a Poly.
  Eu abaixei a cabeça com um sorriso ligeiro no rosto. Lembra quando eu fui pra Sampa?
  Lembro bem, o diretor geral adorou seu jingle para o comercial da camisinha…
  É.
  Me lembro daquela folha com o espaço para a minha assinatura. Aquilo foi feito às pressas, o diretor precisava de pessoal urgentemente na matriz paulista. E eu, precisando, aceitei.
  Você teve que ir…
  É.
  Você acha que a Nat…
  Não sei, eu nunca consegui falar o que eu queria pra ela.
  Uma chama e eu ofereço a ele.
  Quer um cigarro?
  Não, a Poly me fez parar de fumar e tomar café, depois do clareamento dental.
  Ah, certo.

  No dia seguinte, eu senti uma angústia inexplicável. A culpa, de quem era a culpa. Acendi um cigarro e, ainda sonolento, pensei como era difícil não ter quem culpar, nem quem se desculpar. Traguei o cigarro com paixão. Olhei pela janela o dia cinza. Foi quando eu tive uma idéia para um novo jingle.

[c. 09/12/08 – t. 06/05/12]
 –

C.T.I.

 
A Angústia me amassou.
A Melancolia me bateu.
A Culpa me misturou ao fermento
e fez tudo crescer.

A Mágoa me assou.
A Frustração me cozeu.
A Solidão me botou na geladeira
para congelar e ficar duro.

O Arrependimento me fritou.
A Aflição me refogou.
A Agressividade me grelhou
deixando marcas profundas na carne.

A Ansiedade me gratinou
E depois jogou o queijo ralado.
A Tristeza me serviu
com uma maçã na boca.

E ainda assim,
não estou pronto.
Eles jamais conseguirão
me devorar.

*Culinária Teimosamente Improdutiva

[J.D. Crespo – 07/03/09]