Coração de carvão


há uma chama me atormentando.
ela ilumina o ponto ao qual eu tenho que chegar,
cega quando tento ver o caminho.
leva embora o oxigênio,
torna o silêncio a borda da mentira e da morte.
o incêndio dos pelos do meu corpo e das peças de roupa proibidas.
um rolo de filme antigo queima deixando frames espalhados
e perdidos em algum lugar.
meus joelhos doem, o ano passa como a faísca de um isqueiro –
a chama me atormenta:
no centro do peito
eu inventei o fogo
mas esqueci de inventar o calor.








Anúncios

Auto-ajuda

No fundo do lago, entre peixes,
frio e algas, está o silêncio.
O silêncio que conversa com as mães,
esposas de maridos que não as amam;
o silêncio que cala os pescadores
quando tentam traduzir o intraduzível;
o silêncio que buscam os poetas
com as suas letras miúdas de tinta.
O silêncio asfixiado que chama
milhares de homens e mulheres
que não conseguem o que querem.





Três passos para escrever um poema/O jardim do silêncio

.
.
.
1. Primeiro passo

Eu não posso escrever um poema.
Minhas mãos estão amarradas.
Minha boca cala.
Minhas letras silenciam.
Não posso falar o que eu sinto.
Não posso sentir o que falo.
Não posso escrever mais que isso.

2. Segundo passo

O coração das coisas não fala.
Uma imagem não fala.
Uma carta não fala.
Um jardim não fala.
Ou todos falam,
e somos nós que assim fazemos soar:
para nós mesmos,
para que não fiquemos sós
e o mundo mudo.

3. Último passo

Depois de pôr a sua melhor roupa;
O seu melhor vestido;
O seu melhor terno;
Dê o último passo
para fora da prancha,
para dentro do tanque dos tubarões.
E, aí, então,
capaz de falar
ou não;
capaz de ser tudo além de somente si no mundo
ou não;
você vai começar a escrever um poema.

Ex: O Jardim do Silêncio

Eu queria lhe dizer algumas coisas,
você sabe,
mas o silêncio apenas
já me deixa
rouco.

.
.
.
枯山水 - Karesansui
.
.
.

Manchas no horizonte/Luzes dos carros

A segunda chance é a pior chance:
pesa o mundo e escurece a noite,
beira o penhasco da insensatez.

O diabo não cansava de dizer-lhe ao pé do ouvido:
– A mulher não é uma mulher, é uma criança.
A simpatia não é um convite, é respeito.
O homem não é um homem, é uma criança.
O gesto não é um movimento, é uma mensagem.

E falado isso, tudo voltava a acontecer.
A faca que ele nem via, mas que estava cravada ali
por baixo das dobras do casaco.
Ao passar a mão, vermelho, muito vermelho.

E o diabo não cansava de dizer-lhe ao pé do ouvido:
– Você vê apenas o vermelho, mas sabe que é sangue.
Você vê medo, reconhece a morte.
Você vê uma pequena chama longe e sabe que ali há um incêndio.
Na segunda chance, você tem a última chance.
A última chance de cometer os mesmos erros pra sempre
e a última chance de seguir um outro percurso.

O pior não era quando o diabo fincava-lhe a faca
ou falava-lhe ao pé do ouvido.
A pior parte era quando o diabo permanecia em silêncio
porque era exatamente quando ele sabia
que as manchas no horizonte eram as luzes dos carros,
exatamente quando ele lembrava
que o diabo era, acima de tudo, ele mesmo.

Havia a segunda chance
em que ele tinha que ser quem não era
por alguns segundos de bravura
para tornar-se de vez alguém diferente
daquele que sempre foi.