möbius

luzes
reluzem,
reluta
de luto,
o escuro:
nos labirintos
sucintos
tropecei em fixos
problemas
prolixos.

de eternidade
em
eternidade.
troquei dez reais
por
realidade.
sem dar ouvidos
ao olvido,
lembrei
que havia esquecido:
perdi
o que já estava perdido

e sendo como sou
não como fui
desfiz
o que fora
sido,
fora
gido –
a eternidade
explicada
não tinha idade,
nem nó
nem nada
nem era
uma coisa só.

no tempo destrinchado,
o labirinto perdeu
a horizontal:
o chão cedeu,
pulei o meio,
caí no final,
outro problema veio,
mais um tropeço,
e eis que então
tropeço nas luzes
do começo.

..
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..
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‘.

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.
..

Soneto Preto

Fumaça e espelhos, o mágico faz a pomba aparecer e voar.
Diante dos meus olhos, sei apenas que não é real.
Meu coração tropeça sozinho na mesma canção, no mesmo bar,
porque eu cansei: do que já foi oceano, resta só o sal.

O aroma da grama recém-cortada é o cheiro da aflição da grama.
O agradável é um sofrimento que passa despercebido,
e o problema é gostar de sofrer como quem ama,
sem nem duvidar do que se ouve além do que foi ouvido.

Depois da ventania não-prevista, tudo já arruinado.
O músculo perde-se num labirinto de espelhos,
o passo hesita depois do que ainda não é passado.

Desolado, distante de todo tipo de conselhos,
a mente nos faz crer que não conseguiremos nada mais.
Diante do mágico, sei apenas que nós somos reais.

O labirinto do coração

1.

Eu nasci com a caixa dos pássaros no peito.
  Os anos se passaram e eu nunca soube porque era dos pássaros, pra mim era só uma caixa vermelha, não fazia muita diferença. Não era possível vê-la através da camisa, ninguém via. Um dia notei que havia um ninho. Só. A caixa ia se ocupando aos poucos.
  Corta.
  Naquele banco desconfortável, muito tempo depois, tudo sobre ela ficou sujo de sorvete. Aquele nosso primeiro sorvete eu tentei guardar na memória. Mas ele está derretendo, e todas as nossas memórias – boas e ruins – estão ficando com gosto de sorvete de chocolate. Minha cabeça está batendo contra a janela no balanço da estrada empoeirada.
  Dois, três segundos e corta de novo.
  Havia apenas uma vela no meio da mesa, uma simples vela já nos seus últimos momentos. Também a brasa do cigarro acendia do meio da escuridão. A garota tentou fazer aros de fumaça. Tentou ignorar o que ele a dissera há pouco. O silêncio negro pairou no ar por algum tempo. Ela levantou e apagou o cigarro no cinzeiro com raiva. Um sopro dela e aquela cozinha ficou escondida do mundo e do resto do mundo; todas as direções pareciam ser uma só: davam no corpo do minotauro, no coração do labirinto. O silêncio da falta de luz era o único caminho a ser trilhado, antes fora uma estrada de chão espaçosa, agora tornara-se um piso asfaltado, estreito e quente em que era impossível andar lado a lado ou deitar-se para uma soneca.

2.

Eu não consigo parar de pensar e o mundo também não para de rodar.

3.

Ela diz isso agora pra eu não ficar preocupado;
  mas sabe que eu fico.
  Ela diz que é só algo em relação a atitude;
  mas sabe que na minha cabeça eu já revisei tudo.
  Sabe que eu já me arrependi de algo que fiz por ter sido eu mesmo. E acho que ela não percebeu que por causa dessa conversa que nem aconteceu ainda já voltei à estaca zero na busca de ser cada vez mais eu e menos eles.
  Nós sempre estávamos na mesma discussão sobre as mesmas coisas indissolúveis. Não importa, sempre caímos na mesma armadilha. Me sinto bem sozinho. Bem até lembrar dela e querer tudo aquilo outra vez, tudo aquilo que era bom, esqueço a paranóia e a tempestade.
  A voz tremeu, o escuro berrou, a noite gelou
  — e agora, José? e agora, nós dois?
  Quando ela me ligou, desliguei na sua cara. Ela ligou de novo, eu desliguei de novo e me desliguei de vez.
  Meu coração batia na velocidade do alívio,
  com o peso da decisão e, por sorte, sem parar
  (muitos nascem só para morrer).

4.

O grande problema da vida é que nós não vivemos um problema de cada vez mas sim todos ao mesmo tempo.
  Fiquei horas escrevendo as coisas que se estapeavam e se pisoteavam para sair de mim num rabisco anárquico. Foi num acesso de ódio que joguei tudo mesa a baixo. Brutalmente, sem compaixão por serem meus pertences. Sem delicadeza, sem me importar com os expectadores que, mesmo que nem existam, nos preparamos em silêncio para agradar. Um caderno fez espalhar papel por todo o quarto.
  Respirei.
  Fui recolocando cada livro, lápis, estojo, pasta, folha em seu devido lugar. Antes de terminar, parei e saí para fumar um cigarro.
 Eu queria dar uma volta de meia hora mais ou menos pela praia. Sentia uma coisa misteriosa quando estava tudo congelado na rua e o mar permanecia impassível. Admirei a água, as ondas, a areia, coisas que os poetas geralmente gostam e eu nunca soube ver nada além do que eles realmente são.
  O meu olho cirúrgico fatiou toda aquela tranqüilidade. Veio a mim um sentimento criminoso que nós encontramos normalmente em coisas pequenas. Eu o estava vendo do jeito que tem que ser visto — nas imensidões.
  Por um instante, desprendi-me de ontem. A água que batia nos meus pés, no entanto, ao invés de molhar, deixava-me seco.

5.

Respirei de novo.

6.
        Acordei com o corpo
       todo riscado de uma fúria
      presa e alimentada
     mas que
    sob a incerteza dos desencontros
   começa a se situar novamente;
  se situar como se situam
 os cartoons já sobre além do penhasco.
E também uma ressaca pesadíssima.

7.

Fico me perguntando por que ando tanto e tão sem rumo. Cada vez que penso nisso, chego a conclusão de que queria estar mesmo é bem longe daqui, mas a vida que a gente vive cria tantas camadas que é difícil pegar uma mochila e sair por aí de verdade.
  Sou uma farsa pra mim mesmo?
  Não sei se me iludo ou é esta a verdade. Um dia, andando do trabalho para a faculdade com pressa, aconteceu: todos os pássaros vieram velozes e voando me atingiram no peito. Disputavam para entrar na caixa, um pássaro batia no peito e caía. E outro, e mais um. A cena se repetiu algumas vezes e eu cambaleei um pouco até vir mais um pássaro grande demais e me derrubar de vez. Eram muitos pássaros voando em direção ao meu peito, à minha caixa semi-preenchida. Não conseguia entender porque aquilo estava acontecendo. Eram muitos pássaros e eles não cabiam na minha caixa, por mais que todos soubessem exatamente onde deviam estar.
  O próximo passo é um passo do qual eu me arrependo por vergonha besta. Um passo cheio de animação no fundo, e no fundo falso do fundo, um outro passo na direção oposta.

Sede

Se de um lado houver um rabisco
Não fecho os olhos, nem mesmo pisco:
É só silêncio semeado com ira.
Se o outro lado é o que o ferira
Corto solto não posso mais preencher
Os nós atados num desenho de Escher.

A vida
oscila
mais do que um espelho

E o murro
não quebra nada
resta-nos voltar ao labirinto.

De que adianta, rasgar tudo no final
se o que importa é o caminho percorrido.
De que adianta, guardar as flores do mal
se ele não está ao pé do ouvido.

Não adianta planejar o que sinto:
resta-nos voltar ao labirinto.

O coração do labirinto

Havia apenas uma vela no meio da mesa, uma simples vela já nos seus últimos momentos. Também a brasa do cigarro acendia do meio da escuridão. A garota tentou fazer aros de fumaça. Tentou ignorar o que ele a dissera há pouco. O silêncio negro pairou no ar por algum tempo. Ela levantou e apagou o cigarro no cinzeiro com raiva. Um sopro dela e aquela cozinha ficou escondida do mundo e do resto do mundo; todas as direções pareciam ser uma só: davam no corpo do minotauro, no coração do labirinto. O silêncio da falta de luz era o único caminho a ser trilhado, antes fora uma estrada de chão espaçosa, agora tornara-se um piso asfaltado, estreito e quente em que era impossível andar lado a lado ou deitar-se para uma soneca.
   A voz tremeu, o escuro berrou, a noite gelou — e agora, José? e agora, nós dois?