Nebulosa

Pelos braços das águas vou
Nadando em parco rio
Sedento de oceano.

Pelas ondas de água pura ando
Desafio gravidade e cosmos,
Barqueta que sonha transatlântico.

Crio veredas, traço avenidas,
Colcheias e semínimas
Numa trama musical.

Ébrio e etéreo
Sou nascituro reverso
Com a inocência de um pardal.

E soa o canto
E soa o grito
E suo deveras:
Preciso de varais!

Eis que renasço
Eis que me crio
Eis que sou filho
Eis que sou pai!

Do beijo o prazer
De gestar mais estrelas,
Do olhar o calor
De queimar sem rubores.

Do hálito a promessa,
A derradeira sentença:
Amo-te e
Sempre me amarás.

Eu, filho do carbono
Tu da primavera fugaz.
 

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RED

 

   Vermelho. Rosas vermelhas brotam do concreto. Com espinhos tão belos quanto suas pétalas. Suas folhas tão frescas quanto a sua esperança. A juventude que lhes é roubada pelo tempo fragilizam, mas não aparam seus espinhos, e suas pétalas ainda tão vermelhas, tão vívidas como vinho tinto.

 

Espera

 

  Ficou suando. Inquieto. Atento a cada som que vinha detrás da porta. Atento a cada silvo, assobio, passo ou riso que indicasse presença humana. As órbitas gigantescas remexiam-se sem plano de vôo, e os ouvidos já queixosos não paravam de tentar apreender tudo e prever o futuro.
  A porta descerra abrupta e sonoramente. Apenas uma rajada de vento conduzida por um outro ser vivente. Não o seu ser vivente. Aquele que morava por detrás de seus olhos, no meio do seu peito e dançava por todos os seus pensamentos.

   

O Segurança do mês

 

  Olhou aquela rua como sempre fizera. Scanneou as pessoas como fora treinado. Fixou sua atenção das figuras de risco, ajeitou o coldre enquanto passara o rádio. Sempre sem se mexer ou externar sentimentos.
  Os movimentos cada vez mais escassos.A eficiência cada vez crescente. Nenhum ladrão, pilantra ou estelionatário fugia do radar do homem-armário. No seu passeio negro e sapato engraxado.
  Sem ninguém para lhe guardar ou ao menos sorrir. Ou para lhe abraçar, ou ao menos ouvir. Um olho para olhar, um colo para dormir.
  Tornou-se tão petrificado como a carrara da fachada. Perdeu os olhos, a pele e o cabelo ralo. O crachá caiu por não prender-se num peito. Seu coração palpita agora como o relógio da fábrica.

 

2011

 
Ascende lume primo
Na abóboda de doze céus
Orientando nossas venturas.

No amanhã salta
O nobre leporídeo astuto
Ventilando-nos com mãos de Atena,
Os pensamentos e os atos.
 

São Cristovão

 

  As nuvens mui densas aquarelam o chão e o céu, me deixando sem horizonte. Meus olhos lacrimejam tentando enxergar terra seca. Quando perdidas as esperanças avisto barco enegrecido e vagante, que aporta aos meus pés espalhando areia. O kybernéces é um pedinte cego, de cuja boca escorre seiva dourada. Todo bién. Estoy listo. Posso finalmente dormir e esquecer.

 

Que diabo de nome é esse?

 

  Lucem Fero Dei. É uma frase latina que significa ‘eu carrego a luz de Deus’. Nas traduções admite-se o que carrega a luz ou aquele que carrega a luz. Tal sentença surge das palavras Lux (luz), Fero (eu carrego) e Deus (Deus), que dará nome ao príncipe dos anjos caídos: Lúcifer.
  Na verdade Lúcifer é o mais devoto do Todo-Poderoso, pois apenas aceitou glorificar o mesmo e não uma criação abaixo da ordem angelical e cheia de defeitos: o homem. Logo, ele era também o iluminado que via o quão violenta é tal raça, recusando-se pois a aceitá-la, muito menos prestar-lhe graças. Se Lúci tentou roubar o trono da Divina Providência foi para colocar um pouco de juízo na cabeça do Senhor.
  Diz a lenda que com terça parte dos anjos – os nefilin – Lúci desceu do Paraíso para um vale profundo no qual dividiria o planeta com tão odiada criação, tornando-lhe a vida insuportável, necessitando, pois, os homo sapiens da graça de Deus (um quê de Zeus e a glorificação da humanidade alimentando sua imortalidade). Porém penso que Lúcifer nada fez, apenas nos deixou na solitária com nossos pensamentos, atos e omissões, tornou cada um e todos um Inferno particular.
  Não. Não sou adorador da trevas (embora goste muito do Harry Potter). Não sou umbandista (embora ache uma interresante religião e seja afro-descendente). Apenas quero refletir o quanto somos aliciados a crer que o problema está em alguém que não seja nós mesmos, que a atual soberania do Homem sobre a natureza não tem nos levado à morte iminente e apenas a alguns problemas no tempo, que tudo pode ser reduzido a dinheiro e os valores facultativos de acordo com as vantagens.
  O que eu quero? Ser a luz e não as trevas.