Castelos/Midori

(Anjos maus, anjos maus, por quê?)

Primeiro,

havia um grupo de chatos. Umas vinte pessoas vagando por uma residência imensa feita de blocos de pedra abandonada na Itália. Poderia haver um tesouro por lá, é isso que nos ensinam sobre o mundo da fantasia. Ninguém, apenas os nossos bolsos cheios de fantasmas nossos que iam se espalhando pelos cômodos. A contar pelo número de pessoas, algumas também se perderam se misturando à atmosfera, conscientes de que estavam se perdendo embora muito mais estivessem se encontrando. Eu tinha minha garrafa de Vodka e o grupo de chatos eventualmente tornou-se apenas um grupo.

Segundo,

nós chegamos numa praia com areia branca que é quase da cor do meu terno cor areia branca. Há uma parte inundada na praia a qual teríamos que atravessar nadando se algum de nós estivesse com disposição e capacidade. Do outro lado, uma menina. Ela estava de pé no meio de um círculo de torres de areia que não chegavam à altura dos joelhos dela. E ela tinha o cabelo cortado numa franjinha e ela olhava pra mim como se só eu pudesse vê-la. O bando de pessoas vestidas com classe cambaleando pela areia acenou a ela, uma das mulheres – uma que tinha o esmalte descascando das unhas – gritou qualquer coisa. A menina não reagiu, continuou olhando para mim com seus olhinhos italianos.
  Eu desejei naquele momento que só eu pudesse vê-la.

Terceiro,

eu andava ainda meio anestesiado de sono e andava devagar com meu carrinho de malas. Não foi difícil enxergá-las. Mais tarde, em casa, entreguei à menorzinha um globo de neve com um castelo no meio. Ela o olhou com os olhos maiores que o próprio presente.

Quarto,

a festa está animada e um saco ao mesmo tempo, ela disse. Então, estamos numa festa de Schrödinger?, eu disse mas ela não entendeu. Às vezes eu encontrava pessoas que tinham se descolado do meu tempo-espaço, principalmente do meu espaço. Era bom quando isso acontecia. Todos pareciam alegres. Estavam se matando nem tão aos poucos assim. As pessoas são como velas, precisam de fogo para fazer sentido e fazer sentido as leva ao destino final.
  Quando cheguei em casa, me senti abraçado por um copo d’água e o cd do The Clash que eu tinha achado no chão do carro na semana passada.

(Anjos maus, anjos maus, por que voam tão baixo?)

Quinto,

desconforto, a cama parecia tábua. Até que. Mãos pequenas. Sorriso pequeno. Cabelo castanho. Pele macia. Dente mole. Mão chegando no tamanho da minha mão. Pele – são duas torres (dobra os joelhos), aqui está o fosso com o riozinho cheio de jacarés em volta (mexe os braços), o quarto da princesa, a sala de observação, o jardim secreto (bagunça o cabelo), o aeroporto privado (abre a boca), o segredo fica aqui no meio (orelha no umbigo) e agora eu já sei o segredo: cosquinha na costela (todo o castelo se desmonta momentaneamente).
  

a febre

se eu digo sol, chuva,
você não precisa definir o que é o sol,
não pode redefinir o que é a chuva.
não pode fazer o sol brilhar mais.
ou menos.
você não pode tocar o sol.
mas por que você faria isso?
por quem você queimaria a mão?

a chuva desaba.
você não pode aumentá-la.
nem impedi-la.
e por que mesmo você faria isso?
eu não preciso do universo,
preciso de mais.
de algo que não posso tocar
mas que pode me tocar.

então,
por favor,
deixa chover.

Na palma da minha mão

Na palma da minha mão cabem alguns sonhos,
eu os guardo nos bolsos das minhas calças;
alguns estão ainda novos, outros cresceram
demais
e eu tive que os descartar. Há uns sonhos apodrecidos que tenho
medo de jogar fora,
crio espaço para esses nos bolsos e na palma da minha mão.
Eles se encaixam e se mesclam sem querer
num solavanco;
como uma criança que tem que pisar só nas faixas brancas do calçadão
deslizo a mão por toda a extensão da tua vontade imensa. Absorvo
a textura de nuvem com a palma da mão,
embaralha tudo
que vive dentro dela;
me faz ir por uma rua desencontrada do movimento,
uma rua que nem existe. Se mostro a cara e ofereço o peito,
quando me tocas
viro um cachorro diante de um aspirador de pó
e desencontro-me dos meus limites como gente,
apesar de não ser tão gente
como você. Recuo no ferro incandescente dos teus dedos,
recuo ao toque, a decepção
me leva longe:
uma ventania numa festa de casamento;
um guarda-chuva perdido na terra dos guarda-chuvas perdidos;
eu poderia ser a embriaguez de uma garota linda
e confusa.
No terror de um filme de comédia mal feito, meu juízo nervoso oscila e
não sabe
que caminho seguir.
Quando tudo que você queria era uma sombra debaixo de uma árvore
ou um motel mesmo,
o não-medo. A coragem que eu tenho para dizer que sou um covarde.
Torço sem querer torcer para a modulação aleatória desembocar no rio certo,
se acaso o acaso funciona
foco na palma da minha mão
e deixo tantos sonhos quanto existirem caberem nela.
Se a mente não me trai, uso a palma da minha mão
não para coletar sonhos, mas sim passos de dança,
para criar arcos com os braços e
transformar-te em flecha
que flecha
voa.
E atinge um alvo, mesmo que chão. Se o se acontece,
viro eu mesmo a própria incandescência: ando nesse traço de giz
riscado sob o mar.
Não é um jogo, não é uma dança também: é algo
com nome mais burocrático quando deveria ser
a existência menos burocrática de todas as coisas;
ainda assim, há dois lados tal qual espelho e funciona igualzinho:
de cada lado há um que assemelha o outro, mas
não o é. Não é uma brincadeira,
embora fique melhor quando parece. É cardíaco: bate
duas vezes para mostrar a vida.
Tu dependes de mim — se bebes como um perdido no deserto,
se fazes conchas com as mãos e bebes poças cheias de poesia,
provavelmente morrerás,
ainda que
num oásis.
Se segues tua parte, resta a mim ser mais que
um momento de inspiração desperdiçado.
O guidom do teu copo levou-te até um canto mal iluminado;
desapareceste junto
de um guardanapo cheio de ideias-em-breve-erros.
Nessa volta do ponteiro, eu sou o sabonete delgado
que, no fim, desaparece na pressão com que o aplicas
sobre
tua pele.
Meus pés estão firmes no chão através de falsas raízes.
Na palma da minha mão
cabe um sonho
a mais.