de espuma e sal

Minha vida sou eu

Ando nas nuvens
Danço com árvores
Caio no chão

Sigo adiante
O próximo encanto
Serena sou eu
Serei
-a.

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Mizu

Às vezes me sinto figurante em sua vida. Sabe aquela garrafa de vidro com água gelada que fica na porta da geladeira? Você só lembra-se dela quando chega em casa, com sede e sem mais nada pra beber ou fazer no fim de um dia cheio: cheio de coisas boas ou intermináveis horas de trabalho. Aquela água é a última salvação, porque ela sempre estará lá, te esperando por semanas.
  Ser figurante não é nada ruim, porque eu estou ali por algum motivo, mesmo que não declarado, eu ocupo o vazio de um cenário e ao mesmo tempo em que sou colocado bem ali, é como se eu sempre estivesse ali, desde quando o cenário nem cenário seria.
  E então, me percebo uma garrafa de água velha na geladeira cheia de frutas, e ali permaneço para um novo dia de sede que virá, e que, sem escolha, escolhido serei.
  Dias se passaram. Meses. Ano. E dou-me, enfim, conta, de que sou figurante de mim mesmo e que detesto água gelada, mesmo em dias escaldantes.

 
 
 

Águas de março

Hoje você me abraçou como abraçou ontem e no domingo. Nada mal sentir seus braços em meu corpo. Nada mal porque é sempre bom, já não é mais raro… A gente se permitiu mais um instante que se prolonga por mais um ano. A resistência é baixa e a conta é alta. Mas a gente parcela e descobre que não está só no mundo das (auto)cobranças.
  Nesse mesmo dia de hoje, eu encontrei uma amiga, que me fez rir e sentir desejo, como não sinto quando você me abraça. Talvez porque ela não me abrace quase todos os dias, talvez porque o mundo das cobranças é o mundo onde todos vivem.
  Na tarde desse mesmo dia eu desejei outras pessoas, fiz mosaico e ri no final. Tropecei na calçada e voltei pro mundo. Traí em silêncio com o auxílio das boas memórias de um passado cretino, mas nada arrependido.
  Na noite de hoje, você sai como quem não faz questão nenhuma de abraçar ninguém na vida.
  Amanhã você me abraça, eu sinto calor, olho para os lados, mas estou te ouvindo.

 
 

Crepitar

Depois do almoço, nos despedimos. Ela encostou o dedo no olho e ardeu, não pude fazer muito: estava falando algo sobre Hunter S. Thompson e resumi tudo rapidamente porque o ônibus chegou. Não sei se ela entendeu.

No ônibus fiquei entre ouvir a mesma música no repeat quinhentas vezes e ler o livro que eu estou lendo. A música é It ends with a fall, do Okkervil River, e o livro é Number9dream, do David Mitchell. Escolhi a música, umas quatro vezes, depois fui ao livro. Cheguei em niterói rápido.

Na portaria havia uma encomenda: Um homem: Klaus Klump – um livro de Gonçalo M. Tavares que eu encomendei. Chegando lá em cima, dei oi a diarista, falei que ainda estava sem aula, mas que ia distribuir uns currículos para começar a dar aula de português (ou inglês).

Li um pouco mais do Number9dream e ele está perto do fim, num trecho bem legal. Decidi ligar a televisão e vi o comecinho do jogo entre Ucrânia e Inglaterra, a Ucrânia melhor. Liguei o video game, joguei minha master liga, que eu odeio, porque eu estou de saco cheio e não quero fazer nada. Quero esvaziar minha mente.

Se minha vida fosse um filme, seria um filme muito chato.

Depois de encher o saco de jogar video game, li o primeiro capítulo do livro recém comprado na estante virtual. Gostei, mas é bem estranho.

A diarista se despediu e eu não estava com vontade de nada. Peguei o meu caderno comprado em Barcelona que nada tinha escrito ainda além de uma lista de compras e tentei escrever uma poesia. Eu escrevia treze versos que risquei e eu odeio riscar as coisas, acho que feio demais, pensei em arrancar a folha fora.

Com receio de abalar a estrutura do caderno, decidi deixar lá. A cada segundo os riscos e a poesia incompleta cresciam na minha frente. Riam de mim. Peguei a caneta e risquei tudo com força até que uma começou a sair do papel e uma fagulha queimou minha mão.

Senti como se ela estivesse submersa em chamas. Soltei a caneta e a queimação parou. Lavei as mãos na pia e ela não estava sequer quente. Sentei de volta ao sofá, em frente ao meu caderno. Quando tentei segurar a caneta, novamente, senti a mão em chamas.

Desisti. Liguei o video game com o dedão do pé, mas sintonizei no jogo antes. Continuava um a zero para a Inglaterra, muito pouco para acabar. Quando o juiz apitou fim de jogo, eu estava pronto para mudar de canal, mas Steven Gerrard pulou televisão a fora e, suado como estava, disse (de frente pra mim): Actually, what happened to your hand is quite interesting. Pausadamente e hesitante, como qualquer jogador de futebol. Ele se sentou do meu lado no sofá então, e eu enfim mudei de canal.

O jogo era o mesmo, PES 2012. Botei pra dois, mas o controle que eu ia emprestar ao Gerrard estava sem pilha.

brisa

porque o melhor momento da vida
quando o mistério perde o sentido
a nostalgia registra a sensação
e guarda o melhor momento da vida
na caixa errada, uma que se possui
mas não se acha quando quer ou precisa
tipo um celular porém menos útil mais bonito
porque o melhor momento da vida
não é num grupo não é a dois
você está no dia que não tem nada
o melhor momento da vida
acontece da mais pura ausência
de preocupações de acontecimentos
você não guarda o vento nem a vista
não fica a temperatura ideal em que
o frio não é frio e o calor é apenas
gostoso
o melhor momento da vida
faz os cabelos vibrarem inquietos
e não deixa lembranças maiores
do que os momentos que vêm antes e depois
do melhor momento da vida
tem a ver com aquela manhã
aquela noite perfeita
tem a ver com isso
o melhor momento da vida
tem a ver com tudo antes e depois
sem nada no momento
e a única razão para que você
não perca esse momento dos olhos fechados
da mente gozando
é ter alguém para contar
sem falar nem realmente guardar
só olhar