Preto e branco

No espelho, um estranho me olha.
Em vinte e poucos anos,
vivi mais que o dobro do tempo.
O corpo mal se segura direito.
Me preocupo em não me preocupar:
Uma vez que você consegue o quer,
é então que se tem algo a perder.











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O sonho do carrasco

Todo dia
um olhar de perdição no rosto do filho de alguém.
Desolado, os passos lentos em direção ao fim
do corredor são tangíveis. Tão tangíveis
quanto a voz do martim-pescador cantando
na terra do fogo impiedoso. O sismógrafo
por trás dos seus olhos tenta desabituar-se
ao indigesto sol da tarde de
todo dia.

No cochilo durante a volta para casa,
ele vê todos os rostos que não pertencem mais
aos corpos de seus donos. Desgosto,
os dias passam em devagar sucessão mas ele sabe
que há muito mais cores
que se possa encontrar no preto
que apenas
o preto.

O carrasco sonha com paixão.
De qualquer espécie.
E faz amor –
amor de verdade –
com sua esposa,
alexitímico.






Soneto Preto

Fumaça e espelhos, o mágico faz a pomba aparecer e voar.
Diante dos meus olhos, sei apenas que não é real.
Meu coração tropeça sozinho na mesma canção, no mesmo bar,
porque eu cansei: do que já foi oceano, resta só o sal.

O aroma da grama recém-cortada é o cheiro da aflição da grama.
O agradável é um sofrimento que passa despercebido,
e o problema é gostar de sofrer como quem ama,
sem nem duvidar do que se ouve além do que foi ouvido.

Depois da ventania não-prevista, tudo já arruinado.
O músculo perde-se num labirinto de espelhos,
o passo hesita depois do que ainda não é passado.

Desolado, distante de todo tipo de conselhos,
a mente nos faz crer que não conseguiremos nada mais.
Diante do mágico, sei apenas que nós somos reais.