Decolores

de poesia;
de mulheres e o que realmente se passa na cabeça de um poeta;
criam cada mundo próprio,
criam cada sentimento de fora do resto do mundo.

saber a dor
que a agulha num disco do alan parsons project
causa na garganta de um homem sedento
por uma cachaça roxa do maranhão.

que o amor só existe quando estamos bêbados discutindo no bar,
fora de lá não há nada semelhante nem razão;

ver através das brasas dos cigarros
através do sonho acordado
dos olhos de homens com uma maldição
– nós todos.

que não há graça num sutiã intacto
nem na linha reta que se perde na bruma;
saboreiam a noite fria como se fosse gurjão de frango.

transformar um espelho em patíbulo;
o carrasco em amante
e a execução em sangue e mágica.

a única pena suja de tinta
que pinta amor
pinta o amor sujo,
onírico
e rebuscado
do caderno amassado, surrado, esquecido.

nos ternos pretos
vagando pela noite
um poste solitário ilumina
alguns escritores de verdade,

(obrigado).

Perto do fim

Quando cheguei, estava pensando numa garota que me chamava de andarilho nos nossos dezesseis anos. Um sujeito abobado deu-me boas vindas. O dono da pousada ouvia um bolero no volume máximo. Eu pedi um maço de cigarros e um isqueiro, depois um quarto. O dono era um sujeito grande e que me chamava de tricolor, apesar de saber meu nome e não meu time. Deixei tudo lá em cima e fui passear na enseada ali aperto.
  Enquanto caminhava com os pés sobre a areia úmida e o mar calmo, tentei pensar na estrada. Só consegui me veio à mente os eucaliptos e as músicas do Son House. Batia uma brisa agradável e os meus passos não pareciam me levar a lugar nenhum, mas quando olhei para trás, não havia nada atrás de mim. Nem à frente. Eu estava de fato me movendo.
  Eu não tinha mais dezesseis anos.

//

É como a folhagem de um sonho perto do fim explodindo em fogos de artifício.
(É assim?)
É. Cheio de momentos quietos em que a beleza parece um acidente.
(São momentos densos?)
Não, são leves, mas momentos.
(Como assim?)
Oscila, nos outros momentos há algo muito semelhante que é o barulho das coisas, um barulho denso, mas…
(Mas?)
É barulho e é denso, mas tem uma boa textura, não é ruim, é até…
(O quê?)
Até bom, sabe, às vezes. Equilíbrio, sabe?
(Equilíbrio é difícil, manter-se equilibrado cansa.)
Manter-se em pé cansa.
(É, mas se você for pensar mesmo, manter-se sentado também cansa.)

//

Você ainda tem algum cigarro?
Só um.
Posso?
Não, eu tenho essa mania de nunca fumar o último cigarro do maço. É a minha forma de combater o vício. Muitas vezes eu só fumo o último cigarro a caminho do lugar em que eu comprarei o próximo máximo.
Não faz o menor sentido.
Faz pra mim e é só isso que importa.
Não, você está sendo egocêntrico – deveria fazer sentido pra mim também, porque é a mim que você está negando um cigarro.

Não peguei o último cigarro. Rolei na cama. O braço em volta da cintura, puxei-a pra perto. Um beijo. Parei. Limpei o lábio dela, estava um pouco sujo de sangue, completamente rachado. Sentia na boca ainda o cigarro e agora o ferro — sangue.

Quer que eu pegue água?

Ela não respondeu. Mordeu um pouco da pele do próprio lábio. Havia uma fina película de sangue. Ela virou o rosto contra o travesseiro, fugindo do meu braço. Esfregou o pulso contra um dos olhos espreguiçando-se. Levantou metade do corpo. Olhou a cortina, fixou o olhar lá. A estampa xadrez, amarelo claro e preto.
  A chama azul contra o bule no fogão. O sentimento de preguiça e o chão frio como um choque no meu corpo. Fui no banheiro e joguei uma água no rosto. Me olhei no espelho, o rosto molhado, a barba desleixada, o cabelo bagunçado. Não, embaixo disso. Joguei mais água no rosto e o que eu estava vendo não era realmente o que refletia. Vapor. Voltei, botei a água fervendo na cafeteira. Ela ainda estava parada olhando para a cortina. A essa altura nem a via provavelmente.
  Pensei em dizer a ela que ela estava parecendo uma daquelas crianças que vêem fantasma. A idade das crianças verem fantasma é mais ou menos nove anos. E era assim, perdida no fantasma da cortina ela ignorava o café e o cheiro de café. Não disse nada no final, havia algo que eu não sabia explicar nesses minutos sem palavras. Algo bom.
  Servi o café. Ela pegou a xícara.

Ela abaixou a cabeça lentamente como quem diz obrigada.
(Silêncio.)
Com alguns movimentos de cabeça a mais elogiou o sabor.
(Silêncio.)

Estava sentada mais na pontinha da cama agora. Sentei do lado dela. Nós bebemos o café. O café mergulhou qualquer vestígio de nicotina ou ferro. Despertou qualquer coisa no corpo.

Acho que você seria uma boa japonesa.
(Risos.) Por quê, hein?
Bem, lá eles tem uma coisa chamada ishin denshin que é assim… É quase uma telepatia. Um japonês entende o outro sem muitas palavras, sabe? Inclusive isso é muito ruim para os estrangeiros porque às vezes eles só falam metade da frase e o resto é ishin denshin, telepatia.
Você esteve no Japão?
Eu morei lá alguns anos. Quando eu tinha vinte e poucos.

Peguei as xícaras, levei até a cozinha. Puxei a cortina e o sol fez cair a ficha: era um novo dia.

//

Nós estávamos andando há mais de uma hora na praia deserta. Ela me contou de uma tia. Tia Julia. Que ela era uma daquelas pessoas que tem a idade corporal e a mental em descompasso eterno. E certo dia, essa Tia Julia saiu com ela, foram a uma festa e então ela a ensinou a ver se valeria a pena ficar com o homem só pelos gestos corporais feitos a distância.

Acho que daí que vem esse meu… “silêncio japonês”.
(Ishin denshin.)
Isso.

A praia terminava numa grande pedra. Por ali havia um quiosque e meia-dúzia de pessoas nas mesas.

Acho que não é bem isso, vai além disso. Seu lábio cortado, você não deu a mínima. Como se andasse numa daquelas pontes antigas de corda caindo aos pedaços com toda a convicção do mundo, sem o menor medo daquilo despencar.
(Risos.) É mesmo? Mas o que fazer além de cruzar a ponte se só tem a ponte.
Quem disse que só havia essa ponte?

Ela riu de novo mas foi uma risada nervosa, irritada. Tirou do bolso um cigarro, o meu último cigarro. Pediu o isqueiro pra mim, eu cedi o isqueiro.

Roubou o meu último cigarro… E eu nem estava pensando em fumar, agora, vou ter que comprar outro maço.
Compre. Deixe de ser egocêntrico, eu queria fumar. Você devia pensar mais nos outros.
(Silêncio.)
Eu queria poder fazer algo por você.

Fiquei quieto, ela estava falando de algo longe de cigarros, pisando nas partes frágeis da ponte. Nos sentamos numa mesa de plástico amarela. Pedi o cardápio apenas.

Como anda sua tia Julia?
Eu não sei te dizer, você não a conhece para saber se ela está bem ou mal, você não acompanhou a vida dela.
Mas ela está bem? Ela escolheu um bom homem pelos gestos?
Eu sei lá, não encontro com ela deve fazer quase seis meses.

Era o barulho, o momento de agitação. Fazia sentido pra mim.

Desculpa.
(Silêncio.)
O Japão… como é o Japão?
Talvez uma ponte, talvez uma volta muito maior para chegar no lugar onde estou hoje.
Aqui?
É, aqui.

Os olhos dela cresceram virados pra mim ultrapassando uma fina cortina de fumaça que saía da boca dela.

Eu te odeio.
É?
Você fala metáfora demais.
É, eu acho que eu falo.

O garçom veio. Eu pedi uma água de coco e um maço de Carlton vermelho, ela pediu uma coca-cola. Depois concordamos em perdir uma porção de lula. Ela estava olhando para mim mas não estava olhando para mim, porque o meu rosto não era o meu rosto.

Amanhã… Amanhã, você faz quantos anos?
Vamos não falar sobre amanhã. Não quero que amanhã chegue.
(Silêncio.)
Mas você faz quantos anos?
Não sei, desde que cheguei aqui andei bastante a pé…
E?
Parece que eu vou fazer dezesseis anos.

É ainda mais difícil manter-se de pé em cima de uma ponte frágil. É mais difícil ainda tentar. Os dias passam e embora não pareça eu continuo me movendo. Amanhã… amanhã, longe da praia, eu não enxergarei nada atrás de mim. Nem à frente.

  

Um campo grande

A bola é fácil mas não há espaço,
é uma sinuca,
sinuca de pilastra.
Tudo que nos impede atrás da gente,
naquela bola fácil,
eu miro como se a mesa da sinuca não fosse
uma mesa, como se
sinuca não fosse um obstáculo;
a mesa é um campo, um campo grande,
onde quem corre
quer algo que não sabe que quer.
O campo estende-se e a tacada já ultrapassa qualquer bar,
qualquer fumaça, desilusão:
quem corre no campo
corre desesperado
querendo algo que não sabe que quer.
A relva noturna entre as garrafas de cerveja vazias
sabe da ave que voa da ponta do taco,
a pomba da paz
limpa
como os copos americanos —
hoje, não.
Na sinuca de pilastra,
minha tacada desajeitada almeja mais que a caçapa
almeja a carne apertada entre os dedos:
bato na bola branca para que ela encontre algo que eu quero
algo que é tão grande
que eu nem sei por onde começar. 

Dawn with Jesus by my side

I smoke a cigarette
Never lit by anyone
The smoke did not fly beautifully
Through my lungs and out of me
With everything I have
And leaving nothing inside.

I saw Jesus and he asked me if I believed in cancer.
I nodded and lowered my fake leather hat.
Jesus said to me that I was a wise man for the unlit cig.
He answered my silence with more silence,
The cold wind lashed the prairy somewhere around the area
And our tattered selves.

Jesus was a grimy man with dirty clothes.
We watched the dawn together half asleep by exhaustion.
He said to me that cancer was hard to believe, even if you have it.
I nodded and took the cigarette out of my mouth,
Blew air full of half emptiness and put it back.
He asked if he could have the cigarette.

I said why not.
But did not hand it to him.
And asked if he believed in cancer.
He said sometimes, but still found hard.
He took the cigarette out of my mouth and groped himself for a lighter or a match.
I said don’t look at me pal, I don’t have it either.
He smiled his Jesus loves you smile and told me not to worry.

I wanted to ask him what should I do with my life, but it sounded cheesy in my head.
So I kept it to myself and stared at him in silence.

A huge explosion happens then.
A fire started nearby.
A fiery horizon hurt my eyes
Incredibly.

Jesus said he gotta go.
I did not bid farewell.
He was already far with the unlit cigrette between his fingers
When, without stop walking, he turns and yells
“Love thyself and thy neighbour!”

I watched him go walking towards the fire for some time.
But I was tired,
Lied down on the ground,
Put my hat over my face and let the weakness spread throughout my body
Until I was sound asleep.

Revelações

As mãos da fumaça batem palma e abraçam
E a barba espetando apaga-se quando acende,
o absurdo e a coesão do ser,
A barba espeta, o beijo escorre garrafa abaixo,
estilhaça no chão: o genial e o imbecil,
os olhos envoltos de fumaça e cálculo—
Lá além da fumaça, entre os olhos e a nuca
(e não entre a nuca e os olhos):
tem uma guitarra, um cigarro e um caderno,
a depressão desmotivada às vezes,
eu me sinto um fantasma e eu fico triste
e paro de usar adjetivos de julgamento,
caio no mundo que não pode ser bonito,
caio ao contrário, numa nuvem repetida –
a sensação corta o meu barato,
mas dura pouco: a nuvem dispersa
e eu sigo o rumo das palavras em queda livre—
no espaço sideral o peito infla
e sem alguém, sem eu mesmo,
volto a considerar levar toda a gente a sério
e caio mais um pouco no meu corpo bêbado
rapaz, inconseqüente, inconsistente;
devaneio num solo virtuoso e violento
enquanto a fumaça me abraça
e me põe de volta no lugar.

Então, por um segundo eu quero escrever
exatamente o que escrevo e o faço
no fôlego de um adolescente que liga
para uma garota com planos na cabeça.
Sem olhar para trás, coração em metamorfose.

Não me canso de escrever sobre amor.

Nathália?

  E as pessoas foram embora aos poucos. Teve filme, teve foto, teve lágrimas. Teve a banda de novo (era fraca, o vocalista tinha um bigode de porteiro e voz de Papagaio). Uma tia se empolgou e começou a girar o sutiã no ar numa música do RPM. Eles tocaram todas aquelas músicas. I wanna hold your hand, great balls of fire, twist, tutti-frutti, dancing queen e por aí vai. No final, sobramos nós, sentados no chão, suados, com roupas frouxas. Uma pequena chama na escuridão e eu ofereço.
  Quer um cigarro?
  Ela aceita. As últimas pessoas começam a se despedir.
  Como vão seus comerciais? A pergunta me atinge de surpresa.
  Fiz um que você iria gostar.
  Nas moléculas da fumaça entre nós, aquele cara imberbe segura a morena magricela. O lençol da cama é azul e está no chão. Os gemidos dela, o barulho da cama e o homem faz uma careta. E eles param de se mexer.
  Que foi?
  Nada, é assim “tu-duh tu-duh tu-duh é titânio, é Zanic! Tããã Melhor do que ferro, alumínio, aço. Tu-duh tu-duh tu-duh Mais forte que o Titanic!”.
  Ainda não vi esse.
  Deve ter ido ao ar hoje, ou ontem.
  Um sopro cinza recria o sorriso do rapaz pelado, e o rosto espantado da menina. Que foi? Nada, acabei de pensar num jingle. Canta pra mim. Ele pega a guitarra e toca algo que parece um gemido e depois fala “é pra um comercial de camisinha” e ela ri.
  Mas as brasas caem no chão e eu lembro que não consegui achar as palavras corretas naquele dia, que poderia ter sido tão importante.
  Tô com a cabeça em outro lugar, tô pensando em algumas coisas…
  Ela olhou pra mim e perguntou como ia a vida em São Paulo.
  Eu prefiro o Rio, lá onde eu to morando tem engarrafamento demais.
  Me sinto, de fato, numa garrafa. E estão despejando vinho em mim, já está na altura da minha cintura.
  Ela disse que eu estava um pouco alto. Concordei com a cabeça e acrescentei: bebida de graça, graça. A maior graça dos casamentos.
  Quem diria né, que Poly & Luiz chegariam a se casar, quanta sorte, né?
  Eu respondi que não se tratava de azar, mas sim de convicções. Slogans. Você olha para a sua namorada e vem a sua cabeça: viva uma vida confortável ao lado da sua mulher. Casamento é a palavra chave. Seus amigos vão te achar um máximo e a sua mulher será super feliz! Quer ficar pra sempre com aquela que abala o seu coração? Case-se já!… Sabe, esse tipo de coisa que as pessoas idealizam. Entenda melhor. Qual é a filmografia da sua vida? Se você gosta de filmes com gente casando, você casa. Você é propriedade da sua mulher.
  Deixa de ser machista, homem!
  Eu, machista? Só to dizendo que não se trata de sorte.
  Ela discordou de novo e explicou: Tem países em que as pessoas são casadas no nascimento, sabia?
  Besteira, eles não tem solteironas de 30 anos lá. Você terá azar se nascer, ao invés de gente, porco. Eles não têm capacidade física de olhar para o céu. Imagine viver sem esses pontinhos luminosos.
  Ela sorriu com a cabeça virada para o chão.
  E aqui no Rio, como está tudo? Eu devolvi a pergunta dela.
  Tá tudo direitinho, no lugar. Acho que a maré está pra virar, as coisas vão melhorar agora, eu sinto.
  Você sente? Seria minha presença?
  Deixa de ser bobo.
  Caviar, meu bem,…
  Não me chama de Caviar.
  Eu sou um prêmio e você é um achado! Não existem mais mulheres boas como você por aí… Nathália.
  Desde quando Antônio, o homem que mais preza por liberdade no mundo, está interessado em compromisso?
  Eu joguei o cigarro fora, uma rajada de vento levantou minha franja, e na escuridão do fim de festa eu respondi: você sabe.
  Algumas pessoas passaram e se despediram de nós dois. Abraços e sorrisos e atés. O silêncio se instalou. A banda já havia tirado todo o equipamento. Eu falei que ela tinha engordado.
  Nathália riu e respondeu Você não aprende mesmo né? Só se deve comentar se for alguma coisa boa!
  Balançando a cabeça, eu repliquei Não, eu digo as coisas quando é verdade.
  E aquele era o momento perfeito, eu busquei as palavras. Mas quando o cara de bigode de porteiro e voz de papagaio pôs a mão no ombro dela eu me dei conta que eu nunca soube aquelas palavras. Ela o beijou e se despediu de mim. Eu fiquei quieto e acenei. Não sei como estava o meu rosto no momento, acho que meus olhos brilhavam na escuridão. Uma fina película aquática. Os recém-casados não tinham ido embora – iam viajar em lua de mel no dia seguinte, a tarde. Luiz veio falar comigo.
  Tudo bem, cara?
  Acho que sim, eu respondi.
  Abaixei o tom de voz e perguntei se ele gostava do filme 4 casamentos e 1 funeral. Ele disse que sim. Eu nem precisei perguntar se ele amava a Poly, isso, essa informação inútil, eu sabia.
  Era uma vez um garoto idiota e seu melhor amigo inteligente. Luiz ficava nervoso olhando para uma menina numa mesa perto da nossa. Eu disse a ele que ele arranjava coisa melhor, mas o rapaz estava bem determinado. Então, falei pra ele ir lá e chamar ela pra dançar ou conversar. Ele ficava repetindo: Talvez a gente poderia dançar… Talvez a gente pudesse dançar…. Talvez a gente… Luiz parou a uma mesa dela, fechou os olhos e deu o passo seguinte repetindo o que iria dizer. De repente, bateu numa garota bonita. Ela ouviu o que ele disse, mas perguntou “Desculpe, o que você disse?”. Mais branco do que nunca, o garoto idiota de 21 anos responde “Talv… É… Dança. Dançar?” Eles dançaram.
  E foi assim que eles se conheceram. Os felizardos marido e mulher. Parece até filme.
  Nostálgico esse final de festa, né?
  Não respondi.
  Lembrei de muita coisa que a gente passou junto, lembrei também de quando eu conheci a Poly.
  Eu abaixei a cabeça com um sorriso ligeiro no rosto. Lembra quando eu fui pra Sampa?
  Lembro bem, o diretor geral adorou seu jingle para o comercial da camisinha…
  É.
  Me lembro daquela folha com o espaço para a minha assinatura. Aquilo foi feito às pressas, o diretor precisava de pessoal urgentemente na matriz paulista. E eu, precisando, aceitei.
  Você teve que ir…
  É.
  Você acha que a Nat…
  Não sei, eu nunca consegui falar o que eu queria pra ela.
  Uma chama e eu ofereço a ele.
  Quer um cigarro?
  Não, a Poly me fez parar de fumar e tomar café, depois do clareamento dental.
  Ah, certo.

  No dia seguinte, eu senti uma angústia inexplicável. A culpa, de quem era a culpa. Acendi um cigarro e, ainda sonolento, pensei como era difícil não ter quem culpar, nem quem se desculpar. Traguei o cigarro com paixão. Olhei pela janela o dia cinza. Foi quando eu tive uma idéia para um novo jingle.

[c. 09/12/08 – t. 06/05/12]
 –