A sopa das bruxas

Quando éramos crianças, geralmente no inverno, minha mãe nos deixava brincar depois da escola enquanto ela preparava o jantar na cozinha. Lembro que o aroma era marcante, curioso e confortável, sempre.

Eu tinha a impressão que não era tarefa fácil deixar a comida cheirosa e gostosa. Sem ser sopa de feijão com macarrão de letrinhas – arrisco que fosse a minha preferida-, acho que minha mãe se sentia desafiada. Mas, se ela arriscava, é porque sabia fazer. Hoje, tenho certeza disso.

Crescendo, passamos a frequentar a cozinha e aprender a manipular os alimentos junto a temperos. Minha mãe nunca foi chef de cozinha ou decoradora de pratos. Sopa nunca pareceria tão apetitosa quanto um strogonoff com batata palha, mas não me lembro de não ter gostado de alguma sopa que ela fez. E foram (e são, ufa!) muitas.

Os invernos continuaram com sopas e amigos. Descobri que o segredo nunca teve o intuito em sê-lo, eu entendi que cheiro e gosto é uma combinação entre tudo que tem na geladeira misturada com todas as ervas, sementes, folhas ou raízes cheirosas que habitam em vidrinhos na cozinha e que, intuitivamente minha mãe se arriscava em experimentar.

Quando ficávamos doentes, do corpo ou do coração, sempre vinha uma “sopa da bruxa”, pra curar.

Quero esclarecer: as bruxas no meu imaginário foram construídas por estórias infantis, aliadas a aulas de história pela minha mãe sobre mulheres sábias, guerreiras, políticas, filósofas, musas, autônomas, artistas (sempre informal e favorecendo as mulheres), e ao meu interesse pelo esoterismo juvenil. Sempre quis ser uma. Minha compressão sobre ser bruxa estava muito além de ser má, feia ou invejosa (como nas estórias infantis), estava – e está! – perto do que considero a sabedoria, a simplicidade, a solidariedade. E o respeito e a interação com a natureza (e a química que envolve tudo isso) de forma respeitosa. Provavelmente próximo ao que minha mãe definiria o que é ser uma bruxa.

De uma maneira indefinida, mas sempre recorrente, tomar uma “sopa de bruxa” – como minha mãe intitulava esse tipo de refeição – era tomar aquela sopinha na hora certa da necessidade. Seja pelo frio que estava até entrar em casa, seja pela fraqueza do corpo e espírito.

A “sopa de bruxa” é para mim aquela sopa – seja qual sabor, ingrediente e tempero possua – que é feita para um momento. Momento esse que considero como o encontro entre a necessidade de alguém e o seu afeto por esse alguém, manifestado no mais harmonioso aroma e sabor que uma simples sopa de feijão ou canja poderia ter e que, possivelmente nunca se repetirá. Pode ser de legumes, cebola, entende?

Atualmente me considero meio bruxa. E também reconheço minhas amigas bruxas. São aquelas que sentem ou sabem como agir quando uma bruxa não está bem – por motivo pequeno ou grande, mas sempre relevante. Com todo respeito e amor do mundo, uma bruxa vai até sua geladeira, quintal ou supermercado (tempos modernos, afinal) e transforma seu amor, amizade, solidariedade e afeto em alimento para os sentidos.

Hoje tomei a sopa de outra bruxa, que a fez especialmente para mim. E, arrisco a dizer – embora nada se compare às sopas das mães ou das bruxas mães – está entre as melhores. Chegou quando precisava chegar, percebi em segundos, pelo aroma, pelas cores e pelo sabor. Sabor amizade, irmandade, bruxaria.

Segue a receita.

Ingredientes: sabor, cor, tempero, amor e o que se tem.

Lembre-se: O que alguém precisa é o que podemos dar.

Modo de fazer: intuir, experimentar e usar a coragem.

Dica: Não há segredo, é simplicidade.

A organização do Universo-natureza é simples, perfeito. Minha mãe não está aqui, mas a tenho em mim. Assim como todas as bruxas.

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