A máquina de fazer poesia

Para obter resultados,
os cientistas selecionaram os melhores poetas
colocados nas listas de melhores poetas
que os melhores fazedores de lista
nas listas dos melhores fazedores de lista fizeram.
Os resultados foram obtidos,
a máquina reproduziu as palavras mais fortes e a métrica perfeita,
seguindo os princípios que indicam o que é uma boa poesia,
fazendo assim a melhor poesia possível.
No entanto, não deu certo.
Antes de encontrarem sentido na grandiosidade,
algo se soltou,
se perdeu.
A máquina escangalhou.
As rebimbocas negaram as parafusetas:
a poesia perfeita foi sua auto-destruição








temporada

hoje eu tive o dia perfeito, cheio de ninguém. foi difícil de acordar, tão difícil quanto está sendo dormir. andei sob a chuva com uma agonia inexplicável, cinza, minhas alucinações seguem perfeitamente normais, a solidão me veste melhor do que eu poderia imaginar, como um terno feito sob medida. sinto como se blocos de terra se desprendessem de mim aos poucos frente ao cansaço de algum fardo oculto na base do meu cérebro. esses parecem realmente os últimos dias.
  tentei sentir a beleza de sentar-se a beira da baía na sombra de uma árvore. não fiquei confortável, não ventou, não senti o mínimo prazer, talvez a maior beleza que eu poderia encontrar nisso. preso num dos sete dias que compõe a minha cela maior, eu senti a clausura, toquei a clausura com meus sapatos, quase coração. é em dias como esse em que eu percebo a coisa mais imperfeita que existe, a perfeição. hoje foi o pior dia da minha vida por alguns dias mais tão leve e só, desprendido, eu até me senti bem — o que fará com que todos os dias que virão agora serão só uma cópia mal feita do dia de hoje.
  a temporada perfeita será sempre lembrada. trará sempre uma lembrança gloriosa do passado e ainda o que restará será o olhar no reflexo da janela do ônibus a perguntar onde foi que a temporada perfeita deixou de ser o que era para tornar-se a temporada de agora. todos os erros posteriores são automaticamente sublinhados desde o triunfo e o dia perfeito torna-se o dia solitário em que aguenta-se viver apesar da chuva, da agonia cinza e das recorrências mentais impertinentes.
  se desisto de raciocinar para simplesmente seguir, se deixo o corpo cair na cama como um fantasma velho e surrado, se sigo no estado em que o dia perfeito é um dia a mais, é porque fiquei preso no meu fardo, a temporada que passou, aquela sim, perfeita, e como tudo que é perfeito, inalcançável
  tudo vai continuar, os prédios serão construídos e derrubados, casamentos acontecerão e divórcios também. o corpo-trapo não me aflige, apenas a impossibilidade de libertar-me de uma inevitabilidade. do céu, por exemplo. os medos que me tornam o que eu sou quero que virem só uma fração de segundo na próxima temporada. a perfeição, no entanto, não será o meu alvo. só a crença da conquista. a luta pelo leite. despir-me até a simplicidade. meu coração está nos meus pés e eu preciso andar mais descalço.
  e até lá, dias perfeitos, cheios de ninguém. gradualmente, até perder-me de pensar no chão frio.