Quando acordei puta

 

  Acordei puta, porque tinha sonhado que acordava e ia pra aula e agora ainda to aqui na cama. Levantei, me vesti rápido demais, como se ainda tivesse num sonho e parei e comi direito. Era o primeiro dia de aula. Estranhamente, eu nem tava nervosa. Fui e escovei os dentes. Tirei direito as remelas, não estava com olheiras, tudo direitinho. Passei o lápis de olho, o resto da maquiagem num segundo e logo, eu já estava no colégio.
  Abracei muita gente que eu não via faz tempo. Nem vi caras novas. Quase chegando na sala, o Gustavo parou e veio falar comigo e falou que eu tava linda. Meu mundo parou. Meu coração começou a bater forte. E então, um barulho. Que raiva desse despertador. Acordei puta, porque tinha sonhado que tinha sonhado que acordava e ia pra aula e o Gustavo…. E agora ainda to aqui na cama.
  Odeio ter uma imaginação subsconsciente fértil demais.

 

Apague a luz quando chegar

 

  Em dias de lucidez quase absoluta, como hoje em que lhe escrevo, consigo sorrir quando encontro suas sementes pela casa. Se fosse há dias atrás, teria queimado amassado, engolido todas elas, chorando com a força e intensidade que só a raiva proporciona.
  Em dias de lucidez, como hoje em que lhe escrevo, abro a caixa com as memórias coletivas e revivo cada cor das fotografias.
  Em dias de lucidez, como hoje em que lhe escrevo, penso que é bom viver, sabendo que é perigoso sim, mas que vale a pena. Sempre e tudo.
  Em dias de lucidez, como hoje em que lhe escrevo, posso acreditar que os momentos e pessoas têm validade (mesmo que indeterminadas) e justamente por isso são agradáveis.
  Em dias de lucidez, como hoje em que lhe escrevo, sinto a natureza mais próxima, o vento cúmplice e o sol confortante.
  Em dias de lucidez, como hoje em que lhe escrevo, silenciar a mente é a tarefa mais fácil do mundo.
  Em dias de lucidez, como hoje em que lhe escrevo, gosto de pensar na minha vingança: perdoar-te.

  A maior vingança é o perdão.

 

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A Viagem

 

  Moço, esse ônibus passa na rua…

  As viagens de ônibus sempre a faziam pensar, mesmo nas coisas que não queria. Mas na viagem de hoje, os pensamentos foram realmente bons como há muito tempo não eram. Por vezes, as coisas fugiam de sua cabeça e ela prestava atenção no que acontecia à sua volta, só para se localizar. Ela sempre se perdia com muita facilidade, então piscar às vezes era perigoso. Aluada do jeito que estava o perigo era três vezes maior.

  Ela começou a rir das pessoas estranhas que passavam na calçada e gastou muito tempo tentando imaginar o que o menino, que dormia ao seu lado, estava sonhando. O sono dele era tranquilo demais. Tranquilo como o seu não conseguia mais ser. Ela nunca achou a insônia pudesse ser divertida. Era ótimo não ter que perder tempo dormindo. Ela gostava de ficar olhando todas aquelas coisas novas e a pessoa que em geral dormia ao seu lado; um outro menino muito diferente daquele.

  As coisas em sua cabeça estavam variando rápido. Numa hora ela estava ali dentro do ônibus olhando tudo ou tentando descobrir o que se escondia atrás das pálpebras do menino desconhecido. Em outra ela estava pensando nos trabalhos que tinha para fazer. E logo depois na noite anterior. Não importava. Todos os pensamentos acabavam sempre na mesma coisa. Ele conseguia se enfiar em tudo que estava na cabeça dela. Era irritante e, ao mesmo tempo, engraçado. Bom. E feliz. De certa forma era como se ele passasse todas as horas do dia com ela, porque ele estava sempre ali.

  E a viagem continua… E ela está indo para algum lugar…

 

Tempo pra escrever

 

  O vocalista do Pearl Jam, Eddie Vedder, revelou em entrevista a BBC que não perde mais do que 30 minutos para escrever suas letras.
  O músico admitiu que já perdeu muito tempo para compor, mas que com a experiência, sabe que se alguma letra demora mais do que meia hora para ser produzida ou pelo menos elaborada, é porque é uma idéia que está tomando o lugar de outra melhor.
  “Por já escrever a muitos anos, muitos discos e por diferentes razões, não consigo demorar mais de meia hora em apenas uma letra”.
  “Se as coisas não acontecerem rapidamente, eu não faço. Porque isso significa que há alguma outra coisa que seria feita de maneira rápida e que o atingiria como um raio”, explicou Vedder.

[link da notícia acima] – vi no comentário do Fábio numa tirinha do (magnífico!) RYOTiras!
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  Acho que ninguém precisa que eu explique que Eddie Vedder é o cara, né? E eu acho que ele tem toda a razão nisso aí! É quase uma dica que eu do, pra quem gosta de dicas: não demora muito pra escrever. A maioria das coisas que eu escrevo surgem de uma idéia e muitas vezes eu começo a partir dessa idéia (geralmente o final da história) e depois escrevo o resto rapidinho, antes que mais pensamentos venham e me confundam e me façam travar a história.
  E eu não “inventei” essa teoria de escrever quando vier, de escrever rápido. Eu nem sabia que o Eddie Vedder (um dos meus ídolos) fazia assim – embora suspeitasse, porque tem uma música dele que ele escreveu numa viagem curta de carro e depois disse que se a viagem fosse maior a letra teria sido mais elaborada… -, mas um poeta que eu gosto pra caralho me ensinou isso: Octavio Paz [tá, o link que eu tinha, está corrompido agora...], bem, não tenho como comprovar, mas pelo que me lembro de ter lido, ele escrevia em poucos minutos seus poemas pra dar rítmo à poesia, pra parecer vivo ainda. Posso estar errado e ter inventado isso (já que o link não funciona…), minha imaginação é muito fértil.
  De qualquer jeito, fica essa dica, não importa, eu, vedder ou paz, escrever rápido dá uma vivacidade ao texto e capta o principal ponto do insight que você teve ao botar rápido no papel (ou computador…). Claro, não é nada obrigatória, é só uma dica pra muita gente – seja escritor ou sei lá, engenheiro. Os erros, as imperfeições, ficam pra ser corrigidas depois.
  Com esse pensamento, eu, J.D. Crespo pretendo escrever um livro em um mês (a vontade é toda minha, mas a inspiração veio do NaNo). Esse site estimula que pessoas escrevam romances de 50.000 palavras em um mês – não precisa ser obra de arte, o mês seguinte é pra revisão e edição. Eu sempre quis escrever meu romance, tenho duas grandes idéias (sendo uma delas, entítulada “Doce Declínio”) e a partir disso, peguei o mês de fevereiro pra escrever o meu romance – Chuva dos Sonhos.
  Demorei um pouco pra começar, mas agora acho que engatei. Só escrevi 2000 palavras em três dias, mas estou cada vez mais inspirado e entusiasmado. No entanto, o blog ficou meio de lado por causa disso, né… Mesmo que rápido, é difícil tirar minha cabeça da minha grande história. Então, meus leitores (haha, Fernanda H.! Outros Colunistas! Gabriel M.! Lucas L.! E você aí!) não esperem muito por aqui nesse mês não… Ainda vai ter bastante coisa dos outros colunistas eu espero, mas o que eu quero mesmo é escrever esse romance! Então, beijos e abraços e até março com o livro pronto!

   

Carta [não] resposta

 

  Ao abrir a porta, uma hesitação da madeira: o envelope branco com margem listrada verde-branco-amarelo travou sutilmente o deslizar da porta no piso de taco. Assim que vi as letras em tinta preta e parecidas com a grafia do pessoal da área médica, generalizando cruelmente, soube que era sua.
  Meu coração acelerou. Finalmente uma resposta. Que vontade de fazer xixi, tomei chá o dia inteiro no trabalho. Minha mãe e seus chás. Tive que cometer a heresia de ler-te enquanto sorria com o alívio imediato. Tão bom quanto um espirro contido, tão bom quanto um pedaço de fruta no verão.
  Não me concentrei na carta. Apoiei o envelope com ela dobrada em cima, na pia, enquanto terminava a prazerosa atividade fisiológica. Lavo as mãos para pegá-lo novamente. Agora sim ele me dizia:

  Clarice, minha pequena,
  Perdoe-me o silêncio. Ele tomou conta de mim desde a nossa despedida e só hoje consigo me abrir, uma fresta só, para poder lhe falar. Sei que lhe devo.
  Além do silêncio, foi a confusão toda em que nos metemos. Os dois. Você, certa de tudo, com os dois “pés na jaca”, me puxando. Fui. Mas parei do meio do caminho. Nunca escondi isso de você. Não sei direito como explicar o que eu penso ou sinto sobre isso tudo… Você tem certeza que virá? A minha franqueza me maltrata, mas sou homem de palavra e o combinado foi dialogar sempre. A sua coragem para viver suas paixões…Você mergulha de olhos fechados. Sempre sorri assim?
  Talvez você não venha em boa hora. E ao mesmo tempo, quero tanto poder saber como é a sensação de reencontro, de promessa cumprida. Você me assusta cada vez mais. É tão decidida e autêntica! Ao fechar os olhos, imagino nosso abraço.
  Acho que a realidade está distante disso. Meu trabalho reiniciou me desafiando ainda mais nesta etapa de conclusão de projeto. Eu não tenho tanto fôlego quanto você e me entristece lhe ver adubando a hora sozinha. No meio do caminho, reencontrei velhos amigos. Estou contente novamente, ao melhor no espelho diariamente.
  Lembrei de você noutro dia. Alguém estava com “Céu em fogo”, do Sá Carneiro, idêntico àquele que me fez levantar a cabeça para ver quem o lia, no museu. Com um vestido grafite, você.
  Não tenho mais o que dizer. Pense sobre sua vinda, talvez paixões não valham tanto a pena como você acha. Mesmo eu sabendo que no fundo, nada te impede de vivê-las, mesmo na solidão.
                                                                                                                          Um beijo carinhoso,
                                                                                                                                                Gustavo

  Os homens são bons em sínteses. Se for questão de gênero, cultural ou só o Gustavo mesmo, depois eu penso nisso. Gosto disso. Ele decorou suas palavras, com aquele jeito doce o que queria me dizer. Gosto do seu caráter, de ser “homem de palavra”. Embora me recuse por fora, vou parar para refletir sobre os nós.

 

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Ex-Tia de Artes

 

  Acho que nunca falei de mim aqui, embora todos os escritos anteriores sejam reais, com algo de invenção, meu irmão reclama e tal, mas enfim. Acontece que tenho 23 anos e sou ex-professora de artes. É que na escola onde eu dava aula resolveram trocar as artes plásticas pelo teatro. Eu já previa, semana passada passei lá e a minha sala já não existia mais-puseram uma parede no meio.
  Eu nunca fui uma defensora da ordem no colégio, sempre tive que brigar muito pra fazer as coisas do meu jeito. Ou fazer na marra mesmo. Acho que meu dia preferido, foi quando fizemos um bloco de carnaval, o Bloco do ‘22’. Passamos um bom tempo arquitetando tudo. Um boneco de Olinda inteiramente construído pelos alunos, com roupa costurada a mão e tudo, estandarte, música própria- que foi mais uma mistura de trechos de músicas que eles iam cantando livremente enquanto eu e outros alunos montávamos no quadro. Na data escolhida, eles pegaram panela e utensilios da cantina e mais outras coisas, coisa que aluno sabe fazer é barulho. Quanto a isso não tivemos problema. Foi briga pra entrar no boneco que acabou que ficou cada um, um pouco, que teve tanta confusão na escolha do nome que acabou sem nome mesmo. Começou tímido, mas com uma boa puxadora, logo muitos já estavam cantando várias marchinhas. Depois de uma volta na escola e acabar com todas as aulas do andar térreo-pelo menos- o Bloco terminou meio a contra-gosto de todos, comigo levando esporro da professora de matemática na frente de toda a turma do Bloco, a sétima série. Achei o máximo.
  E tantas outras histórias, os videos feitos com celular, a homenagem a Hélio Oiticica, defumar a escola inteira numa aula de fotografia com incensos, modelos vivos inquietos, as performances, as pinturas gigantes do lado de fora e a corrida por causa da chuva…
  Acho que nunca quis muito preparar meus alunos pra escola. Aqueles cartazes didáticos, carteiras arrumadas, silêncio. Que chatice. Pensava o tempo todo no mundo imenso que eles ainda não tinham visto. Foi pensando assim que levei minha primeira turma de terceiro ano pra Escola de Belas Artes, EBA pros íntimos. Aquela coisa gigantesca, uma cidade universitária. Os ateliês… modelo vivo pelado (Ô), saíram de lá com cara de futuro, e ainda planejaram todas as suas aulas de artes dali em diante, queriam fazer tudo, adoraram tudo, eles que eram até meio apáticos por causa do vestibular, ó, terrível.
  A gente conversou muito também. Aulas inteiras sobre sexo, aborto e vida. Nem sempre foi eu quem ensinei, admito e admiro isso neles. Quando não dava pra dar aula fazia respiração de Yoga ou colocava Villa Lobos, e eles pintavam tudo que sentiam ao escolher as cores. As bachianas numero 2 e vinham os marrons, os verdes e os vermelhos…
  Levei café, cacau em pó, tangerina, meia do meu irmão com queijo ralado dentro, orégano, wasabi. Aprendi que pra criar é preciso ter todos os sentidos aguçados, só não esperava que misturassem tudo e provassem, e nem que resolvessem pintar com detergente logo depois.
  E quando o olhar ia além eu delirava. Quero que as pessoas vivam em escala aumentada, por isso sempre briguei por murais e mesmo sem nunca conseguir, nunca deixei de permitir isso aos meus alunos, criar em escala aumentada. Acho que o mais díficil daqui pra frente vai ser deixar de ver essas cem pessoas crescendo e ver seu caráter sendo moldado em cada conversa e a cada dia. É verdade que já via esse trabalho como temporário. Afinal que tipo de insano ou mágico sobrevive ganhando sete reais a hora
  Confesso que foi difícil terminar de escrever, os olhos ficaram muito embaçados, o nariz muito entupido e os pingos borraram todo o caderno, isso porque nem falei dos outros professores loucos como eu, acho que é pesado demais levar tudo, pra uma tia só. Além do mais, quem sabe agora, o futuro é grande e espaçoso…Sei lá de repente abrir um curso livre de artes? É…
  Acho que viciei.

 

Quando a repetição acaba

 

  Ele poderia ficar sentado ali, observando as estrelas, ouvindo as músicas de sempre e pensando. Era um costume, fazer isso, com o discman, o cd no repeat all. Quieto e tímido, S. nunca foi de sair, nem bebia, nem fumava, nem usava droga nenhuma. Aquele simplesmente não era o tipo dele.
  Os garotos do prédio (e algumas garotas) passaram por ele na portaria “meditando”.

Ei, seu nome é… S…, né?
É, porque você não vem com a gente?
Isso! Isso! Vamo!

  Ele apenas fez que sim com a cabeça e sorriu, disse “pode ser”. A verdade é que aquele pessoa era bastante animado e sociável, acolheram ele pra dentro do grupo. Eles foram pro apartamento de um deles, botaram uma música.

Só falta o ingrediente secreto.

  Ofereceram uns quatro comprimidos pra ele. Ele rejeita com a mão, fala “não, melhor não”. A garota, a simpática que falou com ele primeiro, ela pega na mão dele e fala “Fica tranquilo, é só analgésico. Nem faz mal, só deixa doidão” e riu.

Ele responde Então tá e sorri e toma os quatro comprimidos de uma vez.

  A garota faz o mesmo e puxa ele, Vem dançar. As pessoas dançam e sem nenhum motivo aparente, tudo parece mais divertido. Eles riem. Linhas aparecem e as coisas começam a ficar mais lentas, S. se sente como se ele estivesse em slow motion, no meio de uma chuva de linhas de luz.

Ih olha! Já fez efeito em você.

  E logo faz nela também e em mais algumas outras pessoas. E eles ficam olhando para pontos no teto e falando em voz alta suas alucinações: Eu to vendo uma chuva amarela de linhas de ouro. Ela ri e fala, Legal, S… – eu vejo as coisas travando, igual a um video de youtube. E eles nem riem mais, estão lá num transe.
E então, ela puxa ele e beija na boca. Com 17 anos, o primeiro de língua dele. E é bom e o beijo e o barato e tudo é bom.

  A música nem chega mais aos ouvidos dos dois.

  Ele pára depois de um tempo de viagem. Fala, já no espírito do analgésico: “Eu preciso fazer isso!”. E pega seu discman e põe o único cd que ele ouviu pelos últimos três anos. A garota simpática sorri e pergunta: acho muito diferente, um discman. Quê que cê tá ouvindo?, ele responde automaticamente: Air.

Não conheço.
É fantástico.

  E eles riem e beijam um beijo longo, como se tivesse parado de carregar o beijo na metade. A chuva de fios dourados vai diminuindo. Mas está tudo ótimo. E então, ela esbarra no discman e ele escorrega e cai no chão. Pra piorar, ele mesmo pisa sem querer e quebra o cd dentro. Eles riem. “Agora, você pode comprar um ipod”. Ele fica um pouco abalado, não tem mais sua música.

  Mas eles voltam a se beijar e eles tomam mais comprimidos e essa vira a melhor noite da vida dele…
  …E a pior manhã. Vômito. Mãe preocupada. E um pouco de dor de cabeça.

  No entanto ele se lembra das coisas. E gosta do que lembra. E liga o rádio, põe pra tocar uma música animada qualquer. E vai tomar banho.

 

Para parar de fumar

 

  Selo no braço, mas cigarro no bolso. Para não fumar, Sérgio bebia umas cervejas, sentado sozinho numa mesa de bar. Futebol na televisão, bastante gente lá. E ele não fumava. Ótimo. Tudo ocorria bem até que…
  Ele avistou uma linda mulher, loira, lábios carnudos. Olhou para sua cerveja, seu reflexo solitário, e pensou: por que não? Então, tentando parecer simpático Sérgio voltou seus olhos à moça. Tudo ocorria bem até que…
  Aquele rosto apareceu claramente em sua memória: era Gisele, a mulher do Diego, seu irmão. A imagem daquele cigarro apareceu na sua cabeça. É melhor ficar perto de alguém. Mesmo que seja a mulher do meu irmão. Ele foi até lá. Tudo ocorria bem até que…
  O celular tocou. – Alô. – Alô. – Opa, e aí tudo certo Diego? Ele estava quase chegando na mesa dela. Tudo ocorria bem até que… – Na verdade não, Sérgio. – Ah é, o quê que houve? Ele até parou de andar. Tudo ocorria bem até que…
  Um homem negro e corpulento sentou-se na mesa à sua frente, a mesa de Gisele, a mulher do irmão. – Cara, eu descobri uma coisa horrível… Sérgio ficou um pouco aliviado: é, já sei, já sei. Pelos menos ele sabia que estava sendo traído. E além do mais, Sérgio sempre achou que ela tinha uma cara de adúltera. Tudo ocorria bem até que…
  Gisele avistou Sérgio e fez um gesto para que ele se aproximasse. O negão se despediu dela, cumprimentou o homem ao celular e foi embora. – Ô Diego, é você me ligar depois. Tudo ocorria bem até que…
  - E aí, tudo bem Sérgio? Na cabeça dele, tudo se encaixava e ele estava decifrando a mente daquela loira maquiavélica. – Tudo… e você, tudo em cima? Ele estava impressionado: como as mulheres poderiam ser tão… falsas. – Tudo ótimo. E ainda tem cara de pau. Conversa vai (eu soube que você tá tentando parar de fumar, é verdade?), conversa vem (é…). Tudo ocorria bem até que…
  Sérgio resolveu o quebra cabeça. “Era isso! Diego sabia que ela estava pondo chifres nele e vai largá-la. Ela não sabe que o Diego sabe. A Gisele percebeu que eu a encontrei com o… amiguinho dela. É isso, ela quer dar pra mim, por que aí eu deixo de ser testemunha e viro… uma espécie de amante. Eu não vou fazer isso com meu irmão…”. Tudo ocorria bem até que….
  - Oi, Sérgio, você tá aí? – Me desculpa, eu me distraí com meus pensamentos… Os olhos dele não desgrudavam daqueles lábios carnudos. O diabinho e o anjinho surgiram ao redor de sua cabeça. “Mas ela é a mulher do seu irmão..” dizia o bichinho de auréola. O outro respondeu “Era. Agora, você precisa fazer o preciso para parar de fumar” e acabou com a discussão. Ele então estava decidido a levar a moça Gisele pra cama e começou um papo mais sedutor. Sérgio era mestre nisso. Tudo ocorria bem até que…
  - Ei, que tal a gente ir lá pra casa?. Ela assentiu com a cabeça. Tudo ocorreu bem. Mais que bem. Foi ótimo. Ela virou para o lado para descansar um pouco, ele sentou-se nu na cama. O remorso atingiu-lhe em cheio. Tinha sido um escroto com o irmão. Maquinalmente pegou um cigarro e um isqueiro na cômoda. Hesitou, pensando “tenho que parar de fumar.”. Tudo ocorria bem até que…
O celular tocou. – Alô. – Alô… A gente pode falar agora, Sérgio? Seus olhos percorreram o corpo de Gisele e ele respondeu: Claro, claro. – O que eu tava dizendo antes era que eu descobri de tudo. Você já sabe né. Eu to aqui na casa da mamãe e achei dois maços de cigarro no lixo, você não falou que ia parar? – É… Eu… Eu… Sei… Foi mal. Seu coração disparou. – Ei, você sabe onde tá a sua mulher agora? – Ah, ela foi combinar o orçamento com o cara da dedetizadora no bar, a gente ta cheio de cupim lá em casa. Se ela já acabou com isso deve estar em casa. Por quê? – Ah tá. Não, nada. É que eu achei que tinha visto ela no bar… – É, ela devia estar lá mesmo. – Certo. É… Bem, eu vou parar de fumar, não… Não se preocupe meu irmão.
  Sérgio desligou o celular. Pegou vários cigarros e pôs na boca. Acendeu todos. E praguejou silenciosamente para si mesmo: puta que pariu.

[29/03/09]

 

Carta

 

Gustavo,

  Que saudades eu tenho sentido. De você. Das conversas. De nós dois no seu apartamento. Do rio. Mal posso esperar para chegar aí. Conversar. Tomar chá e dividir o céu estrelado.
  Ontem cheguei da casa da Anna. Passei uma semana com ela, acho que não havia te contado que ia até lá, né?! Cidade de interior, menor que aqui. Imagina. Nada ou quase nada para ver além daquela maravilhosa paisagem natural que beira a cidade. Foi muito bom voltar lá. Fazia quatro anos que estivera lá, com um amigo. Ele não conhecia e combinamos de passar um dia inteiro. Saímos daqui numa noite e chegamos cedinho para aproveitar. Fizemos piquenique no fim da tarde, lá no Parque Nacional mesmo. Maio. O pôr do sol foi lindo, noite fresca. Lua cheia e retornamos pra cá.
  A Anna está ótima. Mandou-lhe lembranças. Foi bom para ambas o reencontro. Foi saudável. Ela gostou de me receber por lá, visto que está naquela fase de adaptação de nova cidade, sentindo-se sozinha e um pouco deslocada… Você sabe bem como é isso.
  Senti uma vontade de ter você junto desta vez por lá. Vi cada coisa… Pessoas, árvores, nuvens coloridas… Silêncios e sabores. Por isso vim escrever. Pra ver se encurto um pouco a nossa distância… Quando eu não quero é quando eu penso mais ainda em nós dois. Estou presa ao sentimentalismo. Esses dias em recesso, sem rotinas, me deixou assim. Semana que vem, os pensamentos se diluem, nesta concreta metrópole. E quando for ver o calendário, estarei chegando por aí.
  Antes de me despedir nesta, quero contar que achei um vinil na casa da Tia Jasmim, do Clube da Esquina! Ela me deu de aniversário, depois que eu contei que o Trem Azul embalou o início da nossa história. Ela ficou emocionada e disse: “leva pra casa de vocês”.
  Sem mais, Milton, seus amigos e eu, estaremos na sua varanda daqui a exatamente treze dias.

                                                                Um beijo na ponta de seu queixo,
                                                                                                               Clarice.

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De volta

 

  A gente não pode prever a saudade. Ou pode?
  Saudade de requeijão com pão, banho quente, um colchão, as briguinhas da mãe, a mãe cutucando o irmão e os dedos no piano. É porque antes estava tudo ali, irmão no piano, mãe no sofá, requeijão na geladeira, até as histórias nonsense como a do cara que tem 5 camisas do Vasco e não tirou até o Vasco voltar pra primeira divisão que o pai conta- mil vezes, até dessas histórias tive saudade.
  Essas pequenas rotinas, catar o jornal da semana toda espalhado pela casa e guardar só o Segundo Caderno e a Revista de Domingo pra ler depois, seriado ‘enlatado americano’ na tv, as cartas pra reler, a casa.
  E a rua? Depois de um mês longe de casa andar pelo Rio é um risco. É risco de ser engolido pela memória, é risco de esbarrar em samba e sorriso, e o Rio em Janeiro não decepciona, é carnaval engatilhado, marchinhas, ensaio de escola de samba no sambódromo e até bossa nova. Tudo ao mesmo tempo.
  Coração de maracujá que tenho, adocicado e até meio azedo, quase choro. Olho os Arcos ’Vem meu novo amor ôô os jardins estão florindoo’ uma bêbada cantarola destraída, e num tchauzinho pras pessoas lá em cima no bondinho, me delicio. Baixo os olhos pro sorriso mais largo que existe e já prevejo uma saudade.
  Ou prever já é sentir?
  Sorriso é coisa de encantar mesmo, penso. Vivo demais, sinto muito mais do que devia. Eu que acabei de voltar pra cá, já me morro de mais saudades.

 

Monochrome

 
  Essa vida agitada de férias… Fica a dica então de:

Uma música:

Um conto:
O Cobrador

Um filme:
Jerry Maguire

Um livro:
O Perfume, Parick Süskind

Um vídeo:

!

O Letreiro

 
A: A gente sentando aqui, nessas pedras, de noite…
B: Pare de falar desse jeito gay. (risos)
A: Não, cara, sério, tá me lembrando de um conto da Lygia Fagundes Telles.
B: Porra, Lygia Fagundes Telles, não tem tipo uma novela baseada no que ela escreveu?
A: (risos) É, acho que tem…
B: Ciranda de alguma coisa.
A: É, é, da globo pelo menos.
B: E daí? É novela das seis, é uma bosta.
A: Sei lá, a Lygia é famosa, você queria o quê?
B: Ah! Nem vem. Rubem Fonseca é famoso, mas não tem novela da globo com conto dele.
A: Mas tem série da HBO.
B: Então, muito melhor! (risos) Ei, me promete uma coisa.
A: Fala.
B: Nenhum conto ou livro seu vai virar novela.
A: Tudo bem, mas vai pensando baixo, eu só tenho um blog.
B: Mas você escreve bem, de verdade. (silêncio)
A: Eu tava falando de alguma coisa…
B: Do conto da Lygia Fagundes Telles que você lembrou.
A: É, isso. Bem, a gente aqui, vendo só parte daquele letreiro, me lembrou mesmo.
B: Como é o conto?
A: São dois amigos sentados num lugar assim e eles só conseguem ver parte de um letreiro.
B: Não compare nós dois com esses dois. Nossa amizade é incomparável. Você é meu irmão.
A: (risos) É, é.
(silêncio)
B: E eles ficam olhando e quê que acontece?
A: Não sei nunca cheguei a ler o final.
B: Como assim?
A: Comecei a ler o conto e parei.
B: Porra e como você lembra dele?
A: Eu queria ter terminado de ler.
(silêncio)
A: Não tenho conseguido escrever, me sinto um grande mentiroso.
B: Como assim?
A: Não consigo, sabe? Quando eu escrevo, eu invento, as coisas não soam verdadeiras.
B: Pra mim elas parecem verdadeiras, você escreve bem.
A: É, mas a diferença é que quando “A” fala, de algum jeito, eu, o escritor, isto é, ele, “A”, já sabe o que “B” vai responder.
B: Não entendi porra nenhuma. Já disse, parece verdadeiro pra mim.
A: Mas não parece verdadeiro pra mim mesmo.
(silêncio)
B: Então, escreva a verdade.
A: Não consigo, são mundos tão diferentes e eu não consigo.
B: Misturar faz mal (risos).
A: (risos) Pois é, pois é.
B: Mas, sério, porque você não escreve, sei lá, essa conversa nossa, porque não transforma ela em uma de suas histórias?
A: Eu vou, na verdade, eu já transformei.
B: (risos) É? E qual é o problema?
A: Os personagens são fictícios.
B: Ah… É?
A: É.
B: Eu não sou fictício, eu não me sinto fictício.
A: Mas você é. Não existe nem um letreiro no horizonte.
B: Existe sim, aquele ali, com seu nome, você: a grande estrela.
A: (risos) Cala a boca.
B: (risos) Vem calar.
A: Você que pediu.

FIM

droga.

Plural

 

  Ele correu da chuva e chegou à porta dela. Não havia nenhuma luz acesa, ela devia estar em outro lugar, um lugar que tivesse mais oxigênio. Ele tirou o casaco molhado e sentou-se encostado na porta, tentando respirar.
  Ela estava sentada no chão, de frente para a porta, esperando alguém. Não, esperando ele. Mas os dois não pareciam estar muito seguros, essa casa, esses sentimentos, são muitos alçapões.
  E então, eles passaram a noite juntos, em coração e em realidade. Estavam à menos de um metro um do outro, mesmo assim não se tocaram. Havia algo atrapalhando, uma camada que não deixava um tocar o outro.
  A porta fechada?