Ode ao neoliberalismo

Quem é que precisa de um terno,
senão quem já possui outro terno.
Quem é que precisa servir,
senão quem precisa de ajuda.
Hayek sabia melhor: o que era bom
para si e para sua sociedade.
Thatcher, Reagan, FHC
transformaram ideias em emissão de moeda,
repressão às greves, privatização de estatais,
redução de impostos sobre o capital,
elevação dos juros, corte de gastos sociais —
viva a LIVRE concorrência!

Bem estar não é coisa para os ratos da rua.
Não é para quem não entende palavras difíceis.
Quem é que precisa estar bem?
Senão quem é mais forte,
não importa como ou por quê.
A enxada agora escolhe
quem ela vai usar na terra.

Foi por aqui que aos trabalhadores
deu-se a enorme liberdade
para demitirem-se voluntariamente:
com toda a vontade dos patrões
— e eles, que almocem o seu maior medo!
Que almocem a demissão!
É para o bem maior.

É preciso que aprendam!
Que deixem de ser preguiçosos!
A escola está lá para preparar o povo
O dono do foguete voa mais alto
que o homem com a chave de grifo
debaixo da poeira e da fumaça. É óbvio.

A casa vazia torna-se mais importante
que o dinheiro, que as pessoas,
é uma luta e timing é o segredo.
O que o homem precisa aprender além
do fato de que nós fazemos o que é preciso?

Entre a lua e o mar,
há uma distância infinita.
Tão infinita a distância
entre zero e um.
Ainda assim, dependem das luas as marés.
Ainda assim, dependem do zero os uns.

O alto da montanha fica mais estreito
a cada ano, a cada crise,
mas assim é a vida na disputa.
Por isso, não chore hoje, meu bem!
Não chore nunca.
É para o bem maior.

Do zero

No dia seguinte,
não havia dia anterior,
e por conseguinte,
não havia historiador.
O que era passado,
amarrotou.
O que era errado,
se consertou.
E o Brasil,
desabrochou,
desproibiu,
desexistiu.