C.

meu corpo não é um corpo,
carbono,
osso,
carne,
sangue –

há muito mais sangue,
no meu sangue:
sangue e fumaça,
sangue e lágrima,
sangue e doença,
há muito mais sangue
no meu sangue:
corre na minhas veias
o sangue de todos,
o sangue dos deuses
e dos ratos;

há um gancho de metal
segurando meu corpo
num inverno interminável;
minha carne está podre,
crua e bem-passada,
inúmeros lutadores
desferem murros ferozes
cada um com
a dor de ser campeão
a dor de não ter
outra escapatório:
os caminhos abertos
pelos chicotes da escravidão,
mesmo os modernos
em forma de pequenos gestos
e palavras,
os caminhos formados,
a carne deformada é a minha carne,
a carne de quem vai ao matadouro
e não pode morrer,
só sonhar.

meus ossos são as areias
de todas as praias,
as areias de todos os resorts,
as areias que tem donos,
meus ossos são as areias
e os vitrais majestosos da igrejas,
vitrais derretido por desejos
que se colidem
e palavras que espalham
uma esperança irracional
e sem objetivo
meus ossos são as lâminas
em que os suicidas
acham a fuga
para uma tortura desnecessária,
brutal
e covarde.

meu carbono é todo a tabela periódica:
meus olhos são tornados,
meus ombros incêndios,
meu estômago o espaço sideral,
meus pés são um grito,
meus dentes são o medo.
Minha alma não é uma alma:
O meu peito guarda o futuro
Quando o futuro é apenas
uma luz para o passado.

Por isso, se prepare.
Tudo isso leva
um piscar de olhos.

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