Hikouki/Pontas gastas

Às vezes, eu imagino um avião passando no céu,
imagino quem está indo, quem está animado, triste,
quem está prestes a nunca mais voltar.
Imagino também que eu não estou nele.
No meu caso, crio e recrio a cena da despedida:
a despedida é perfeita,
o momento em que o pecado mental desaparece,
a morte prematura, a absolvição por um dia,
depois um ano.

Fora da terra será doloroso porque
todas as minhas raízes serão arrancadas à força
e haverá uma neblina de sangue
sobre o Estado do Rio de Janeiro —
todas as minhas sementes ruins,
toda estrutura torta que eu construí
fará jorrar um pouco de mim,
um pouco de suor, saliva, pus.

Ainda presa na parte mais suja de terra,
que não se tira facilmente das unhas,
estarão todos os quebra-cabeças abandonados
de mim mesmo,
as peças machucadas como se um bebê
tentasse a toda vitalidade encaixar
um quadrado no espaço de um triângulo.

Um líquido cortante como sinal do tempo esguio
continuará seu ciclo de dilaceramento:
que me faz sorrir a cada derrota própria,
sorrir e esmurrar o sorriso de vidro polido.

O inevitável é que estarei no avião,
haverá uma despedida
e logo após, parto
num parto que como todo nascimento e morte
vem antes do esperado, ninguém está preparado.
Parto ao meio de mim e assim se parte
a parte infeccionada do que nem pode restar
daquilo que eu tentei dizer
mas ninguém entendeu mesmo.

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