La Estrella

Un anciano compra remedios silenciosamente en la farmacia. Sus dedos vacilan por pequeñas cajas de pastillas y él hesita. De pronto, un joven piensa en voz alta “¡No Creo! ¿Qué hace John Carter aquí?”. Es un rapaz muy raro, parece tener veinte años.
  Él no para. Se acerca hablando en inglés con el señor. “Talk to me John! I’m your biggest fan! Just give me an autograph! Please!”. El viejo mira la cara del chico y habla “¿Estás loco?”. La reacción fue “¡Dios mío, John Carter habla mi lengua!”, y después “¡Dame un autógrafo! Yo he visto todas tus películas, soy tu mayor fan. A mi padre le encantaba aquella frase de impacto tuya “I won’t spill blood… Anymore.”
  El viejo malhumorado agarra su remedio y camina lentamente hasta el cajero para pagar, intentando ignorar el chico molesto que le gritaba sus filmes y citaciones favoritos.
  “¡Niño, yo no soy este hombre! Entonces, por favor, déjame en paz.”. El supuesto John Carter paga su compra y sale de la farmacia. El joven se pone a andar en su misma dirección. “Tú no necesitas ser modesto. Solamente quiero tu autógrafo. ¡Mis amigos no van a creer que me encontré al increíble actor John Carter en la farmacia!”. El anciano para y responde con calma “Mira, si tú continuas siguiéndome… Llamo a la policía.”.   El chico se pone a pensar… “Me recuerdo cuándo dijiste eso. Fue en After that Thief, 1965. Look boy, if you keep following me, I will call the cops, and you will suffer more than that guy on the cross.” El viejo suspira y sigue caminando. “¡Vete!”. De repente, el chico se pone triste “Pero… Pero…”. El anciano repite “Sólo vete, solamente eso.”.
  Con los ojos llenos de lágrimas, el joven de veinte años se voltea, aún sin creer que se ha encontrado a John Carter, su mayor ídolo. El viejo no le da importancia y regresa a casa. Entra en el edificio, saluda al portero José y sube.
  Allá él enciende la computadora (¿dónde es el botón?) – hacía mucho tiempo que no la usaba – y entra en aquel sitio de búsqueda… ¡Google, eso es! Escribe “John Carter”. Escoge la primera página que le aparece. Un gran texto habla sobre un antiguo actor… Y al lado hay una foto. El viejo piensa “El chico tenía razón, él se parece mucho a mi.”
  Después baja a la portería, se le había olvidado el periódico. El portero le pide perdón por no haberle recordado antes. El viejo aprovecha para decirle algo. “¿José, sabías que yo ya fui un gran actor de Hollywood en las décadas de cincuenta y sesenta?”. Él balancea la cabeza pensándolo… “No” y parece muy sorprendido. “Sí, sí… Yo era un excelente actor… Ya lo sé, ¿quieres un autógrafo, verdad?”.
  Él vuelve a su pequeño departamento. Toma su caja de remedios y atraviesa lentamente su casa. Entonces, tira las pastillas por la ventana. Después tira la caja de aquellos antidepresivos también. Él se ríe y se dice a si mismo “Finalmente… Soy una estrella.”

  

O milagre esquecido

A chave estava atrás do vazinho de planta. Um quarto novo e vazio espera por ela, esse aqui continua aqui. É estreito, tem uma sala e um chão de tábua corrida. Poeira em todos os lugares. Eu ando um pouco pra ver a cortina meio fechada e um raio de poeiras em frente ao sofá branco encardido. Isso e isso e aquilo não são importantes. Passo pelo banheiro e chego numa porta amarela com um porta retrato de margarida vazio no meio.
  Olho para as coisas. Isto é um beliche. E o tapete. Penteadeira, espelhos – um pedacinho de espelho cortado num canto. Tudo tem gosto de ausência.
  Eu sento num banquinho acolchoado sem saber o que estou procurando por ali. Um sonho rasgado vale tanto quanto um soutien esquecido por lá. O celular toca. Achei que você nunca fosse retornar. “É, eu também, por isso que demorei a ligar.” Abro as gavetas da penteadeira. Tem maquiagem velha. Cadernos com listas de compras. Sem datas, sem tempo. “Então, o que você quer nas ruínas de um império falido?” Nada. Ou não sei, por enquanto é a mesma coisa. Como tudo bem e normal. “Sabia que tem pessoas num prédio como a gente, metade delas devaneando sobre o passado, metade devaneando sobre o futuro, todas elas ansiando por alguma coisa.” Eu sou a exceção, calmo.
  Ando mais um pouco e abro o armário da parede para encontrar apenas cabides de madeira e apenas um vestido rosa claro. Como você conhece tão bem as pessoas e sabe o que elas estão pensando? “Não é tão difícil, é complicado para uma só perceber que é todo mundo nutrindo uma solidão imbecil. Fica fácil quando você entende a guerra pessoal de um grupo, um grupo contém um pedaço do resto das pessoas.” Eu não sei se entendi. “Bem, você tem que aprender, é violento demais.” Passo a mão no vestido, ele tem fiapinhos e poeira. Não é de criança, embora seja infantil para o seu comprimento. É cafona.
  Por que você deixou só um vestido? “Eu achava ele cafona.” Eu gosto de cafona. “Eu achava que ele me faria sentir vergonha, mas agora o que passa por mim é o oposto, não sobrou nada, como eu sinto falta desse vestido.” Abro mais gavetas, um sabonete velho, um papel com estampas de ursinhos. Uma caixinha de metal com roupas rasgadas ou em pedaços, roupas pequenas, essas sim de criança. Sabe, tem uma caixa aqui cheia de roupas rasgadas. “Foi um rito de passagem, elas estavam um trapo e mal cabiam em mim, para simbolizar minha adolescência rasguei tudo. Um erro, talvez.” Tem uma coisa que realmente chama minha atenção, essas roupas jamais poderiam ser taxadas de gay, sabe. São roupas em branco, sem esse tipo de atribuição. “É, podiam durar mais tempo e podiam estar em melhor estado.”
  No compartimento de cima do armário tem livros, mas estão fora do meu alcance. Olho para o banco e decido que ele não vai me aguentar. Vou procurar algo para me levantar. Ando até a cozinha e ninguém fala nada até eu chegar lá. Se você fosse gay, você contaria pra todo mundo? “Claro, qual é a graça de ser gay apenas no papel.” É, eu concordo. O silêncio voltou e eu achei uma meia-escada. Apesar disso, nós nos isolamos, por quê.
  O que tem tão alto no seu armário? “Ah.” Alguns segundinhos definindo as palavras. “É um presente pra você.” E por que eu mereço um presente? “Por ser quem você é, eu sempre quis dar um presente para algumas pessoas por elas serem quem são, mas é difícil e eu nem sei porque é tão difícil.” Tem cinco livros encostados e depois um monte de cadernos. Os livros são Machado, José de Alencar, José Lins do Rego, Danielle Steel e Harold Robbins. O meu presente são os cadernos? “Pega só o vermelho, os outros combinam mais com um armário esquecido.”
  Pego, sento no banquinho e abro sobre o meu colo o todo empoeirado caderno de capa vermelha. Também não tem datas. Mas contas de matemática, coisas de ciências, alguns deveres de língua portuguesa, provavelmente outras disciplinas. “Procura lá pro final, meu presente está lá pro final. Você vai perceber.” Folheio rapidamente e muita poeira escapa. Tusso. Tem um desenho bem óbvio e ainda assim há uma legenda: Jesus Cristo. Ele parece feliz, não é perfeito, ao mesmo tempo que não é nada mal. E depois, um texto. Achei. “É, eu não lembro quantos anos eu tinha, mas sempre pensava, nessa época, que quem pôs a gente na terra e criou a natureza devia aprender mais com as suas próprias criações.” Como assim? “Como ele só põe a gente e não fala nada. A graça de descobrir as coisas sozinhos, é isso? Mas porque tem que ser sempre sozinhos. Nossos bebês não fazem nada sozinhos e eu sinto que nós somos os bebês de quem criou o mundo.” Ele devia se manifestar mais diretamente. “Pelo menos.”
  Li o título em voz alta — O milagre perdido. Depois, li o texto pra mim mesmo. Contava como Jesus fora absolvido pelos judeus, começou a dançar e todos cantaram e dançaram juntos a mesma canção. Você reescreveu a morte de Jesus? “Mais ou menos. Na minha versão, ele não morre, não revive, não vira lenda.” Mas ele canta. “E dança, a parte da dança é mais importante. O milagre perdido é a habilidade de todos perto dele saberem a coreografia sem nem ensaiar.” Eu rio e não ouço um eco, porém imagino um eco, cheio de poeira, como um raio de sol.
  Você é a criatividade em pessoa. “Nem tanto.” Estava insatisfeita com a versão bíblica? “Não, é o que eu disse. Tem outros prédios como esse em que você está, tem outras bilhões de pessoas no mundo, eu só achava que podia ter mais que uma história só.”
  Fecho o caderno. Olho tudo. Me olho no espelho. Você escrevia muito? “Não, preferia desenhar, era mais preciso. Dava no mesmo. Na verdade, eu gostava mesmo era de dançar.” Fico na janela por um tempo. Nem vejo a vista, só estou na janela, eu e a brisa. “As pessoas sempre se impressionaram facilmente com meus talentos.” Essa parte do discurso eu já conhecia: esses inúmeros talentos faziam com que ela se sentisse livre, livre para dominar o mundo. Ela tinha dito essas coisas na primeira vez em que a gente conversou direito. E a minha cabeça é uma caixinha que não esquece. Você ainda é livre? Ela não respondeu direto.
  Fui em direção a porta sem pressa. Saí. Botei a chave de volta atrás do vazinho de planta para algum aventureiro do tempo. Ou para um corretor. Olhei a porta e a falta de tapete em frente a ela. Senti de novo o gosto da ausência diante da porta fechada. Era um sabor próximo a poeira, que beirava mais para o coração vazio e pesado. “Sabe, eu não sei. Eu tinha isso bem definido na minha cabeça, mas hoje, eu não sei. Eu não consigo fazer e não tenho explicação para não conseguir fazer essas coisas. Eu me tornei uma ‘artista’ e eu fiquei conhecida, o que isso me trouxe, nesse momento, é uma distância que parece irreal entre eu e o meu vestido cafona, ou minha penteadeira guerreira. A liberdade me acompanha, eu acho, só que agora ela está tímida e longe da superfície.”
  Eu senti que aquela era a solidão falando mais alto. Nunca disse isso a ela. Eu não consigo parar de pensar no meu presente, no seu Jesus Cristo feliz. Sabe o que eu mais gostei da sua reencenação cristã? “A inocência?” Não, a mensagem. “Qual?”
  Foda-se a bíblia, foda-se a arte, foda-se tudo, vamos dançar.

Duas paisagens

  Nós criamos um mecanismo. Um que funcionava, para a passagem do tempo. Eu descrevo o que está diante dos nossos olhos, especialmente o que possui som, o que uma cega pode ver também.
  A paisagem mais descrita é a da janela do quarto. Um dia, nós estávamos deitados na cama e ela virou para o lado e iniciou uma descrição detalhada sobre o que se via.
  No desenho que ela já conhecia, tudo estava de acordo com as palavras dela. A casa vizinha, o jornaleiro. Um menino cantando errado; pequeno, de shorts. Enquanto falava, ela hesitou. Não quis dizer a cor da roupa dele para não correr o risco de errar. Senti que ia falar azul, eu não corrigi nada, não tinha nada errado no que ela via, exceto o que de fato estava além da janela.
  O sexo tornou-se um dia chuvoso de calmaria. Talvez tornou-se seja uma palavra equivocada, talvez revelou-se descreva o que realmente aconteceu melhor, talvez. O que acontecia era um abraço ao silêncio após as poucas gotas de suor.
  Acionávamos o mecanismo. E brincamos sobre o novo vizinho, um ator da globo que já era velho há anos atrás quando ele ainda fazia novelas. Um homem quieto e aposentado, nós tínhamos medo da sua solidão, ficávamos observando ele lavar o portão e a calçada com a mangueira.
  Ela tem uma grande capacidade de ficar prostrada, numa posição fixa, enquanto eu sempre fico com o braço dormente, quando ficamos parados. Sempre dormente.
  Os dias do calendário tem a pressa de um vinho suave, passam devagar até o momento em que já tinham passado muitos, dias demais. O garoto que às vezes aparecia pela janela cresceu. Nem usava mais seus shorts vermelhos, feios, inesquecíveis.
  O vapor do café aquece e umedece meu queixo e eu olho a janela numa tentativa prever a duração do nosso silêncio. Talvez o silêncio seja bom; talvez ela também não me fale que o que eu vejo está incompleto, talvez.
  Azul é a minha cor preferida.