Coração de carvão


há uma chama me atormentando.
ela ilumina o ponto ao qual eu tenho que chegar,
cega quando tento ver o caminho.
leva embora o oxigênio,
torna o silêncio a borda da mentira e da morte.
o incêndio dos pelos do meu corpo e das peças de roupa proibidas.
um rolo de filme antigo queima deixando frames espalhados
e perdidos em algum lugar.
meus joelhos doem, o ano passa como a faísca de um isqueiro –
a chama me atormenta:
no centro do peito
eu inventei o fogo
mas esqueci de inventar o calor.








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Manchas no horizonte/Luzes dos carros

A segunda chance é a pior chance:
pesa o mundo e escurece a noite,
beira o penhasco da insensatez.

O diabo não cansava de dizer-lhe ao pé do ouvido:
– A mulher não é uma mulher, é uma criança.
A simpatia não é um convite, é respeito.
O homem não é um homem, é uma criança.
O gesto não é um movimento, é uma mensagem.

E falado isso, tudo voltava a acontecer.
A faca que ele nem via, mas que estava cravada ali
por baixo das dobras do casaco.
Ao passar a mão, vermelho, muito vermelho.

E o diabo não cansava de dizer-lhe ao pé do ouvido:
– Você vê apenas o vermelho, mas sabe que é sangue.
Você vê medo, reconhece a morte.
Você vê uma pequena chama longe e sabe que ali há um incêndio.
Na segunda chance, você tem a última chance.
A última chance de cometer os mesmos erros pra sempre
e a última chance de seguir um outro percurso.

O pior não era quando o diabo fincava-lhe a faca
ou falava-lhe ao pé do ouvido.
A pior parte era quando o diabo permanecia em silêncio
porque era exatamente quando ele sabia
que as manchas no horizonte eram as luzes dos carros,
exatamente quando ele lembrava
que o diabo era, acima de tudo, ele mesmo.

Havia a segunda chance
em que ele tinha que ser quem não era
por alguns segundos de bravura
para tornar-se de vez alguém diferente
daquele que sempre foi.

Hikouki/Pontas gastas

Às vezes, eu imagino um avião passando no céu,
imagino quem está indo, quem está animado, triste,
quem está prestes a nunca mais voltar.
Imagino também que eu não estou nele.
No meu caso, crio e recrio a cena da despedida:
a despedida é perfeita,
o momento em que o pecado mental desaparece,
a morte prematura, a absolvição por um dia,
depois um ano.

Fora da terra será doloroso porque
todas as minhas raízes serão arrancadas à força
e haverá uma neblina de sangue
sobre o Estado do Rio de Janeiro —
todas as minhas sementes ruins,
toda estrutura torta que eu construí
fará jorrar um pouco de mim,
um pouco de suor, saliva, pus.

Ainda presa na parte mais suja de terra,
que não se tira facilmente das unhas,
estarão todos os quebra-cabeças abandonados
de mim mesmo,
as peças machucadas como se um bebê
tentasse a toda vitalidade encaixar
um quadrado no espaço de um triângulo.

Um líquido cortante como sinal do tempo esguio
continuará seu ciclo de dilaceramento:
que me faz sorrir a cada derrota própria,
sorrir e esmurrar o sorriso de vidro polido.

O inevitável é que estarei no avião,
haverá uma despedida
e logo após, parto
num parto que como todo nascimento e morte
vem antes do esperado, ninguém está preparado.
Parto ao meio de mim e assim se parte
a parte infeccionada do que nem pode restar
daquilo que eu tentei dizer
mas ninguém entendeu mesmo.

Morte de novo

De que vale reviver a derrota
quando na memória obscura
ela ainda soa como revelação:
Aceite
quando o homem de duas bocas oferece-lhe
um copo quase transbordando de magia.

Eu morro quantas vezes precisar
para sonhar acordado com batalhas vencidas que
na realidade
provavelmente perdi.

Não há nada mais heróico,
sou um guerreiro de punhos vazios,
vendado pela curiosidade de iluminar
o que a memória me preveniu de saber.

O homem morre com a mesma felicidade que luta.