dia

o que você estava fazendo
quando o mundo mudou?
hoje, foi um dia agradável.
apesar do noticiário,
apesar do calor
insuportável.

o que faziam as pessoas
enquanto a história se tornava História?
hoje, também, morreu minha avó.
provavelmente muitos avós
e, claro, netos
(tenho sorte).

tudo cabe num dia,
pouco resta na memória.
de qualquer forma,
seguimos tropeçando
para a risada
ou para o tombo.

9/11/16,
para francisca lamonica
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/

cidades estranhas

É uma estrada;
possui um vazio
quase mais leve que a neve,
quase mais leve que o nada:
um vazio de criança despreocupada.
A pele sente um sentimento amplo
e o que se vê é um campo,
uma bola, uma boneca,
um beijo na testa
no fim da festa.
Diante dos meus pés,
a estrada se desenrola,
cansado e sem coração,
passo pesado
e caco de vidro na sola,
o corpo é recriado pela canção:
Carrega-se a pedra no meio do caminho.
Mas, de repente,
sinto o farol e me assusto.
Se tento olhar um pouquinho,
meus olhos ardem na luz incerta,
abrem como uma mente aberta.

Paralisado,
eu não tenho certeza se é um sonho.

ave

uma ave de rapina carrega m
eu coração: ninguém
me ensinou a esquecer. chut
ando pedras pela cidade vaz
ia como se fosse um milagre fic
ar sem causar problemas. faz
endo planos, o presente é pas
sado num piscar de olhos, o te
mpo inteiro. mas uma hora é se
mpre uma hora. daqui a 10 anos,
apenas 10 anos terão passado. o
carrossel gira e sempre está lá n
o mesmo lugar. entre suas garras,
uma ave de rapina ainda car
rega meu coração
e,
desse jeito,
eu viajo o mundo.

na fotografia II

na fotografia II

o vento sopra as fotografias
pela janela
e o tempo, embora mais velho,
mantém seu ritmo calmo e violento.

as ondas na praia são certeza
da lua irresoluta;
tornei-me aquela memória
indigna de confiança
que sempre me supus.

a luz azul está desaparecendo
aos poucos, ao longe.
o barulho continua me perseguindo
–eu tentei ser tudo
e não fui nada.

entendendo devagar que
não existe daqui a um ano
nem daqui a dez anos
–meu pra sempre durante
um átomo de tempo.

o vento sopra as fotografias
pela janela
e as águas salgadas e geladas do mar
ignoram nossos sorrisos anacrônicos.

nada (apenas tudo)

estávamos andando sobre as ondas,
ondas de vidro, colinas realmente.
e aquilo era só a gente; eu e você.
andamos até notar o horizonte:
a terra quadrada como um tabuleiro.
só faltavam os antípodas lá embaixo.
na ponta do mundo, miramos o espaço —
o infinito cósmico: o grande vazio,
nada na nossa frente, apenas
tudo. e, na inocência da ignorância,
caí: acabou o equilíbrio do nosso mundo,
éramos um tabuleiro de ondas sólidas
sobre uma pequena bolinha de gude.
no caminho até o chão, tudo ficou claro —
e eu sabia então que a queda iria
estilhaçar o vidro com o impacto
e tornar água todo aquele mar.
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
a.v.

sobre cair

nessa cidade,
a chuva sempre cai igual —
as gotas nunca caem com convicção;
são pingos que hesitam e vem
sem lembrar que o chão
é o seu destino;
sem saber que há um ciclo
e que novamente estarão no alto,
na beira do pulo
e quando caírem
será na dúvida
para a morte
e para a sobrevida —
às vezes, lentamente
outras, bem rápido;
sem parar.
não é possível parar.
esperar é movimento
e olhar para o céu também;
quando pisamos numa poça
a nossa água é a água da chuva
e saímos pisando incertos
seguindo adiante
sem lembrar que o chão
é o nosso destino;
sem saber que há um ciclo
e que novamente estaremos no alto,
na beira do pulo
e quando cairmos
será na dúvida
para a morte
e para a sobrevida —
às vezes, lentamente
outras, bem rápido;
sem parar.
não é possível parar.
esperar é movimento
e olhar para o céu também;
nessa cidade,
a chuva sempre cai igual;
como os corpos dos que se matam.
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/
/

a guerra

a porta
nos ombros.
//a memória engana;
//o corpo se renova;
//a mente trapaceia;
o vizinho
me emprestava açúcar;
//reclama dos passos;
//critica minhas cores;
//grita na janela;
alguns
morrem.
//nós os parabenizamos;
//mandamos cartões;
//eles tomam o tiro;
um seio,
alguns dedos.
/não existe a pausa;
//a consciência corre
///como sangue derramado
////e precisamos de mais
e
mais
e mais
e mais e mais:
o pulso, os pulsos,
o vizinho, a amante,
a frentista, o carteiro,
mais, e mais, o inimigo,
mas mais movimento, bem mais:
nós precisamos de algo que acompanhe
nosso corpo nossa alma nossa luta
que seja dentro e fora e
ultrapasse a pele
(…)
/

a alma
pesa e sangra:
quando abrir a porta
pra onde ela vai dar?
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.